Muito antes da internet, grandes nomes do século XX fizeram de tudo para aparecer no Who’s Who. Até Freud preencheu de próprio punho uma ficha com seus dados
Pode não parecer, mas existiu um tempo antes do Google. E, nesse tempo, a forma mais rápida de obter informações sobre pessoas importantes, famosas ou ambos era consultar um livro feito de papel e impresso a tinta na Inglaterra, o Who’s Who (“quem é quem”, expressão que extrapolou suas origens). Publicado em versão limitada a membros da nobreza e do serviço público britânico desde 1849, o primeiro anuário ampliado, abarcando figurões da cultura, da política e das ciências, circulou em 1897 e foi sucesso instantâneo. Estava inaugurado um fenômeno que alcançaria proporções impensáveis: o fascínio pela celebridade. Na primeira metade do século XX, figurar no Who ‘s Who se tornou motivo de grande prestígio, e todos cobiçavam uma citação – mais ou menos como, hoje em dia, fazer parte das listas de mais ricos, mais poderosos, mais influentes, só que com muito mais critério. Tamanha era a honra que gente como o inventor da psicanálise, Sigmund Freud, o cantor e ator Frank Sinatra e o escritor Ernest Hemingway, entre outros, gastaram seu precioso tempo preenchendo, a mão ou a máquina, um formulário com suas informações pessoais. Transposto para os dias atuais, o conjunto de fichas ganha um valor incalculável, ao entreabrir uma fresta do passado e expor os autores, cientistas, políticos, artistas e magnatas que fizeram a história do século XX num momento em que muitos nem sequer tinham nítida noção de sua relevância. Afinal, ser importante era estar no Who’s Who.
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| Modelo de ficha escrita a mão – a ficha da imagem pertencia a Freud |
Parte dessas fichas, que se acumularam por mais de um século em álbuns encadernados e arquivados, foi comprada pelo editor e marchand carioca Pedro Corrêa do Lago, um dos maiores colecionadores de manuscritos do mundo. “A maioria dos formulários era de pessoas que já não significam nada. E ninguém estava disposto a esmiuçar o arquivo para verificar o que havia ali de realmente valioso”, diz Corrêa do Lago. Ele se dispôs: passou vinte dias enfurnado em um depósito poeirento à beira do Rio Tâmisa, folheando o material. “Como tinha a chave do depósito, podia entrar a qualquer hora. Dormi várias vezes sobre os papéis”, conta. Agora, Corrêa do Lago se dedica a catalogar o calhamaço de papéis para incluir em ·um livro sobre a história do Who ‘s Who, ainda sem data de lançamento. Publicado anualmente, o Who’s Who acumulou tal quantidade de citações que a editora britânica A&C Black, dona do título, chegou a ter dez funcionários só para cuidar do arquivo, mas acabou sendo comprada pela Bloomsbury Publishing, que pôs à venda o acervo das fichas entre 1897 e 2000. Das 200000 existentes, Corrêa do Lago adquiriu um precioso lote de 1600. “No meio de milhares de papéis irrelevantes, de repente topava com um Freud ou um Hemingway”, diz.
Alguns surpreendem pelo autoelogio desbragado, outros pela simplicidade. Poucos foram tão modestos quanto o irlandês James Joyce, que no texto manuscrito para a edição de 1917 se identifica como “professor da Escola Superior de Comércio, de Trieste; e escritor” – isso quando já tinha publicado uma de suas obras primas, Retrato do Artista Quando Jovem. “As vendas de seus livros eram então fraquíssimas e a carreira de escritor corria o risco de não deslanchar. Naquele momento, o emprego na escola tinha mais importância”, explica o irlandês John McCourt, autor de The Years of Bloom: James Joyce in Trieste 1904-1920. Freud foi outro que se promoveu com a citação em 1922. Avesso a aparecer (deu raras entrevistas na vida), mas se recuperando de sérios problemas financeiros, agarrou a chance de divulgar sua obra, e caprichou na embalagem. “Ele suprimiu, por exemplo, um estudo sobre a cocaína, porque poderia ser malvisto, e enfatizou seus trabalhos na área da neurociência, considerada uma ciência de ponta”, observa o psicanalista Renato Mezan, um dos maiores especialistas em Freud no Brasil.
Montar um currículo no Who’s Who também podia ser uma forma de esclarecer certos trechos da biografia sobre os quais pairavam dúvidas.
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No passeio histórico proporcionado pelo arquivo de fichas, a política de todo um século é retratada nos seus personagens. Lá estão os primeiros-ministros britânicos, com destaque para Winston Churchill – cuja ficha, para desgosto de Corrêa do Lago, não foi encontrada. Em compensação, ele pôde arrematar as de três outros primeiros ministros contemporâneos do grande político inglês, todos eles ainda em começo de carreira – muitos anos depois, seriam brindados, cada um, com amostras da fina ironia churchilliana.
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| Ficha de Frank Sinatra |
A música erudita, que durante boa parte do século passado foi considerada a única digna de figurar no Who’s Who, comparece em todo o seu esplendor, luminar por luminar. Lá estão grandes maestros, grandes compositores e grandes cantores líricos como a soprano Geraldine Farrar, incluída em 1929, quando o auge de sua carreira já havia passado […].
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O anuário manteve a tradição de incluir todos os funcionários públicos graduados em ação na Inglaterra. Nessa condição, estão lá os embaixadores brasileiros em Londres, de Muniz de Aragão, que ocupou o cargo na década de 30, ao penúltimo, Carlos Augusto Santos Neves. Até 2000, data final do lote posto à venda, outros dois brasileiros mereceram a deferência pela repercussão de seu trabalho na sociedade inglesa: Santos Dumont, cuja ficha também não foi encontrada, e Alberto Cavalcanti, cineasta que fez filmes experimentais na França e na Inglaterra entre as décadas de 20 e 40 e voltou ao Brasil em 1949 para fundar a pioneira Companhia Cinematográfica Vera Cruz. […] Os editores do Who ‘s Who construíram uma reputação sólida ao selecionar apenas pessoas de mérito reconhecido e jamais aceitar dinheiro pela inclusão de alguém. A publicação tinha tanto prestígio que, durante a II Guerra, Churchill interveio pessoalmente para que a A&C Black ficasse de fora do racionamento de papel. Mas a editora nunca registrou a marca e, com o tempo, ela foi copiada por centenas de outras mundo afora – a maioria adepta do pagou, apareceu. O título deixou de ser confiável, a internet facilitou a propagação de informações, a Wikipedia nasceu e o mundo mudou. Embora circule até hoje, o Who’s Who não tem mais a menor importância. Os milhares de formulários que acumulou, ao contrário, são para sempre.
Texto de Marcelo Bortoloti para Revista Veja de 06/03/2013
Temos alguns exemplares impressos da obra Who´s Who na Coleção da BC, sendo o de 1948 um dos mais antigos existentes em nossa coleção.



