O novo livro

Na Weekly Standard, David Skinner conta de sua experiência com o Sony Reader, a proposta de livro eletrônico da Sony. É um aparelho como Palm só que do tamanho aproximado de um livro no qual se pode armazenar livros eletrônicos comprados da loja eletrônica da Sony. A empresa promete, no futuro, maior distribuição do catálogo de livros.
“O Reader, que estou testando faz algumas semanas, deixa claro que livros não são mais essenciais para o prazer da leitura. Também deixa claro que os fabricantes têm lá seu jeito de ir melhorando os equipamentos que fazem. Eles sabem disso.
O aparelho custa 350 dólares sem nenhum livro carregado. Como mede 13 por 18cm, tem mais ou menos o tamanho de um livro pequeno. É fino e leve, mais fácil de carregar do que um volume de capa dura. Só a tela já vale todos os elogios para a Sony. Diferentemente de um monitor de computador, que precisa de luz de fundo, não tem profundidade e traz resolução ruim, a tecnologia E Ink da Sony é quase tão boa quanto papel. Para ler, é preciso ter uma fonte externa de luz, como o papel – ou seja, não resolve seu problema na cama quando há alguém dormindo ao lado -, mas ler um romance nele não traz qualquer desconforto.”
O aparelho tem formato proprietário, então não é qualquer livro eletrônico que ele lê. E a oferta – todos livros em inglês – é pouca. Isto mudará, de acordo com a Sony. Lê PDF, mas arquivos produzidos tipicamente com o formato Carta ficam muito reduzidos na tela. Folhear não tem nada de elementar, tampouco produzir anotações. Já marcar páginas é fácil – nunca mais um marcador fará falta no momento da interrupção.
Aí provavelmente vai do fetiche de cada um. Minha experiência musical mudou radicalmente com o iPod – ouço mais música do que jamais ouvi, embora isto não fosse lá muito de início. Ter o aparelhinho comigo sempre, no entanto, é ter praticamente todos meus discos à mão. No momento de Springsteen, ele está ali. Caetano também.
E se um aparelho destes fosse o equivalente a uma biblioteca? Tenho amigos que não viram dificuldades em desalojar seus CDs mas continuam com os LPs nas prateleiras.
O hábito é de cada um. Leio mais de um livro ao mesmo tempo. No momento, a autobiografia do teólogo alemão Hans Küng, um policial do norte-americano Dennis Lahane e, por conta de uma reportagem na manga, um volume chamado A corte no exílio, sobre a estadia da família real em Terra Brasilis – além dumas duas revistas do mês que estão na pasta. Pesam eles todos juntos. E a dor nas costas ao fim do dia o acusa. A desorganização literária é de inteira responsabilidade do blogueiro. Então, sim, é um bocado agradável a idéia de carregar uma maquininha com todo este material.
De manhã, no metrô, dá para decidir o que ler clicando numa tecla.
O problema – e aí entra o fetiche – é que se livrar das estantes em constante crescimento, daquela trilha de lombadas multicoloridas que a cada mudança dão prazer de arrumar, é inviável. Quando entra a coleção – aquele livro que faltava às prateleiras que contam a história do Rio de Janeiro – fica ainda mais difícil a idéia de abandonar tudo. Some-se a isto o prazer da bela encadernação, de couro com papel marmorizado, do livro com mais de século, com mais de dois – mais de três ou quatro. Aquela aquisição num sebo.
O problema do eBook é que, embora prático, não compete com o fetiche dos livros. Um fetiche que vai além do fetiche: cada volume conta, um pouco, um momento da vida, tem uma memória. Isto não é nada, certamente, que as novas gerações não possam simplesmente descartar em favor da praticidade.
Publicado por Pedro Doria