Dos tradicionais aos inovadores: estudo detalha modelos de financiamentos para periódicos em acesso aberto

O número de publicações acadêmicas em acesso aberto vem crescendo nos últimos anos em todo o mundo. De acordo com o Directory of Open Access Journals (DOAJ) há mais de 4 mil periódicos em acesso aberto (AA) nesta base de dados em todas as áreas do conhecimento, e o número de novos periódicos que ingressam a cada ano vem subindo.

Um estudo detalhado dos modelos de financiamento deste tipo de publicação de autoria de Raym Crow, consultor sênior da agência Scholarly Publishing & Academic Resources Coalition (SPARC) foi publicado em setembro de 2009 e disponibilizado em acesso aberto no portal da instituição.

De acordo com o estudo, os publishers que consideram o AA para suas publicações devem desenvolver um modelo de negócios que sustente a distribuição neste formato. A seleção do modelo apropriado dependerá dos objetivos da publicação, tamanho, administração de recursos, tolerância ao risco, impostos e afiliações institucionais.

Os motivos que podem levar um Publisher a adotar o modelo em AA incluem, de acordo com Crow:

– Aumentar o acesso às publicações eliminando barreiras de acesso ao conteúdo

– Maximizar o alcance e apoiar o lançamento de um novo periódico quando o mercado não apoiaria um modelo por assinatura

– Implementar um modelo de suplementação em resposta a políticas de fomento baseadas em conteúdo

Um Publisher pode ser motivado a adotar o modelo de AA com argumentos que se aumenta a efetividade da pesquisa científica, sócio-científica e humanística, aumenta a equidade social e política entre pesquisadores nos dois hemisférios e se alinha melhor à cultura de contribuição da academia.

Os modelos de receita capazes de sustentar AA como acesso online aberto e imediato a literatura acadêmica submetida à revisão por pares são descritos por Crow como:

Dimensionamento
Publishers pequenos devem considerar adotar modelos de financiamento para seus periódicos que não necessariamente constituam modelos universais deste tipo de publicação. Ações coletivas de sociedades acadêmicas podem levar a modelos bem sucedidos de gerar recursos para arcar com os custos de publicação em AA.

Base econômica do acesso aberto
É necessário separar os argumentos filosóficos e sociais do AA do efeito produzido, o alívio econômico local das bibliotecas, na visão do autor. Isto significa considerar que o modelo aumenta a eficiência, efetividade e equidade no processo de pesquisa promovendo benefício social e econômico como resultado. Maior utilidade social, entretanto, não se traduz em redução de custos do ponto de vista da biblioteca.

Taxas de publicação
Um dos modelos de receita mais discutidos para periódicos em AA utiliza taxas para processamento do manuscrito ou taxas de publicação. Estas taxas baseiam-se na premissa que autores e suas instituições são os beneficiários diretos das publicações acadêmicas e, portanto, as taxas de publicação são de responsabilidade destes.

Cerca de dez por cento dos periódicos AA fazem uso desta taxa que representam 30% da receita gerada por periódicos AA.

De acordo com uma pesquisa, as taxas de processamento do artigo são total ou parcialmente subsidiadas por fundos de pesquisa (34%), fundações (5%); pela instituição (8%); pela biblioteca institucional (27%); e através de fundos do próprio autor (5%).

Uma variedade existente nas publicações é o modelo híbrido, que permite publicações em AA mediante a opção pelo autor, que paga o processamento do artigo, em periódicos tradicionalmente por assinatura. Este modelo, pode ser visto como forma de introduzir a estratégia do AA em disciplinas que tradicionalmente não aceitariam a cobrança da taxa.

O autor do estudo pondera que a transição para AA financiada por taxa de processamento de artigo coloca o periódico em desvantagem competitiva. A gravidade deste problema varia entre disciplinas dependendo da política de financiadores em uma determinada área e da prática de periódicos concorrentes. Para contornar o problema, poderia haver uma ação conjunta – de migrar para o modelo em AA cobrando a taxa de processamento de manuscrito- de periódicos de uma determinada área ou subárea.

