A baixa taxa de vacinação contra a influenza pode ser reflexo das fake news nos últimos anos. Além de imunizar, a vacinação assume um papel complexo e multifacetado na vida social.

Dia D de vacinação contra gripe: vacinação na Unidade de Saúde Assis Brasil em Porto Alegre, 24 de maio. Foto: Cristine Rochol/PMPA
Matéria originalmente veiculada pelo UFRGS Notícias.
Imagine a vacina como um exército que acessa o seu corpo para promover nele uma reação de treinamento de defesa. Ao ingressar no nosso corpo, a vacina faz com que o sistema imunológico produza anticorpos e crie memória imunológica contra um determinado agente infeccioso – vírus ou bactéria. Esse processo protege a pessoa contra doenças ou minimiza a sua gravidade. “Esse agente estranho ao organismo vai estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos, que são as células de defesa, para ampliar a proteção”, explica Maria de Lourdes Giacomini, médica infectologista e servidora junto à Divisão de Promoção de Saúde (DAS/Progesp-UFRGS).
Entretanto, diante do aumento das fake news sobre segurança e eficácia das vacinas nos últimos anos, em especial durante a pandemia de covid-19, o número de pessoas imunizadas tem caído gradativamente. Segundo dados divulgados pela Secretaria da Saúde (SES-RS), apenas 24,6% das crianças entre 6 meses e menores de 6 anos haviam se vacinado contra a influenza até o final de maio deste ano; entre os idosos, o percentual chega a 43%; já entre as gestantes, somente 20,7% foram vacinadas. “A baixa adesão à campanha de vacinação contra a gripe é um sinal de preocupação, sendo que essa realidade colocou o Estado em um pico de internações por gripe no mês passado”, dizem as autoridades.
A dissertação Verdade e pós-verdade: cobertura vacinal no Brasil 2011 – 2021: do sólido ao líquido, defendida por Elstor Hanzen, em 2023, junto ao Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde da Faculdade de Medicina da UFRGS, aponta que houve uma queda acentuada na cobertura vacinal infantil no Brasil entre 2011 e 2021. Segundo o trabalho, esse declínio está fortemente relacionado à ausência de políticas públicas de comunicação eficazes para combater a desinformação e promover a importância da vacinação.
A análise da pesquisa de Hanzen focou quatro imunizantes fundamentais ofertados pelo SUS (BCG, meningocócica C, poliomielite e tetraviral) e revelou índices alarmantes. Em 2021, por exemplo, a cobertura da vacina tetraviral (contra sarampo, caxumba, rubéola e varicela) caiu para apenas 5,71%, após ter alcançado 79% em 2016. A poliomielite, que chegou a imunizar 98% das crianças em 2015, teve 69% de cobertura em 2021. Vale lembrar que a meta estabelecida pelo Ministério da Saúde é de 95% para todas essas vacinas.
“Os dados evidenciam que o Ministério da Saúde não respondeu de forma adequada ao avanço das fake news, o que enfraqueceu o Programa Nacional de Imunizações (PNI) – uma referência internacional desde os anos 1970. Ao contrário, especialmente em 2020 e 2021, no período mais grave da pandemia de covid-19, o governo federal adotou uma postura terrivelmente negacionista, contribuindo diretamente para a disseminação de desinformação sobre vacinas, que até hoje segue causando impacto negativo na saúde”, explica o pesquisador.
Maria de Lourdes Giacomini reforça que a vacina de combate à covid-19 despertou em parte da sociedade uma sensação de descrença com relação à credibilidade de algo disponível à população em tão pouco tempo. “’Como assim saiu uma vacina tão rápido?’ Era a pergunta que eu ouvia com frequência. Entretanto, o que a população desconhece é que a vacina da covid-19 foi construída a partir de tecnologias e pesquisas sobre pandemias anteriores a essa envolvendo os coronavírus”, diz ela.

