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OS LIVROS PROIBIDOS DE MARTA MINUJÍN

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Parthenon of Books, 2017. Documenta de Kassel – Marta Minujín

Já imaginaram uma construção imensa feita apenas de livros? E que livros seriam esses? Conheça um pouco sobre a artista Martha Minujín e o seu projeto “Parthenon of Books”, um dos grandes destaques da Documenta de Kassel de 2017. A obra da artista nos ajuda a pensar sobre a relação entre arte e censura.

Marta Minujín nasceu no dia 30 de Janeiro de 1943 no bairro de San Telmo, em Buenos Aires. Estudante do Instituto de Arte da Universidade Nacional, ela expôs pela primeira vez seu trabalho em um show de 1959 no Teatro Agón. Uma bolsa de estudos da National Arts Foundation permitiu-lhe viajar a Paris como um dos jovens artistas argentinos apresentados em Pablo Curatella Manes e Trinta Argentinos da Nova Geração, uma exposição de 1960 organizada pelo proeminente escultor e juiz da Bienal de Paris.

Em 1965, com o golpe de Estado do General Juan Carlos Onganía, o novo regime frequentemente censurava e proibia exibições irreverentes como a dela. Minujín mergulhou em arte psicodélica em Nova York, dentre as suas mais conhecidas criações, o “Minuphone”, onde as pessoas podiam entrar em uma cabine telefônica, marcar um número e se surpreender com as cores que projetam dos painéis de vidro, sons, e se vendo em uma tela de televisão no chão. Ela estava à disposição em 1971 para a estreia em Buenos Aires e em Nova York, onde também fez amizade com o artista conceitual Andy Warhol.

Minuphone 1967 Marta Minujín

Em 1966, Minujín se mudou da Argentina para Nova York graças a uma Bolsa de Guggenheim. Sua imersão na cultura psicodélica e hippie da cidade contrastava com um período de ditadura repressiva em seu país de origem. De volta à Argentina em 1976, Minujín voltou sua atenção para a noção de monumento público, reconsiderando a tradição de esculturas clássicas e elementos arquitetônicos com a introdução de material efêmero ou comestível, como por exemplo, El Obelisco de Pan Dulce 1979 para isso, ela criou uma estrutura de 30 metros de altura coberta por 30 mil pães doces, que foram então entregues ao público. O trabalho, além disso, foi o primeiro maior monumento comestível do mundo. Tais projetos foram uma tentativa de abordar símbolos da identidade nacional através da lente da vida cotidiana. Com o retorno da democracia à Argentina em 1983, o interesse de Minujín em revisitar as convenções e autoridade da escultura e arquitetura pública a motivou a criar seu próprio monumento à liberdade de expressão.

Em 1983 nasce a obra “Parthenon of Books”, um dos projetos mais interessantes da artista Marta Minujin, em que reconstruiu o templo grego clássico do Parthenon da Acrópole em Atenas, com estrutura de livros que foram censurados na ditadura.  Realizado na movimentada Avenida 9 de julho, na cidade natal de Minujín, Buenos Aires, a artéria central da cidade, o Parthenon of Books foi construído usando uma estrutura tubular com uma extensão de quinze metros de comprimento, trinta metros de comprimento e 12 metros de altura. A esta estrutura foram anexados mais de 20.000 livros, cobrindo completamente as colunas, frisos e frontões do templo.

Minujín escolheu livros que foram banidos durante a ditadura militar argentina (1976-83), incluindo obras de autores como:

Sigmund Freud

Karl Marx,

Jean-Paul Sartre,

Adam Smith,

Ernesto Sábato,

Antonio Gramsci,

G.W.F. Hegel,

Ernest Hemingway,

Jorge Luis Borges,

Marguerite Yourcenar e Michel Foucault,

bem como volumes de referência, como a Enciclopédia Salvat e histórias infantis, incluindoO Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Os livros foram doados por mais de trinta e cinco editoras, que mantiveram muitos deles armazenados graças à coordenação da Câmara do Livro Argentino. Um monumento à restauração da democracia em seu país natal, o projeto público de Minujín foi inaugurado em 19 de dezembro de 1983, apenas uma semana após a restituição da democracia.

