Inventar novas relações entre arte, educação e docência

Que imagens e palavras queremos deixar para o futuro?

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Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempo, mesmo de superfície ou volume reduzidos.

Gilles Deleuze, em entrevista a Antônio Negri[1]

 

Formação e criação como proliferação de formas

Todo percurso formativo é singular, acontecimental. Ainda que implicado em um currículo e que esse currículo esteja atravessado por regras mais ou menos gerais, as quais ditam o que é importante ser ensinado/aprendido em uma determinada fração de espaço/tempo, cada indivíduo – que em si já é um arranjo extremamente complexo de referências externas ao referido currículo – produz conexões e relações únicas com os elementos (materiais e imateriais) que o são apresentados, ou com os quais ele se encontra em uma proposta de formação.

Um percurso formativo pode ser pensado, portanto, como nos diz Alexandre de Oliveira Henz[2], como um percurso de-formativo, na medida que não almeja a busca alucinada por um formato cristalizado ou ainda o encaixe em uma fôrma, mas antes, talvez, a proliferação de formas. Formas de ver, de dizer, de fazer, de se movimentar por um determinado campo, por um determinado território ou domínio específico, esse último, condição primordial para a criação, de acordo com Gilles Deleuze (em O ato de criação). Cria-se não porque certo dia decide-se criar algo do zero, mas sim porque necessariamente ocupa-se por algum tempo um campo, uma zona, uma arena por onde circulam e onde estão em disputa técnicas, materialidades e semióticas específicas que nos dão elementos para criar.

Criar é diferente de reproduzir, de repetir mecanicamente ou mesmo de refletir. Criar é sustentar um estado que requer combinações multíplices entre elementos que constituem um território. É, portanto, rearranjar as margens móveis desse território que se mostra sempre aberto para que novas forças o reorganizem.

Criar não é apenas fundar, mas antes ocupar. E ocupar de um modo singular, de modo a ampliar horizontalmente possibilidades de mundo neste mundo (não além dele).

 

Considerando que um curso, uma disciplina ou uma determinada atividade se tratam de domínios específicos que compõem uma variedade de experimentações, o que seria possível – através de uma imagem e de uma escrita breve – deixar como rastro para que outros possam se munir de possíveis cintilações de uma experiência que continua reverberando? O projeto Postais para o Futuro orienta-se por essa questão na medida que, considerando essa sobre-justa-posição de espaços e tempos, entende que formar-se é criar e criar-se. Também é lançar pistas, enigmas, é deixar fios soltos para que outras e outros continuem a tramá-los de outro modo.

 

Inicialmente esse projeto surge nas atividades de Estágio do curso de Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul mediante a seguinte questão feita às estagiárias e aos estagiários do ano de 2016, que criaram cartões postais baseados nela:

a partir de suas vivências com o Estágio de Docência Obrigatório, o que você diria a um/a estagiário/a do futuro, um/a estagiário/a que está por vir?

 

Em função do intuito de manter o projeto vivo por um longo período – a intenção é que ele sobreviva por pelo menos dez anos – estudantes e profissionais de outras universidades começaram a se unir à proposta nos anos subsequentes e, inclusive, experiências para outros cursos de formação nela inspiradas começaram a surgir como uma espécie de devolutiva ao convite lançado por ele. A coleção de postais, bem como o resultado dessas outras práticas, vêm sendo constantemente publicadas no blog do projeto: postaisparaofuturo.wordpress.com .

 

O futuro é agora

Quando, no âmbito da proposta mencionada, nos referimos a um ‘futuro’, certamente não é em um futuro utópico e inalcançável que apostamos, mas em um futuro enquanto construção de um plano coletivo de co-engendramento, conforme acena Virgínia Kastrup[3]. Ou seja, enquanto plano de produção de subjetividades, que coexiste com o que ele produz e que se desenvolve além dos indivíduos e aquém das pessoas. É de um futuro que se abre como possibilidade no agora e que demonstra as tramas, as engrenagens que arranjam e fazem funcionar determinadas concepções (aqui, no caso, de docência, de formação, de escola, de experiência de estágio, entre outras).

 

Nesse sentido, a noção de arte a qual o projeto Postais para o Futuro manipula, passa pela arte não somente como campo de saber a ser ‘aprendido’, mas pela arte enquanto postura, enquanto ponto de vista ou lente para produzir um olhar atento às experiências e processos. Arte como ensaio de modos de existência mais flexíveis e inventivos em meio à vida.

 

Interessa o que cada um escolhe – enquanto imagem e palavra – para dizer de seu percurso formativo. Tratam-se de camadas de afetos, de redes de conexões plurais e de uma constelação de visualidades e escritas que não querem se impor como conselhos ou verdades, mas como potência para infinitas outras possibilidades experimentativas em um presente que se distende infinitamente entre um passado que continua vibrando e um gérmen de futuro que se oferece no agora.

 

 

Notas:

[1] Disponível aqui: <http://clinicand.com/2018/04/28/596/>

[2] Disponível aqui: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1518-61482009000100006>

[3] Disponível aqui: <http://www.scielo.br/pdf/pe/v10n2/v10n2a17>

 

Cristian Poletti Mossi (cristianmossi@gmail.com) é professor do Departamento de Ensino e Currículo da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atuando também como docente no Programa de Pós-Graduação em Educação dessa universidade (linha de pesquisa Arte, Linguagem e Currículo). Investiga possíveis articulações entre processos de criação, docência e pesquisa em Arte e Educação. É vice-líder do Arteversa.
Carolina Kneipp (carolinagkneipp@gmail.com) é estudante de Licenciatura em Artes Visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, integra a equipe educativa da Fundação Iberê Camargo, e é bolsista de Iniciação Científica orientada pelo Prof. Cristian Poletti Mossi. Interessa-se pela produção de fricções entre arte-educação-mediação-antropologia-filosofia-etc. É membro do Arteversa.
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[…] ‘futuro’ a que se refere o título deste texto, retoma e dá continuidade ao texto anterior sobre o projeto Postais para o […]