Na foto, vacinação de combate à covid-19 realizada na Escola de Enfermagem da UFRGS em 2021. Crédito: Flávio Dutra/JU
Professora e pesquisadora da UFRGS, a doutora em Genética e Biologia Molecular Maria Cátira Bortolini explicou, durante a pandemia de 2020, o salto dos coronavírus daquele momento como o terceiro que migrou de animais para humanos. Em 2002, surgiu o SARS-CoV-1 (SARS vem da sigla em inglês de síndrome respiratória aguda grave), originado de um coronavírus de um pequeno carnívoro existente no sul da China e norte da Índia. O SARS-CoV-1 se espalhou por 29 países, infectou 8 mil pessoas e matou cerca de 800. Em 2012, foi identificado o Mers-CoV, causador da síndrome respiratória do Oriente Médio. “Esse coronavírus veio de camelos da Arábia Saudita e também chegou a vários países, infectou cerca de 2.500 pessoas e tinha alto índice de mortalidade: 30 a 40%. A pandemia do vírus SARS-CoV-2 (covid-19) foi transmitida provavelmente por morcegos e matou cerca de 15 milhões de pessoas até o fim de 2021, de acordo com estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS/2022).
Instrumento confiável e de saúde pública
O conhecimento sobre as pandemias ao longo do tempo e o acesso tecnológico permitiram que os cientistas elaborassem uma vacina de forma ágil para o combate à covid-19. Rapidez, neste caso, não quer dizer não confiável. Muito pelo contrário, todos os testes e protocolos foram e são seguidos no desenvolvimento e aperfeiçoamento de uma vacina.
No caso da vacina contra a gripe, sua criação é datada da década de 1930, com testes em larga escala e aprovação nos Estados Unidos entre 1942 e 1945. Atualmente, a necessidade de vacinação anual passa a ocorrer por conta da capacidade do vírus da gripe de sofrer mutações, o que levou ao desenvolvimento de vacinas direcionadas a diferentes cepas do vírus. De acordo com Maria de Lourdes, a vacina da influenza é estudada e aperfeiçoada todos os anos a partir da cepa que circulou no ano anterior. “Todo ano essa nova informação vai ser incorporada por meio de uma pesquisa continuada. Ou seja, todos os anos os cientistas continuam avaliando os vírus e desenvolvendo tecnologias que são seguras para a gente”, explica.
Por isso, é importante que todo cidadão se vacine todos os anos para estar com o sistema imunológico protegido de ataques da cepas mais recentes. “A influenza varia muito de um ano para outro, e, estando vacinada, mesmo que a pessoa tenha a infecção pelo vírus, os sintomas serão mais brandos, reduzindo o risco de casos graves que podem levar à internação na UTI ou mesmo à morte”, enfatiza a epidemiologista.
Muito mais que proteger, a imunização envolve sentidos, práticas, discursos e relações sociais que devem ser consideradas na criação de políticas públicas de saúde. Na dissertação Muito além da imunização: políticas, práticas e tecnologias envolvidas na vacinação em uma Unidade Básica de Saúde de Porto Alegre (RS), Luiza Kramer reflete sobre a mobilização política, social e científica que a vacina suscitou desde o seu surgimento em 1798 até os dias de hoje. Para a autora, o principal trunfo da pesquisa foi desvelar aquilo que, à primeira vista, parece tão naturalizado: a vacina como um simples fato científico.
Ao longo da sua investigação, Luiza abre camadas e evidencia os meandros da ciência e a inserção social de um artefato produzido em laboratório. “Mais do que um recurso biotecnológico destinado à produção de imunidade, a vacina assume um papel complexo e multifacetado na vida social. A decisão de vacinar-se ou não, além de depender de fatores práticos, como acessibilidade e abastecimento, é atravessada por contextos socioculturais, dinâmicas políticas e interpretações individuais”, diz ela.
Ficha técnica
Dissertação: Muito além da imunização: políticas, práticas e tecnologias envolvidas na vacinação em uma Unidade Básica de Saúde de Porto Alegre (RS)
Autora: Luiza Ferreira Kramer
Unidade: Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS/UFRGS)
Dissertação: Verdade e pós-verdade: cobertura vacinal no Brasil 2011 – 2021: do sólido ao líquido
Autor: Elstor Hanzen
Unidade: Programa de Pós-Graduação em Ensino na Saúde (PPGES/UFRGS)
Confira AQUI o vídeo que a UFRGS TV fez sobre os mitos e as verdades da vacinação.
Texto: Nicole Trevisol
Revisão: Cristina Thumé Pacheco

