Memórias do Instituto Oswaldo Cruz: Ciências biomédicas e medicina experimental numa das mais tradicionais revistas científicas da América Latina

Em abril, a Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ – comemora o centenário da revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, primeiro periódico científico criado na América Latina. Publicado seis vezes ao ano e com frequentes edições de suplementos, oferece acesso gratuito ao seu conteúdo integral publicado desde 1909 e está indexada pelo Scopus, a maior base de resumos e referências biliográficas disponível na atualidade. A disponibilização on line de todo o material foi uma das primeiras ações do pesquisador do IOC Ricardo Lourenço, quando assumiu o cargo de editor da revista, em janeiro de 2007. Também vice-diretor de Políticas de Ciência e Tecnologia do instituto e editor associado da revista desde 2002, Lourenço é médico veterinário (UFF) com mestrado em Biologia Parasitária (Fiocruz), doutorado em Parasitologia Veterinária (UFRJ) e pós-doutorado em Dengue (Instituto Pasteur, Paris). Integra, ainda, o Comitê Nacional do Controle da Malária e da Dengue.
Num breve bate-papo com a Elsevier News, ele contou detalhes da trajetória da revista e analisou os fatores que influenciam sua projeção:
“Desde sua criação, a Memórias quis ser internacional. No expediente do seu primeiro número, Oswaldo Cruz, o editor, dizia que o espaço destinava-se às novidades do instituto, mas que também estava aberto a trabalhos de pesquisadores de fora. Tanto que os textos eram apresentados em duas colunas – se fossem enviados em inglês, português, francês ou espanhol, saíam também em alemão. Nos anos 90, passou-se a publicar praticamente só em inglês, até porque, sabendo que o trabalho vai ser mais lido, as pessoas já mandavam (e continuam mandando) neste idioma. Aliás, desde o início de 2008, todos os trabalhos em inglês são revisados por especialistas do American Journal Experts.
A submissão on line, que começou em 2007, favoreceu bastante o envio de artigos de pesquisadores internacionais – principalmente oriundos da Ásia e África, alunos de doutorado desses continentes orientados por alemães, franceses… Passamos a receber também mais trabalhos dos Estados Unidos, só não notamos aumento da América Latina. Certamente, o novo sistema de submissão também contribuiu para a elevação do nível de citação – por mais que ele seja um pouco prejudicado pelo fato de a revista ter uma linha variável, que cobre da epidemiologia de uma doença até a microscopia eletrônica específica de um assunto. Ao mesmo tempo, nós nos destacamos entre os periódicos da área, entre outros razões, por termos uma recorrência de temas como Doença de Chagas, Esquistossomose, Dengue, Aids, Hepatite, Leishmaniose e seus vetores e parasitas. Os bons autores desses assuntos acabam preferindo publicar aqui. O fato de estarmos indexados em bases de dados como Scopus e Scielo também aumenta muito a nossa visibilidade. Só o fato de encontrar um periódico latino-americano como o Memórias entre os mais citados é sinal de que está indo bem.
O desafio é justamente o de fazer com que mais pessoas do mundo inteiro leiam e citem a revista. Um dos movimentos nessa direção foram as modificações feitas no conselho editorial. Convidei pessoas mais novas, desconvidei algumas menos atuantes e incluí, principalmente, gente de fora da instituição e de fora do Brasil. É nossa intenção, ainda, investir em mais revisores estrangeiros – este foi um dos conselhos dados pelo diretor de Desenvolvimento de Publicações Internacionais da Elsevier, Carl Schwarz, que nos visitou recentemente. Também estamos em contato com a editora para a realização de um treinamento para o uso do Scopus, com foco nos bibliotecários e pesquisadores que se interessam por bibliometria. No âmbito interno, as dificuldades que temos, hoje, são de infra-estrutura. Ainda não tenho uma equipe totalmente formada para todas as fases: recepção, editoração, fase final de formatação, revisão. O quadro funcional é pequeno e há restrições para terceirização. Para trabalhar numa revista como essa é preciso uma equipe devotada e capacitada. É uma lida, uma linguagem diferente, é ciência, precisa, exata.