
*Ilustração: Theo Martins de Lima /Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
Artigo | Doutorando em Letras, Gibran Ayub discute a chamada leitura em voz alta, praticada em grupos que se reúnem para ler, e a confronta com a forma dita silenciosa, medindo os cruzamentos entre as duas modalidades
Artigo originalmente publicado no Jornal da Universidade
Se nos pedem para imaginar uma cena de leitura, é seguro supor que a imagem que mais facilmente vem à mente é a do leitor silencioso, concentrado, dedicado ao ritual imersivo da leitura. De fato, o silêncio é, em geral, tido como condição necessária ao próprio ato de ler. A atividade de leitura em voz alta, por outro lado, acaba sendo vista como uma exceção, uma ação esporádica, um desvio à leitura dita silenciosa, essa, sim, a “verdadeira” leitura. A partir de minha experiência com a leitura em voz alta, no entanto, venho tentando relativizar um pouco essa perspectiva ainda tão dicotômica.
A proximidade que tenho com essa prática de leitura advém, em especial, de minha participação no projeto de extensão “Leitura em Voz Alta”, ligado ao Instituto de Letras da UFRGS, sob coordenação da professora Luiza Milano. O projeto, que em 2025 completou 10 anos de atuação, celebrados com um evento aberto ao público no Centro Cultural da Universidade no início de novembro, vem reunindo interessados pela partilha da voz e da escuta na leitura de textos literários. Em encontros semanais – já ocorridos em diversas localidades da cidade de Porto Alegre ao longo dessa década –, os membros do grupo leem, escutam e debatem livremente obras clássicas e contemporâneas.
Essa experiência me instigou, enquanto professor de língua e literatura, a estendê-la à sala de aula e, enquanto pesquisador da área de Letras, a pensar essa prática de leitura desde um ponto de vista mais teórico. Sobretudo, vivenciar a leitura em voz alta compartilhada tem desestabilizado, para mim, aquela rígida oposição que ela parece estabelecer com a leitura “silenciosa”. E não se trata apenas de pensar que essas formas de ler podem estar em diálogo, que elas não precisam estar apartadas; tenho me convencido, cada vez mais, de que elas estão mais próximas do que, à primeira vista, possa parecer.
Em pouco tempo de participação em um grupo de leitura em voz alta, não é raro que um leitor manifeste seu espanto diante do texto escutado: um trecho lhe parece mais engraçado, ou mais pesado, ou mais triste quando chega ao ouvido, diante do testemunho dos demais leitores da roda, do que lhe pareceria numa leitura individual, em silêncio; outro trecho é carregado de um ritmo ou de uma sonoridade que talvez passassem despercebidos sem o suporte da voz.
Aí o leitor já começa a se perguntar, mesmo sem disso se dar conta, a respeito dos efeitos dessa modalidade de leitura: que diferença faz ler esse texto em silêncio ou em voz alta? Como isso afeta a minha leitura e a interpretação que faço dela?
Em outras palavras: o que a leitura em voz alta acrescenta a essa leitura que eu poderia fazer sozinho, em silêncio? Nesses questionamentos já estamos colocando ambas as modalidades de leitura em diálogo, evitando a ideia de que a leitura em voz alta é somente momento de exceção à leitura “correta”, silenciosa. Mas a experiência de fazer passar pela voz um texto literário nos convida a repensar, também, o que acontece quando esse texto não passa pela voz, ou melhor, quando ele passa pela “voz alta” interior que temos em nossa mente; dito de outro modo: quando lemos “silenciosamente”.
As letras não são os sons: cedo tratamos disso na graduação em Letras e, mais de uma vez, precisamos promover essa reflexão com nossos alunos na escola. Mesmo assim, a letra nunca está completamente divorciada do som que ela representa; a forma gráfica nunca está de todo livre do fantasma da forma fônica. Pensemos nas vezes em que um poeta enche seus versos de sons de “s”, de “f”, de “v” (a “Canção do vento e da minha vida”, de Manuel Bandeira, por exemplo) – mesmo lendo “em silêncio”, somos capazes de perceber a recorrência desses sons fluídos, que imprimem sua marca à leitura que fazemos, deixam em nós uma sensação de ter ouvido algo distinto do usual. Ou no uso subversivo que José Saramago e Valter Hugo Mãe fazem dos sinais de pontuação e das iniciais maiúsculas, desacomodando o leitor habituado a um ritmo pautado por essas marcações.
Nem precisamos ir tão longe: quando um autor, simplesmente, põe uma palavra em itálico no texto, a tipografia sugere que aquela palavra seja lida (ou escutada) de um jeito diferente, com uma ênfase maior que as demais. Como expressamos essa ênfase? Com uma entonação diferente, e entonação diz respeito à voz. O recurso gráfico, portanto, tem uma implicação sonora, de que nem a leitura “silenciosa” escapa totalmente.
O termo “leitura silenciosa”, logo se vê, não parece o mais adequado para designar esse modo de ler que não é em voz alta. Não que ele esteja errado: não estamos, é verdade, emitindo sons nessa leitura mais convencional – pelo menos, não de propósito, não o tempo todo, não como o fazemos durante uma conversa. O termo é, contudo, incompleto, algo enganador; induz ao erro de pensar que essa leitura é por completo destituída de qualquer aspecto sonoro.
Talvez possamos pensar, então, nos termos voz alta/voz baixa, não como mutuamente excludentes, mas como pontos diferentes de um continuum, dos quais todos nos valemos, em maior ou menor grau, quando lemos. Lendo “em silêncio”, o leitor não se desvencilha por completo de uma voz que o acompanha; lendo em voz alta, carrega consigo sua experiência com a leitura em voz baixa. Na leitura em voz alta em grupo, isso se desdobra: há outros leitores que testemunham esse processo e, cada um a seu turno, munidos de sua voz e sua escuta, também o integram.
Pensar a leitura (em voz alta, em voz baixa) desde essa perspectiva, acredito, pode contribuir não só para aproximar essas modalidades de leitura, sem que elas precisem concorrer entre si, mas também para valorizar um aspecto importante do contato com o texto literário que pode estar sendo deixado de lado justamente devido a essa ilusória cisão. Considerar que a literatura também é para ser escutada pode, assim, fazer diferença para os leitores que queremos formar – e para os leitores que somos.
Gibran Ayub é doutorando em Letras – Estudos de Literatura no Programa de Pós-graduação em Letras da UFRGS e colaborador do projeto de extensão “Leitura em Voz Alta”.

