O pertencimento à Universidade: como promovê-lo?

*Foto: Flávio Dutra/JU

Bem-estar | A psicóloga Gabriella Koltermann fala sobre os mecanismos de se sentir parte do ambiente universitário e o papel da Instituição em promover esse sentimento

Artigo originalmente publicado no Jornal da Universidade

A necessidade de pertencimento parece estar fortemente enraizada na biologia humana. Constantemente buscamos vínculos e conexões uma vez inseridos em diferentes contextos – familiar, cultural, religioso ou acadêmico. A necessidade de pertencimento é o desejo de criar vínculos profundos, bem como de se reconhecer e sentir-se reconhecido, valorizado e se alinhar às identidades culturais de determinado espaço, instituição ou grupo de pessoas. 

Conceitualmente, o senso ou o sentimento de pertencimento consiste em diferentes fatores bastante interligados: as Competências para o sentimento de pertencimento (habilidades e capacidades individuais); Oportunidades para o pertencimento (facilitadores, remoção/redução de barreiras); Motivações para o pertencimento (impulso intrínseco); e Percepções de pertencimento (cognições, atribuições e experiências positivas ou negativas ao se conectar).

Como um sistema social dinâmico, esses quatro componentes se reforçam e influenciam mutuamente ao longo do tempo, conforme a pessoa transita por diferentes contextos e experiências.

No contexto universitário, esse processo não é diferente. A Universidade é uma Instituição: carrega histórias, marcos, personagens, etc. É composta também de pessoas as quais proporcionam a formação tanto profissional como pessoal de outras pessoas, e aquelas com quem se dividirá esse processo de formação ao longo dos anos de graduação ou da pós-graduação.

Sendo assim, requer incentivo em todo o espectro de atividades universitárias enquanto oportunidades – desde a promoção de um câmpus inclusivo até a disponibilidade da escuta empática e do acolhimento de um aluno por parte de servidores técnicos-administrativos e docentes. A responsabilidade também é de cada agente dentro da Universidade proporcionar espaços, inclusão e vínculos positivos aos que chegam. O sentimento de pertencimento ao Ensino Superior vai além do acesso – trata-se de se sentir visto, valorizado e apoiado, o que indica o papel da Instituição em promover o sentimento de pertencimento ao estudante. 

Promover esse sentimento na Universidade implica benefícios como maior motivação, maior participação acadêmica, maior desempenho geral e menor desistência do curso acadêmico, cujas implicações positivas são maximizadas particularmente para estudantes ingressantes nos primeiros semestres.

Políticas institucionais, práticas pedagógicas sensíveis às diferenças e espaços de convivência que favoreçam encontros significativos são fundamentais para que estudantes possam não apenas ingressar, mas permanecer e se desenvolver na Universidade.

Conforme os fatores descritos anteriormente, é essencial também o ímpeto e a busca do próprio estudante por estabelecer conexões positivas com colegas, corpo de professores, fazer uso – consciente – de espaços da Universidade (por exemplo, bibliotecas, museus, restaurantes universitários, etc.) e facilitar a inclusão de novas estudantes, evitando condutas de isolamento ou promovendo sentimentos de não-pertencimento.

Por fim, talvez o sentimento de pertencimento possa ser compreendido não como algo que se possui, mas como algo que se faz. Desse modo, ele seria um processo complexo, mas essencialmente ativo, sustentado por escolhas, práticas e relações que conferem sentido à experiência universitária. Isso quer dizer que podemos agir para promover o senso de pertencimento à Universidade em nós mesmos, assim como auxiliar em promovê-lo às outras pessoas, possibilitando uma experiência universitária mais corresponsável e satisfatória.


Gabriella Koltermann é pós-doutora em Psicologia pela UFRGS. Atua como psicóloga no Colégio de Aplicação da Universidade.