
Da inspiração
A relação entre arte, literatura e ciência sempre rende boas discussões. Inspirados por questionamentos desta natureza, tão presente desde muito em nossos planejamentos de atividades e abordagens, anunciamos uma nova fase do Blog da BC! Uma ampliação do escopo, mas sem abandonar (jamais!) o que nos trouxe até aqui, que é mantê-los informados sobre ciência e tecnologia, a partir da curadoria de divulgações especialmente selecionadas.
Há tempos percebemos esta complementaridade entre as áreas é uma necessidade que sim, faz parte do conjunto de interesses da comunidade universitária, mesmo que sempre às voltas com trabalhos, tarefas, prazos, leituras acadêmicas, o respiro, os estímulos e as visões de mundo que as artes, as diferentes formas de expressão cultural e a literatura nos proporcionam.
A literatura na vida acadêmica
Um bom exemplo da receptividade é o nosso “O que você está lendo?”, módulo do Super 8 desde o início de 2021, que conta com adeptos fiéis e vem crescendo em espaço e participantes a cada edição. Neste módulo, o foco é a literatura e como os bons textos ficcionais contribuem para a formação de boas práticas de escrita importantes para a vida acadêmica.
Como bem dito em nosso texto de apresentação, o Blog da Biblioteca Central é um espaço de divulgação e reprodução de notícias sobre acesso e uso de informação em ciência, tecnologia e inovação, bem como sobre questões de amplo interesse da comunidade universitária.
No intuito de cada vez mais esmiuçar as possibilidades de aproximação e contribuições entre as áreas, ambas imprescindíveis e tão caras a nós, incorporamos no calendário de postagens no mínimo duas postagens mensais quinzenais com temáticas relacionadas à área cultural e à comunicação científica de forma intercalada.
Artigo de referência
Seguiremos postando conteúdos e novidades, tanto no Blog quanto nas redes sociais da BC, mas cunhamos aqui a combinação de ser este também um espaço de debate e reflexão acerca das mais variadas produções culturais. Para “ilustrar” essa simbiose de conteúdos que fazem da Biblioteca Central um espaço de diversidade de saberes, conhecimentos, história e de produção intelectual selecionamos abaixo alguns trechos do artigo de Diana Navas para a Revista Ciência e Cultura, que tanto nos estimulou e que dá título a este post. Os trechos extraídos do artigo estão apresentados com distinção gráfica no texto.
Concebidas comumente como áreas distintas – uma vez que à literatura caberia o espaço da imaginação, do devaneio, enquanto a ciência se ocuparia do real, daquilo que pode ser provado -, não estaríamos, por meio desta simplista oposição, ignorando uma possível complementariedade entre elas? Isso porque, se por um lado é o processo científico que valida, que demonstra, não é a imaginação, por seu turno, que leva à criação? Além da capacidade cognitiva, não seriam também exigidas dos cientistas a criatividade e a imaginação, elementos esses imprescindíveis ao escritor, ao poeta?
Em nossa realidade percebemos uma clara segmentação dos saberes artísticos e científicos. Basta olharmos para os currículos escolares e poderemos comprovar como os conhecimentos são apresentados de forma fragmentada. Inundados, continuamente, por muitas informações, estamos, em nossa era tecnológica, cada vez mais conectados e informados, mas, paradoxalmente, incapazes de estabelecer conexões entre os diferentes saberes. Expostos a estilhaços de conhecimento, aparentemente díspares, construímos visões cada vez mais parcelares e limitadas da realidade, o que nos distancia, progressivamente, da concepção holística e integrada entre as diferentes áreas do conhecimento e, desta maneira, de uma compreensão mais efetiva de nosso contexto. O distanciamento entre a literatura e a ciência é exemplo disso.
A apresentação deste texto visa apresentar claramente que este é um espaço de diálogo entre saberes. Apresentar aproximações entre ciência e literatura demonstra que um canal de comunicação de uma biblioteca universitária pode ser tanto voltada para a área educativa e científica quanto para a cultural e que é a convergência dos saberes que torna este espaço tão rico em conhecimento.
Seleção de trechos (ou não, não viveremos sem literatura!)
Confira alguns trechos do artigo “Literatura e ciência: campos antagônicos ou complementares?”
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Enquanto a ciência dos séculos XIX e XX tentou eliminar o individual e o singular, no intento de estabelecer leis gerais e identidades simples e fechadas, a literatura caminhou por veredas distintas. Os romances da mesma época evidenciam-nos seres complexos, múltiplos, singulares. […] A pretensa objetividade da ciência – o que normalmente a coloca em um grau superior ao da literatura – pode esconder certa simplificação da realidade. E que, portanto, talvez a forma mais válida de se olhar para essas duas diferentes áreas não seja estabelecendo entre elas – como comumente é feito – uma relação hierárquica e mesmo antagônica, mas uma relação de complementariedade.
