Certas transformações ocorrem de forma tão gradativa que só é possível perceber o seu alcance em um momento adiantado do processo. Um desses momentos que parecem cristalizar mudanças aconteceu em março, com a decisão das sete revistas científicas PLoS (sigla para Public Library of Science) de condicionar a aceitação de novos artigos à divulgação por seus autores, em repositórios públicos, dos chamados dados de pesquisa, aquela massa de informações primárias que, uma vez analisada e interpretada, serve de base para as conclusões do paper.
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| © BEL FALLEIROS |
A nova regra da PLoS, que se enquadra em uma ampla mobilização de agências de fomento, cientistas e universidades para dar mais transparência à publicação de resultados de pesquisa, não chega a ser propriamente uma novidade. A maioria dos periódicos já recomenda aos autores que disponibilizem os dados e esta recomendação virou exigência há tempos em revistas de genética e de bioinformática, cujos estudos geram gigantescos volumes de informação sobre sequências de DNA e proteínas.
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A decisão da PLoS parece criar um ponto de inflexão nessa tendência. “Nosso ponto de vista é simples. Garantir o acesso aos dados subjacentes deve ser parte intrínseca do processo de publicação científica”, justificou Theodora Bloom, diretora editorial da PLoS Biology, da PLoS Computational Biology e da PLoS Genetics. Com mais de 30 mil artigos publicados no ano passado, as revistas PLoS foram criadas ao longo da década de 2000 por uma instituição sem fins lucrativos seguindo um modelo inovador. Publicam artigos apenas on-line e em acesso aberto – ou seja, podem ser consultadas por qualquer pessoa, pela internet, sem cobrar por isso –, mas, graças a um corpo de revisores de primeira linha, alcançaram um fator de impacto comparável aos de publicações tradicionais.
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As mudanças despertaram reações de quem enxerga nas regras um novo ônus para os pesquisadores. O geneticista David Crotty, editor do programa de publicação de revistas científicas da Oxford University Press, escreveu em seu blog, no portal The Scholarly Kitchen, que a mudança poderá reduzir o número de artigos submetidos às revistas PLoS. “Se a publicação em uma revista PLoS exige que você faça semanas de trabalho adicional para organizar seus dados em uma forma reutilizável ou pelo menos reconhecível, sem falar no custo de hospedar os dados e no esforço para encontrar um repositório adequado, então por que não publicar o artigo em um jornal diferente e eliminar os custos e os gastos de tempo?”, indagou Crotty.
Não se trata, observa Abel Packer, coordenador da biblioteca SciELO Brasil, de fazer trabalho adicional, pois a mudança de paradigma é bem mais profunda. “Estamos falando de novas práticas, nas quais os dados já são organizados durante a realização da pesquisa, de modo que possam ser disponibilizados nos repositórios e sejam inteligíveis e reutilizáveis para outros usuários”, afirma.
As novas regras da PLoS geraram dúvidas e algum alvoroço. Dez dias após o início da implementação, seus editores pediram desculpas por pontos ambíguos e esclareceram que nada mudou em relação à natureza dos dados que precisam estar descritos nos artigos – a única preocupação nova é apontar em que banco ou repositório podem ser encontrados dados primários (os arquivos do próprio pesquisador não são uma opção), caso os revisores do artigo ou outros pesquisadores interessados no assunto precisem avaliá-los. Dados primários são entendidos pela PLoS como aqueles que abastecem tabelas e análises estatísticas publicadas no artigo e são indispensáveis para que outros pesquisadores consigam reproduzir os mesmos achados. Dados protegidos por razões de segurança ou de privacidade não estão incluídos na exigência.
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Este tipo de esforço de pesquisa inspirou o Nature Publishing Group, que edita a revista Nature, a lançar uma nova revista a partir de maio. Trata-se da Scientific Data, publicação on-line em acesso aberto voltada para descrever não novos achados científicos, mas sim os datasets (conjuntos de dados) de pesquisas consideradas valiosas. O objetivo é promover a documentação, intercâmbio e reutilização dos dados que sustentam as pesquisas, em modo aberto, para acelerar o passo das descobertas científicas. Para atingir este objetivo, os editores da revista introduziram um metadado (dados a respeito de outros dados) chamado data descriptor. Na revista, estes metadados devem fornecer descrições detalhadas de conjuntos de dados em ciências da vida, biomédicas e ambientais, com foco exclusivo em como eles foram produzidos, por quem e como podem ser reutilizados por pesquisadores independentes. “Os metadados dotam os dados científicos com identidade e documentação padronizada e com capacidade de serem acessíveis nas buscas, interoperáveis com diferentes sistemas na web, reutilizáveis em outras pesquisas e citáveis”, diz Abel Packer.
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“Além de verificar a validade dos resultados, o acesso e reutilização de dados também permitem fazer novas pesquisas e estudos comparativos combinando dados de origens diferentes”, diz Abel Packer. “Para as agências de fomento, trata-se de um avanço importante, pois permite gerar mais conhecimento a partir de um mesmo investimento.” A experiência mostra que os pesquisadores têm dificuldades em manter os dados primários disponíveis ao longo do tempo. […]
Um desafio ainda em aberto é desenvolver um modelo para financiar os serviços ligados a essa nova etapa. “As taxas eventualmente cobradas pelos repositórios não são altas, mas alguém tem que financiar. Atualmente, instituições e programas de pesquisa, por exemplo na área de genética e de proteínas, criaram repositórios desse tipo e financiam o armazenamento e a disponibilização dos dados”, diz Abel Packer, referindo-se a casos como o do GenBank, banco de dados de sequências de DNA e de aminoácidos do Centro Nacional de Informação Biotecnológica dos EUA. Num esforço para organizar mais de 600 repositórios e desenvolver metodologias, foram criados dois catálogos que trabalham de forma cooperativa. Um deles é o Biosharing.org, sediado na Universidade de Oxford, que reúne a lista de repositórios de dados de ciências biológicas, como DNA e proteínas. O segundo é o Registry of Research Data Repositories, financiado pela Fundação de Pesquisa da Alemanha, que compila os repositórios das demais ciências, inclusive as sociais.
A biblioteca SciELO Brasil deverá ter até o final do ano uma política definida para o arquivamento em repositórios dos dados das pesquisas publicadas em suas revistas seguindo padrões internacionais. “Estamos estudando se é mais recomendável criarmos um repositório próprio da biblioteca SciELO além das alianças com repositórios já existentes”, afirma Abel Packer. No Brasil a criação de repositórios de dados científicos ainda é incipiente. Um exemplo pioneiro de banco de dados advindo de projetos científicos é o criado para o Sistema de Informação Ambiental (SinBiota), que reúne e integra as informações produzidas em projetos vinculados ao Programa Biota-FAPESP. O SinBiota permite analisar a distribuição das espécies catalogadas no território paulista sobre uma base cartográfica digital.
Trechos do texto de Fabrício Marques para Revista Pesquisa Fapesp.