A réplica de Minujín do ícone principal da polis ateniense democrática tornou-se um símbolo nacional da restauração da democracia na Argentina. Em vez de um monumento convencional, no entanto, seu ambicioso projeto foi concebido como um trabalho participativo em um espaço público. Também foi concebido como uma intervenção temporária, para ser eventualmente desmantelado. Em 24 de dezembro de 1983, com a ajuda de dois guindastes, a estrutura foi inclinada para um lado, permitindo ao público remover os livros. Cerca de 12.000 volumes foram distribuídos entre os presentes, enquanto os restantes 8 mil foram enviados às bibliotecas públicas. A intenção de Minujín era, como disse, “retornar o trabalho ao público” (citado em Noorthoorn, 2011, p.37) pela curadoria da exposição.

Parthenon of Books 1983 Marta Minujín
Parthenon of Books 1983 Marta Minujín

DOCUMENTA DE KASSEL

Em 1955 Kassel destruída pela guerra, com grande a fome de arte, o artista Arnold Bode fundou a “documenta”. A maior exposição de arte contemporânea do mundo surgiu nas ruínas do Museu Fridericianum, em Kassel, o primeiro projeto arquitetônico de um museu público construído na Europa, em 1779, e parcialmente destruído nos bombardeios de novembro de 1944. Dentro das ruínas caiadas, os 130 mil visitantes puderam apreciar 670 obras de 148 artistas das vanguardas modernas, entre os quais Pablo Picasso, Paul Klee e Marc Chagall.

Resgate da “arte degenerada” – A motivação do artista Alfred Bode e do historiador da arte Werner Haftmann era reabilitar as vanguardas modernas, cujas obras haviam sido excluídas dos museus e em parte destruídas pelos nazistas como “arte degenerada”. O nítido propósito político da mostra de 1955 viria a se tornar a marca registrada da documenta.

Atualmente a artista Marta Minujín, volta a expor o monumento “Parthenon of Books” na DOCUMENTA 14 neste ano de 2017. Com a colaboração de estudantes e professores da Universidade de Kassel, Minujín selecionou mais de 170 títulos proibidos em vários países em todo o mundo. É possível consultar uma lista com mais de 120.000 títulos banidos atuais, que compõem a obra.

 Para consultar esta lista de livros banidos, clique aqui.

Abaixo alguns livros dessa lista que tiveram publicação no Brasil:

  • Aristophanes: Lysistrata (Lisístrata: a greve do sexo)
    Brown, Dan: The Da Vinci Code (O Código da Vinci)
    Carroll, Lewis: Alice’s Adventures in Wonderland (As aventuras de Alice no País das Maravilhas)
    Cervantes, Miguel de: The Ingenious Gentleman Don Quixote of La Mancha (O engenhoso cavaleiro Dom Quixote de La Mancha)
    Coelho, Paulo: The Alchemist (O Alquimista)Einstein, Albert: The Foundation of the General Theory of Relativity (A fundação da teoria geral da relatividade) Freud, Sigmund: Civilization and its Discontents (O mal estar na civilização)
    García Lorca, Federico: The Poet in New York (Um poeta em Nova York)
    Goethe, Johann Wolfgang von: The Sorrows of Young Werther (Os sofrimentos do Jovem Werther)
    Kafka, Franz: The Metamorphosis (A metamorfose)
    Kundera, Milan: The Unbearable Lightness of Being (A insustentável leveza do ser)
    Machiavelli, Niccolò: The Prince (O príncipe)
    Marx, Karl, und Friedrich Engels: Manifesto of the Communist Party (O manifesto comunista)
    Neruda, Pablo: Twenty Love Poems and a Song of Despair (Vinte poemas de amor e uma canção desesperada)
    Orwell, George: Animal Farm  (A revolução dos bichos)
    Pasternak, Boris Leonidovich: Doctor Zhivago (Doutor Jivago)Remarque, Erich Maria: All Quiet on the Western Front (Nada de novo no front)
    Rushdie, Salman: The Satanic Verses (Os versos satânicos)Saint-Exupéry, Antoine de: The Little Prince (O pequeno príncipe)Salinger, J. D.: The Catcher in the Rye ( O apanhador no campo de centeio)
    Swift, Jonathan: Gulliver’s Travels (Viagens de Gulliver)
    Twain, Mark: The Adventures of Tom Sawyer (As aventuras de Tom Sawyer)
    Voltaire: Candide or, All for the Best (Cândido, ou o otimismo)
Parthenon of Books, 2017, Marta Minujín.
Parthenon of Books, 2017, Marta Minujín.