Nesta estratégia, o periódico poderia diminuir o custo de sua assinatura na medida em que a opção pelo AA fosse aumentando, obtendo, desta forma, receita suficiente para se tornar totalmente AA mantendo taxas de processamento de artigos compatíveis com sua comunidade de autores.

Publicidade
Convertendo a reputação do periódico em receita são ilimitadas opções de publicidade para o Publisher nos sites AA. Os anuncios podem ser diretos ou, se houver demanda suficiente, através de um intermediário para agências que desejam atingir a audiência daquele periódico.

Algumas precauções, no entanto devem ser tomadas por publishers como a receptividade da audiência. A comunidade acadêmica em geral não opõe restrições a publicidade se esta se restringir aos seus interesses (material de laboratório, por exemplo) e for graficamente adequada.

Patrocínio
Similar à publicidade, exceto pelo fato de que este é tipicamente negociado com base no tempo, ao invés do número de impressões. O patrocínio apóia-se em instituições ou entidades corporativas que subsidiam despesas de um periódico em troca do reconhecimento no site Web e às vezes, outras formas de reconhecimento público.

O patrocínio pode ser semelhante à publicidade online na aparência – o patrocinador adota a forma gráfica de um banner ou um logotipo e mensagem breve – mas ambos diferem em vários aspectos. O patrocínio confere maior valor de comercialização do que a publicidade, e o patrocinador se beneficia mais diretamente da reputação e dos valores do periódico. Desta forma, o periódico consegue maior receita através de um patrocinador institucional do que de uma quantidade equivalente de fundos provindos de publicidade. Alem disso, o tempo de compromisso de um patrocinador é geralmente mais longo do que o de um contrato de publicidade. A relação mais duradora com patrocinadores pode levar a outros financiamentos, como subsídio de conferências no caso de periódicos mantidos por sociedades acadêmicas, auxílio a autores que têm dificuldades em pagar taxas de publicação de artigos, entre outros.

Subsídios externos
Auxílios financeiros de fundações e outras organizações filantrópicas podem cobrir os custos decorrentes da transformação de um periódico baseado em assinatura para AA. Geralmente cobrem apenas o período de transição até que o periódico estabeleça seu novo modelo de negócios capaz de suportar o AA.

As possíveis fontes de financiamento incluem fundações privadas, financiadores corporativos (fundações mantidas por companhias que têm programas de doações para entidades científicas ou acadêmicas), instituições filantrópicas públicas (organizações não-governamentais que financiam programas) e fundações ligadas à comunidade (atendem especificamente uma região ou comunidade).

Crow alerta que a procura por entidades que apóiem total ou parcialmente a operação de um periódico em AA é trabalhosa e pode não ser bem sucedida nas primeiras tentativas. No entanto, a procura por financiamento em organizações governamentais e não-governamentais traz visibilidade e confere atributos ao periódico e ao pedido de financiamento.

Subsídios institucionais
No caso de um periódico ser afiliado a uma instituição acadêmica, esta pode cobrir parte ou todos os custos operacionais de editoração. O periódico pode obter financiamento da instituição baseado no prestígio e aumento de visibilidade que a publicação proporciona ao centro de pesquisa ou departamento. A contribuição da instituição ao periódico poderá, ainda, ser na forma de serviços ou facilidades ao invés de recursos financeiros. A universidade poderá alocar funcionários de sua biblioteca para serviços de operação regular no periódico, como indexação, formatação digital e inserção de metadados, bem como oferecer suporte tecnológico, por exemplo, ao hospedar o site do periódico em seu servidor.