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Os Clássicos
Muitos textos literários em que a ciência se faz presente poderiam ser aqui citados. Em razão da brevidade deste estudo, limitaremo-nos apenas a dois clássicos. Gabriel García Márquez, em Cem anos de solidão, obra publicada em 1982.
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Com o desenrolar da narrativa, o leitor assiste à evolução do conhecimento científico a partir do contato com diversos instrumentos tecnológicos, à medida que José Arcadio Buendía – personagem fortemente imbuída de espírito investigativo – dedica-se, obstinadamente, à busca de ideias que lhe permitem construir explicações para os fenômenos.
A leitura do romance permite-nos observar a ligação que se estabelece entre a narrativa e a ciência, não apenas no que se refere aos objetos tecnológicos nela mencionados, mas, principalmente, porque é a própria história da ciência e das implicações sociais das descobertas científicas o que se faz notar nesta sedutora obra de García Márquez.
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A jangada de pedra (1986), de José Saramago, constitui-se em outro interessante exemplo. A narrativa desenvolve-se a partir de um inexplicável acidente geológico que traz como consequência a separação da Península Ibérica da Europa, ficando aquela à deriva, como uma jangada de pedra.
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Aliada à riqueza literária, deparamo-nos, no romance de Saramago, com explicações científicas e comentários em torno dos interesses sociais advindos do fenômeno geológico, os quais, mesclados à ironia do autor, contribuem para a elaboração de um texto em que claramente se evidencia o diálogo entre a literatura e a ciência.
Tratam-se, os exemplos apresentados, de interação, de diálogos interdisciplinares que aproximam, de forma biunívoca, as linguagens científica e literária, possibilitando aos indivíduos o acesso à ciência de uma outra maneira. Sem desvirtuá-la, é oferecida de forma diluída, sem que haja a imposição da ciência em si mesma, uma vez que a literatura é produzida tomando a ciência como pretexto.
Esse intercâmbio, entretanto, é de mão dupla. Também a linguagem literária atravessa alguns discursos científicos. Normalmente escritos em linguagem hermética e, consequentemente, acessível apenas a um público restrito, raros são os textos científicos que se valem de uma linguagem acessível e que, sem simplificar ou desvirtuar a própria ciência, conseguem transmitir as informações de maneira clara, contribuindo para a sua divulgação. Em razão disso, muitas vezes, a simples incursão em formas literárias que cativam o leitor e o conduzem para os conceitos científicos, tornam-se mais facilmente compreendidos.
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Com estes exemplos, é importante ressaltar, não estamos a defender a descaracterização da abordagem científica e seu rigor, que reconhecemos imprescindível ao aprofundamento e à compreensão da ciência. Apontamos, antes, para a possibilidade de verificar como esses discursos não são antagônicos a ponto de não poderem (con)fundir-se. Romances como Volta ao mundo em 80 dias e Viagem ao centro da Terra, de Júlio Verne, ou ainda As aventuras de Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, ao lado de textos científicos como os de António Damásio, Albert Einstein, David Bohm, para citar apenas alguns, constituem-se como exemplos de como, por meio da confluência, ganha a ciência através da literatura e ganha a literatura ao ser valorizada em meio ao discurso científico. Isso porque, conforme explica Morin, o problema não está em cada área perder a sua competência, está em que a desenvolva o suficiente para a articular com outras competências que, ligadas em cadeia, são capazes de constituir o anel completo e dinâmico do conhecimento do conhecimento.
Convergências entre literatura e ciência
Apesar de frequentemente serem tratadas como campos de conhecimentos distintos – e, muitas vezes, de costas voltadas uma para a outra – a literatura e a ciência apresentam interessantes e complexas convergências, percorrendo, o diálogo entre elas, múltiplos caminhos.
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Assim, ainda que se valendo de linguagens e métodos distintos, literatura e ciência nascem do espanto, da incapacidade humana de explicar determinada inquietação que assalta o homem em dado contexto, explicação esta que ganha representação por meio de um retrato, construído via linguagem.
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A complementariedade entre literatura e ciência pode ainda ser concebida se considerarmos que enquanto a ciência, comumente, se centra no como, no modo de fazer as coisas, e não necessariamente no porquê – o que pode gerar a alienação -, a literatura e as artes em geral, desconhecendo o como, busca compreender o para quê e o porquê. Se considerarmos que a ciência, cada vez mais, tem se instrumentalizado, a literatura continua a experimentar um pouco mais de liberdade, experimentando e fazendo o trabalho da ciência: pesquisar, encontrar novas hipóteses, novas soluções, novos mundos para o homem.
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E então, o que lhes parece? Vamos juntos?
Leia na íntegra o texto de Diana Navas na Revista Ciência e Cultura (v. 72, n. 1, jan/mar 2020)
NAVAS, Diana. Literatura e ciência: campos antagônicos ou complementares?. Ciência e Cultura, São Paulo, v. 72, n. 1, p. 37-40, jan/mar 2020. Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252020000100012&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 10 set. 2021.

