O escritor Miguel Sanches Neto indica 5 obras sobre os universos milenares das coleções de livros.
Originalmente publicado em Nexo Jornal Independente

Uma de minhas coleções de livros mais caras é a que traz livros sobre livros, pois é uma forma de afirmar a cultura literária, garantindo um lugar central para estes objetos que, apesar de todas as evoluções tecnológicas, continuam sendo algo perfeito, que pouco evoluirá e que continuará disponível a todas e a todos que dominam o idioma.
Basta abrir as páginas de um volume e nos encontramos com universos milenares, que estão à nossa disposição sem que precisemos de maiores tecnologias. Os volumes sobre livros são verdadeiras histórias de amor de pessoas que não suportariam viver em um mundo em que eles não existissem, tal como afirma José Mindlin. Aqui vão algumas entradas para esta estante em que cabem todas as coisas existentes ou imaginárias.
A biblioteca à noite
Alberto Manguel (Trad. Samuel Titan Jr., Companhia das Letras, 2006)
Um volume extremamente poético sobre a biblioteca enquanto lugar de encontro com outros tempos e com outras culturas, que serve como uma formação da própria biografia do dono dos livros, pois os volumes nas prateleiras nos definem, por isso Manguel diz que “toda biblioteca é autobiográfica”. Colecionamos livros como quem constrói a própria história pessoal, com uma densidade no tempo. A biblioteca como uma forma de participar de outras eras.
Ex-libris: confissões de uma leitora comum
Anne Fadiman (Jorge Zahar, 2002)
Um belo conjunto de crônicas sobre o amor pelos livros que leva ao amor por outro amante dos livros. Anne narra como ela e o futuro marido casaram as duas bibliotecas pessoais, construindo um espaço de soma de experiências de leitura. Este amor aos livros é um amor à totalidade das experiências humanas, reais e inventadas, que move o grande leitor e a grande leitora, totalmente dedicados ao universo paralelo que está nas estantes. O livro desmitifica a ideia de que só intelectuais têm grandes bibliotecas: elas também são fundamentais para leitores comuns.
O último leitor
David Toscana (Trad. Ana Lucia Pelegrino e Magali Pedro, Casa da Palavra, 2005)
Em um romance sobre um bibliotecário, no deserto mexicano, o autor faz uma ode à leitura. Só entram na biblioteca pública que ninguém frequenta os livros que ele lê e que julga literariamente bons. Nesta obra ficcional, a leitura é a grande formadora de um conjunto de livros que ficará como tributo do bibliotecário a futuras gerações de leitores. Em uma época com tantos livros inúteis, o narrador investe seu tempo nesta seleção. E não importa que por enquanto não existam leitores, pois é onde adensa o deserto que se deve levar água.
O infinito em um junco
Irene Vallejo (Trad. Paulina Wachtman e Ari Roitman, Intrínseca, 2022)
Em uma história permeada de depoimentos pessoais, a pesquisadora espanhola mostra como o livro foi uma grande tecnologia inovadora na Antiguidade. Do papiro ao pergaminho e depois ao papel, o conhecimento universal era mantido por legiões de copistas que o armazenava em bibliotecas, sonho louco que fez de Alexandria um grande centro civilizatório e espalhou mundo afora a inovação trazida pelo livro copiado por intelectuais.
Uma vida entre livros
José Mindlin, Companhia das Letras, 1997
História de uma maravilhosa coleção de livros acumulada ao longo de décadas pelo empresário e bibliófilo José Mindlin, que constituiu a biblioteca particular mais importante do país. Nela, primeiras edições raríssimas conviviam com incunábulos e outras preciosidades, demonstrando que a paixão pelos livros é uma forma de manter viva a época de cada autor, de cada editor, para que nunca se esqueçam o lugar do livro na sua época. Hoje, a coleção sobre o Brasil tem uma biblioteca pública no campus da USP, em São Paulo, em reconhecimento ao valor do bibliófilo como salvador de mundos que correm o risco de desaparecer.
*********
Miguel Sanches Neto é doutor em Letras pela Unicamp, professor associado da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná. Estreou nacionalmente com Chove sobre minha infância (Record, 2000), um dos primeiros romances de autoficção da literatura brasileira. Autor de dezenas de livros em vários gêneros, destacam-se o volume de crônicas Herdando uma biblioteca (Ateliê, 2020), os romances Um amor anarquista (Record, 2005), A máquina de madeira (Companhia das Letras, 2012), A segunda pátria (Intrínseca, 2015). Acaba de lançar O último endereço de Eça de Queiroz (Cia das Letras) e sua poesia reunida A ninguém (Patuá). Finalista dos principais prêmios nacionais, recebeu o Prêmio Cruz e Sousa de 2002 e o Binacional de Artes Brasil-Argentina, de 2005.

