Como a avaliação por pares de preprints pode fazer parte de programas de doutorado e pós-doutorado

Texto de Lilian Nassi-Calò para Blog Scielo em Perspectiva

Na definição de Abel Packer, “preprint é um manuscrito disponibilizado publicamente em acesso aberto em um website denominado Servidor de Preprints antes de ser publicado por um periódico científico.”2 Desta forma, preprints não são submetidos à avaliação por pares antes da publicação, porém podem receber comentários da comunidade científica (ou de quem se julgue apto a fazê-lo), que funcionam como avaliação por pares pós-publicação. Os comentários são moderados, e na maior parte das vezes, os autores do artigo os levam em consideração para fazer alterações no manuscrito (ou mesmo novos cálculos ou experimentos) e finalmente submetê-lo para publicação formal em um periódico, após a avaliação por pares.

Considerando o significativo crescimento do uso de preprints em comunicação científica, especialmente o bioRxiv, em ciências da vida, lançado em 2013 pelo Cold Spring Harbour Laboratory (CSHL), bem como o surgimento de servidores de preprints em todas as áreas do conhecimento, Richard Sever, diretor assistente do CSHL Press,3 propõe, em no artigo Preprint review should form part of PhD programmes and postdoc training,4 publicado recentemente, que a avaliação (pós-publicação) de preprints seja utilizada para complementar a formação de doutores e pós-doutores em instituições acadêmicas.

Qualquer que seja a escolha de carreira após o doutorado ou pós-doutorado, seja na pesquisa científica ou fora dela, os profissionais egressos, geralmente, concluem seus estudos com pouca habilidade de redação e expressão escrita. Isso se deve ao fato de que a atividade de avaliação por pares é preferencialmente delegada pelos editores de periódicos a pesquisadores experientes, em posições avançadas na carreira acadêmica.

O informe The Global State of Peer Review,5 de fato, relata que 10% dos pareceristas realizam 50% das avaliações, revelando uma sobrecarga dos mesmos pareceristas. O informe, ademais, menciona que pesquisadores jovens, em início de carreira, (pós-doutores, por exemplo) estavam entre os que aceitavam mais prontamente realizar as revisões, além de fazê-las dentro dos prazos estipulados pelos periódicos e mesmo assim, não eram escolhidos com frequência. No caso de um jovem pesquisador apoiar um sênior na avaliação de um manuscrito, com finalidade de aprender o ofício, quase nunca recebe créditos por sua participação.

Mesmo que este cenário esteja em vias de mudança, fato é que doutorandos e pós-doutores têm poucas oportunidades de atuar como pareceristas de artigos de periódicos. Os preprints, no entanto, oferecem uma excelente oportunidade de demonstrar suas habilidades críticas e de redação, sem que precisem esperar ser convidados a fazê-lo. Sever menciona iniciativas como PREreview e preLights para apoiar jovens pesquisadores a realizar avaliações de preprints que resultem produtivas aos autores e que cumpram com normas de boas práticas.

PREreview menciona que a postura dos pareceristas deve ser respeitosa, construtiva, honesta, clara, humilde e consciente. Ademais, o feedback aos autores deve ser construtivo, no sentido de apoiar os autores a aprimorar o manuscrito e não apenas apontar as falhas. O site fornece, ademais, dois modelos (templates) para construir o relato da avaliação, podendo servir como um checklist.

PreLight (preprint highlights), por sua vez, conta com uma comunidade de jovens pesquisadores (preLighters) que seleciona e comenta preprints na área de biologia, que além do site, também são compartilhados em redes sociais.

A iniciativa ASAPbio6 publica uma página denominada FAST principles for preprint feedback7 (em analogia aos princípios FAIR dos dados de pesquisa), na qual detalha os 14 princípios desenvolvidos pelo Grupo de Trabalho para orientar a avaliação (ou feedback) de preprints. FAST é o acrônimo de Focused (focado), Appropriate (adequado), Specific (específico) e Transparent (transparente) e constituem os quatro princípios básicos que devem nortear a avaliação de preprints. As recomendações, na verdade, guardam muitos pontos em comum com as normas éticas recomendadas pelo Committee on Publication Ethics (COPE) para avaliação por pares de artigos submetidos a periódicos.8

Imagem: FAST principles, ASAPbio (licença CC-BY 4.0)

Cabe ainda incluir outra prática introduzida pela ASAPbio, que é a avaliação em grupo de preprints lançada em 2022, que inclui além do servidor bioRxiv, também o SciELO Preprints. O SciELO Preprints incentiva a avaliação dos manuscritos postados como uma forma de contribuir para o avanço do conhecimento de duas maneiras: (1) por meio da plataforma PREreview, integrada ao servidor SciELO Preprints, onde os interessados podem fornecer avaliações rápidas ou completas aos preprints que optaram por ser avaliados; ou (2) por meio da ferramenta Hypothes.is, na qual é possível postar comentários diretamente no PDF do preprint, uma vez que todos os preprints do servidor SciELO dispõem desta funcionalidade.

Na mesma direção, o periódico eLife, que desde 2021 avalia novos artigos exclusivamente na forma de preprints postados em bioRxiv ou medRxiv, em final de 2022 decidiu encerrar a prática de tomar decisões de aceitar/rejeitar após a avaliação por pares. A partir de 31 de janeiro próximo, o periódico publicará todos os artigos que avaliar como preprints revisados, uma combinação do manuscrito com os informes de revisão. Após esta decisão, agências de fomento como a Fundação Gates, o Instituto Médico Howard Hughes, a Fundação Knut e Alice Wallenberg e a Wellcome, declararam seu apoio ao uso de preprints avaliados na avaliação da pesquisa.

No Brasil, existem mais de 4.500 programas de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado nas modalidades acadêmico e profissional), segundo dados de 2022 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério da Educação. Os cursos de pós-graduação inseridos nestes programas servem de base para a formação de recursos humanos qualificados a contribuem para o desenvolvimento da ciência e tecnologia no país.

Ademais, a produção e disseminação do conhecimento científico têm sido realizadas principalmente no âmbito dos programas de pós-graduação, por meio de um dos principais pilares da missão universitária, que é a pesquisa científica. Os programas de pós-doutorado por meio de bolsas no Brasil e no exterior contribuem, da mesma forma, para a produção científica nacional. Desta forma, a participação de mestres, doutores e pós-doutores na avaliação por pares de manuscritos postados como preprints é de importância tanto para sua formação como autores e pesquisadores, como para contribuir com seu conhecimento na avaliação de preprints.

As iniciativas enumeradas mostram o amplo leque de possibilidades que se abrem ao utilizar a avaliação de preprints. O que inicialmente pode ter sido recebido com reservas por parte da comunidade científica, exatamente pela falta da etapa de “validação” presente nos artigos de periódicos, agora conta com inúmeras possibilidades de feedback, orientados por guias de boas práticas e normas éticas, com o devido reconhecimento de conceituadas agências financiadoras. E ademais, podem contribuir para a formação de jovens pesquisadores e profissionais de várias carreiras científicas por meio do fomento da atividade de avaliação por pares. Ao que tudo indica, a era dos preprints está apenas começando.

Fonte: Blog Scielo em Perspectiva