“É hora de nos valermos das facilidades que a internet proporciona para gerar alternativas ao atual sistema de julgamento e divulgação dos artigos científicos, criado há mais de 70 anos”
Stevens Rehen é diretor de pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ. Artigo publicado no portal SRZD (www.sidneyrezende.com/blog/stevensrehen):
Pedro Bial me contou que a franchise Big Brother foi inspirada no projeto Biosfera, iniciado em 1986 no Arizona, Estados Unidos. O objetivo era confinar cientistas em um laboratório ecológico de vidro e aço, isolados do meio exterior, na expectativa que produzissem sua própria comida e reciclassem sua água ao longo de 2 anos.
O experimento fracassou, os cientistas não conseguiram se manter auto-suficientes, entretanto, como “experiência antropológica” foi um sucesso. A quantidade de intrigas e fuxicos entre os participantes daria para encher um ano de publicação da revista Caras.
Tais intrigas não me surpreendem. Cientista não é santo, e como qualquer pessoa, é movido por vaidades em muitas situações da vida, estejam eles confinados ou não.
O problema é quando essas vaidades interferem demais com a divulgação de informações geradas com dinheiro público e que podem beneficiar o progresso da ciência.
Reinaldo Lopes assinou interessante reportagem na Folha de São Paulo repercutindo carta aberta, assinada por alguns dos principais cientistas do mundo na área de células-tronco, denunciando que um petit comité de pesquisadores estaria dificultando a publicação de dados científicos contrários aos seus interesses. Tipo de situação que lembra o que vem acontecendo entre os moradores da casa de luxo e do puxadinho no BBB10.
A diferença é que, enquanto no programa de TV, vez por outra o confessionário é abolido e os brothers têm que dizer na cara quem vai para o paredão, na academia, os cientistas que decidem quais trabalhos científicos serão publicados, estão sempre protegidos pelo anonimato.
Até aí tudo bem, o anonimato favorece a franqueza e dureza das críticas, muitas vezes justas e construtivas. O problema é que Austin Smith, Shynia Yamanaka e abaixo-assinados reclamam que há pesquisadores recusando trabalhos por motivos fúteis. Por quê? Especula-se que atrasando a publicação de seus competidores, ganham tempo para produzir seus próprios artigos, munidos de informações privilegiadas obtidas na condição de revisores. Vaidade pura.
De fato, sempre que artigos semelhantes, de grupos distintos, são publicados na mesma edição de uma revista científica, alguém diz que o autor de um dos trabalhos foi o revisor do outro, pediu “novos experimentos para complementá-lo” e com isso teve tempo para produzir e submeter dados idênticos. Nunca há provas que isso de fato aconteça mas casos assim favorecem teorias conspiratórias a respeito.
O que a carta pede é que as revistas científicas divulguem publicamente os pareceres redigidos pelos revisores. Não seria necessário revelar seus nomes, somente suas críticas.
A proposta não é portanto eliminar a avaliação, ação cotidiana essencial ao processo de construção do conhecimento científico mas os pareceristas tendenciosos e maliciosos que travam artigos importantes com justificativas sem pé nem cabeça. Com suas avaliações tornando-se públicos, reduziria-se distorções no processo de avaliação por pares.
O problema é mais grave para os cientistas de países com menor tradição científica.
Os grandes conglomerados editoriais recrutam poucos editores ou revisores de países emergentes ou em desenvolvimento. E é claro que sem eles, menos atenção é dada à ciência produzida abaixo do Equador.
Felizmente há iniciativas que buscam reverter essa situação. Revistas como PLoS ONE e Frontiers in Neuroscience, cujo conteúdo é gratuito, têm um corpo editorial realmente internacional, muitos brasileiros inclusive, o que garante o caráter plural da ciência.
Só que essas iniciativas inovadoras não se preocupam com o chamado fator de impacto: a razão entre citações dos artigos da revista e o número total dos artigos publicados pela mesma revista. E é justamente esse indicador (muito mais do que a informação científica contida no trabalho) a commodity que define prestígio e ascensão de um pesquisador. Isso significa que hoje em dia publicar nessas revistas não vale muita coisa ao cientista que depende de sistemas de avaliação de mérito acadêmico no Brasil.
Uma pena, pois a evolução natural dessas iniciativas irá agilizar a divulgação pública da ciência de qualidade e eliminar os maus revisores. Avaliações, realizadas por revisores não anônimos, além de comentários e sugestões de membros da comunidade científica disponíveis online, só ajudam a separar o joio do trigo no universo da ciência produzida em todo o mundo.
Injustiças, duplicações de resultados e fraudes seriam mais facilmente identificadas. A qualidade de cada artigo seria conseqüência do número de citações, número de downloads e comentários deixados nos blogs das revistas eletrônicas. O fator de impacto, que não garante o mérito do trabalho mas sim a capacidade que teve de passar pelo crivo dos revisores de determinada revista, perderia em importância.
Um trabalho científico, financiado na maioria dos casos com dinheiro público, não pode deixar de ser publicado por motivos que não sua (baixa) qualidade.
É através da avaliação que se definem os rumos, tanto da ciência quanto das instituições acadêmicas. É hora de nos valermos das facilidades que a internet proporciona para gerar alternativas ao atual sistema de julgamento e divulgação dos artigos científicos, criado há mais de 70 anos.
Para saber mais sobre os antecedentes históricos e elementos conceituais relativos aos processos de avaliação por pares na ciência, leia:
DAVYT, Amilcar & VELHO, Léa. A avaliação da ciência e a revisão por pares: passado e presente. Como será o futuro? Hist. cienc. saude-Manguinhos.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000200005&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
Fonte: JC e-mail 3955, de 24 de Fevereiro de 2010.