Financiamentos governamentais
Na maior parte dos casos, as instituições governamentais costumam financiar a execução de projetos de pesquisa, porém não sua disseminação. Entretanto, os projetos financiados por agências governamentais podem, dependendo do país onde opera o Publisher, prover um fundo para suprir a operação de um periódico em acesso aberto cujo escopo esteja intimamente relacionado com o projeto. Dos periódicos listados no DOAJ, cerca de 20% operam com financiamento proveniente de organizações governamentais.

Doações
Doações podem ser obtidas com uma campanha para pequenas contribuições individuais ou contribuições maiores, vindas de corporações, instituições ou fundações.

As doações individuais são geralmente obtidas através de pedidos no site dos periódicos, quando o leitor seleciona um link para um artigo. Deve haver um sistema automático e seguro de coleta (através de cartões de crédito ou programas online com esta finalidade, como o Google Checkout) para que não tome tempo e não comprometa o doador. O Publisher deve, no entanto, elaborar uma campanha específica para a arrecadação de fundos de forma a alcançar os leitores e criar um vínculo com eles, sem o qual o pedido por doações irá gerar apenas poucas contribuições aleatórias.

Ao solicitar doações de bibliotecas acadêmicas, periódicos AA podem enfrentar alguns obstáculos, inclusive as políticas de aquisição de bibliotecas. Segundo o DOAJ, 12% dos periódicos contam com alguma contribuição deste tipo em seus orçamentos.

Outra possibilidade de empregar os montantes doados é através de aplicações financeiras, que geram dividendos para pagar os custos de operação de um periódico. É difícil, no entanto, avaliar o número de periódicos AA financiados por este tipo de operação, uma vez que elas são mediadas por sociedades acadêmicas, instituições ou fundações que atuam como publishers. Existem, porém, periódicos AA independentes que investem o dinheiro de seus doadores, e ao fazer isso devem garantir a transparência de suas operações para não perder a confiança de seus beneméritos. O capital doado, nestes casos, deve ser significativo para gerar um fluxo de caixa suficiente para manter os custos de operação do periódico.

Outros tipos de contribuição
Muitos periódicos publicados por organizações sem fins lucrativos dão preferência a contribuições de outra natureza que não financeira, sendo a maior parte delas proveniente de sociedades ou instituições acadêmicas, fundações e outros. Esta contribuição ser desde disponibilização de salas para administração do periódico até de licenças de softwares e hospedagem de sites. Estas contribuições, ao reduzir os custos de operação do periódico, têm grande influência em sua sustentabilidade financeira. Os publishers, no entanto, devem reconhecer estes arranjos, mesmo os de longo prazo, como risco financeiro, e traçar planos para eventuais descontinuidades.

Receita utilizando versão impressa
Muitas vezes a edição de uma versão impressa de um periódico AA distribuída através de assinatura a indivíduos ou instituições que a requerem permite complementar os custos de sua produção. O publisher pode oferecer a versão impressa incluindo:

– Um volume impresso publicado no final de cada ano reunindo os artigos em formato digital

– Uma edição impressa simultânea à versão digital que pode oferecer conteúdo não disponível eletronicamente, como correspondência, editoriais, artigos traduzidos em outro idioma (destinados ao público local) ou ainda o mesmo conteúdo que a versão online em AA sendo esta submetida a embargo

“A tendência mundial em direção ao AA e a necessidade de apoiar publishers sem fins lucrativos em sua transição ao novo modelo de publicação conta com o apoio de grande parte da comunidade acadêmica mundial”, afirma Crow. Neste sentido, o autor afirma que a SPARC busca oferecer uma visão geral dos modelos de financiamento de publicações em AA com o objetivo de apoiar este modelo de disseminação de resultados da pesquisa acadêmica, principalmente os periódicos submetidos à revisão por pares, em acesso livre, rápido e sem barreiras na Internet.

Fonte: http://espacio.bvsalud.org/boletim.php?newsletter=20100131&newsLang=pt&newsName=Newsletter%20BVS%20096%2031/janeiro/2010&articleId=02100354201036