VIDEO INSTALAÇÃO PROCESSO The Parthenon of Books 2017

Por censura, entendemos o exame a que são submetidos parte de trabalhos artísticos ou informativos, com base em critérios morais ou políticos, para avaliação sobre a conveniência de serem liberados para apresentação ao público em geral. A censura foi uma das armas de que regimes militares ou autoritários se valeram para calar seus opositores e impedir que qualquer tipo de mensagem contrária a seus interesses fosse amplamente divulgada.  O regime militar no Brasil usou de critérios políticos na censura das artes, espetáculos e jornalismo. Serviu-se principalmente de critérios morais e fundamentalistas .

Como podemos perceber por essa amostra de casos de censura e interdição que ocorrem na atualidade, em diversas partes do mundo, os motivos e as justificativas não são novos – há mais de um século que grupos políticos levam autoridades civis e militares a impedir a veiculação a exposição de obras de arte que, de alguma forma, parecem ferir princípios éticos e morais ou, simplesmente, prejudicar os interesses de grupos que ocupam lugar de destaque na sociedade. E, embora os critérios censórios sejam datados e suscetíveis de variação no tempo e no espaço, as justificativas parecem se valer de princípios universais, capazes de garantir o apoio da opinião pública às diferentes formas de intervenção. Por mais que saibamos que a moralidade sofre, cada vez mais, rápidas transformações, continuamos a defender certos valores como universais. Proteger crianças, opor-se à violência, defender minorias étnicas, religiosas e raciais. Todas essas ações parecem condutas unanimemente desejáveis, padrões éticos inatacáveis e, sempre que os interesses de um governo, de uma empresa, de uma instituição laica ou religiosa, pública ou privada, puderem ser revestidos dessas justificativas, a interdição, a intervenção e a censura se tornam, senão políticas, ao menos moralmente aceitáveis. Durante séculos, a defesa de dogmas religiosos foi uma das mais importantes justificativas para a existência da censura no Ocidente, já na atualidade, movimentos sociais e religiosos entram em conflito.

Conflitos dessa ordem, assim como a falta de consistência e coerência nos critérios censórios que hoje não contam com procedimentos estatuídos e princípios legais detalhados, obrigam à revisão de certos conceitos, bem como a análise de tendências que emergem na sociedade. Termos como tolerar, difamar, denegrir, espionar, informar, invadir a privacidade e incitar a violência necessitam ser melhor definidos, de modo a se indicar com certa precisão esse tipo de comportamento. Também se torna cada vez mais necessário precisar o que vem a ser criticar, denunciar, condenar e defender. O que não podemos permitir é que a velha disposição de autoridades e grupos no poder em impedir a discordância por motivos que sejam nobres, éticos e universais que encubra, como sempre, o verdadeiro desejo de fazer calar a crítica, a oposição, a renovação e qualquer ideia oposta ferindo seus interesses. Devemos lembrar que, independentemente de qualquer justificativa, uma atitude consciente e madura frente a posições discordantes só pode ser tomada pelo embate e livre expressão de argumentos cabíveis. Na atualidade, a censura indireta, plural, incrédula e, muitas vezes, privatizada pode impedir a sociedade da informação de possuir pleno conhecimento de seus conflitos, tirando-lhe o direito de contrapor ideias e de agir em busca de uma solução.

A OBRA DA ARTISTA MARTHA MINUJÍN NOS AJUDA A PENSAR EM ARTE, CENSURA E FORMAS DE RESISTÊNCIA.

DE QUE MODO A ARTE NA EDUCAÇÃO PODE SE TORNAR TAMBÉM UM ATO DE RESISTÊNCIA FRENTE ÀS ARBITRARIEDADES QUE NOS ASSOLAM?

Contribuição: Joe Nicolai – aluno de Artes Visuais (Licenciatura UFRGS).

FONTES :

https://www.artsy.net/artist/marta-minujin

http://www.documenta14.de/en/artists/1063/marta-minujin

https://flash—art.com/article/marta-minujins-the-parthenon-of-books-a-living-elevation-of-social-and-cultural-relations/#

https://www.travel-zone-greece.com/blog/parthenon-books-1983/

Artista Marta Minujín 2017
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