Na camisa 10 da seleção colombiana está escrito James. Seus compatriotas, fiéis ao idioma espanhol o chamam Rames. Nos países lusófonos deve ser chamado James, mas no Brasil, onde grassa a obediência cega e besta à anglofonia, inúmeros profissionais da imprensa e gente na rua pronunciam Djeimes. Ouvir seguidamente essa pronúncia durante as entrevistas irritou o jovem craque colombiano, obrigando-o a dizer alto e bom som: meu nome é Rames! Por favor não me chamem Djeimes. O anglicismo está tão entranhado por aqui, que um comentarista da ESPN disse mais tarde em seu programa, com ares de galhofa, que achava estranho chamá-lo Rames. Mas, parece que o apelo surtiu efeito, pois passados dois dias todos os profissionais de rádio e TV que ouvi estão pronunciando Rames.
Há mais de uma década, eu suspeitei que algo assim iria acontecer, embora naquela época Cláudio Moreno, professor de português e articulista do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, achasse que o anglicismo não teria qualquer efeito sério sobre a língua portuguesa. A discussão de então era motivada pelo exagerado uso de expressões do tipo “50% off” nas vitrines
durante as temporadas de liquidação, e o uso do gerúndio nas empresas de telemarketing, que hoje se espalha por toda a sociedade, incluindo, lamentavelmente, os corredores e salas de nossas universidades. Como se sabe, o gerúndio é um péssimo vício de linguagem que vem de traduções equivocadas do inglês, para piorar o português. Algo que se fazia com uma ação, passou a ser feito com duas. Em vez de “vou viajar”, agora costuma-se dizer “vou estar viajando”.
O Brasil inventou o futebol de praia, mas quando o exportou para o mundo, passou a chama-lo de “beach soccer” e chegamos ao ridículo de termos uma Confederação Brasileira de Beach Soccer. Certa vez, durante uma crise da indústria calçadista do Rio Grande do Sul, ouvi um secretário do governo estadual dizer que o problema era o “low price shoes” chinês (sapato chinês de baixo custo).
Uma vez ouvi num programa de rádio, alguém se referir a uma organização como sendo FEST. Quando o âncora lembrou que era FAST, Fundação de Assistência Social e Trabalho, a pessoa disse que pensava ser uma organização americana. Equívoco similar eu presenciei recentemente após uma palestra que proferi em Foz do Iguaçu. Durante a palestra mencionei a Plataforma Lattes do CNPq, uma homenagem a Cesar Lattes. Ao final, uma professora de línguas, confessou que sempre pronunciava “Leites”, pois não sabia que se tratava de nome de um brasileiro. Ou seja, na dúvida pronuncia-se como se a palavra fosse inglesa. É o mal à língua portuguesa que o prof. Cláudio Moreno pensava não existir.
Texto de Carlos Alberto dos Santos (Professor Visitante Sênior – Instituto Mercosul de Estudos Avançados – UNILA) publicado no O Jornal de Hoje (Natal) do dia 03 de julho de 2014.

