O valor de uma biblioteca para estudantes e comunidade

Entrevista originalmente publicada no Blog da Minha Biblioteca

Reinvenção, empenho, maior aplicabilidade de tecnologias, ampliação do uso de acervos virtuais. Nos últimos anos, estas estratégias passaram a ser vitais para que a Educação pudesse ser mais acessível a milhares de estudantes. E esta transformação também tem acontecido nas bibliotecas físicas e digitais.

É para analisar este cenário que o BLOG da Minha Biblioteca convidou Letícia Strehl, Diretora da Biblioteca Central da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Para ela, não se pode generalizar a situação das bibliotecas, nem se restringirmos a discussão ao contexto universitário. “De um modo geral, no Brasil ou no Exterior, são as melhores universidades que mais valorizam suas bibliotecas”.

MB – Como a Tecnologia da Informação tem influenciado a rotina de gestores, estudantes e professores?

Letícia Strehl – A tecnologia influenciou o hábito de todos que possuem um smartphone conectado à internet, onde se tem acesso a informações produzidas de forma descentralizada, por qualquer pessoa, a qualquer hora e em múltiplos formatos. Mas o desafio é lidar com o excesso de informação cuja confiabilidade precisa ser constantemente verificada. 

Gestores, estudantes e professores têm uma vantagem sobre os demais públicos. Se estiverem no caminho certo, já aprenderam que precisam averiguar a confiabilidade e criaram ainda mecanismos de controle de ansiedade gerada pelo excesso de informação. Podemos dizer que, em condições favoráveis, se beneficiaram imensamente da ampliação de acesso à informação qualificada possibilitada pela tecnologia, que inspira a aprendizagem e a produção de novos conhecimentos. Em condições desfavoráveis, a tecnologia foi responsável pelo aumento da circulação de informações falsas, com efeitos nefastos nos diferentes setores da sociedade. 

MB – As bibliotecas universitárias têm acompanhado estes avanços? 

Letícia Strehl – Costumo dividir as contribuições das bibliotecas para o desenvolvimento de suas comunidades em duas categorias: infraestrutura e cultura de informação. Infraestruturas como repositórios, coleções virtuais, sistemas de busca integrada, com exceção do Portal CAPES, dependem de investimentos locais. Não se pode generalizar a situação das bibliotecas, nem se restringirmos a discussão ao contexto universitário. Porém, no Brasil ou no exterior, são as melhores universidades que mais valorizam suas bibliotecas. 

MB- Detalhando esta questão: com recursos compatíveis as bibliotecas universitárias têm promovido uma nova linha de atuação?

Letícia Strehl – Eu acho que podemos dizer que sim. Com investimentos compatíveis, existem ilhas de excelência: sistemas que têm acompanhado os avanços tecnológicos como uma infraestrutura de informação adaptada às demandas contemporâneas de seus usuários.  

Do ponto de vista de ações de promoção de uma cultura de informação, as bibliotecas ainda estão mais distantes de oferecerem os serviços necessários às suas comunidades, mesmo que precisem apenas de recursos humanos qualificados e não de caras infraestruturas tecnológicas. Mas me parece que o ponto de reversão, neste sentido, está próximo. 

A discussão sobre a competência informacional tem saído do campo teórico para ganhar a atenção dos profissionais responsáveis pelo atendimento aos usuários. Os serviços deixam de ser centrados no acesso a documentos específicos ou levantamentos bibliográficos pontuais para englobar também atividades educativas. Ações que promovam a formação de usuários de informação críticos e éticos, que conhecem ferramentas como bases de dados e gerenciadores de referências, mas, principalmente, cientes de que, como profissionais de nível superior, precisam ter amplo domínio da literatura de sua área, mantendo-se continuamente atualizados no seu ramo de atuação. 

Em tempos de vídeos e áudios, a militância da biblioteca em prol da literatura técnico-científica possui alto impacto social, sendo fundamental para a qualificação de recursos humanos tão necessários no Brasil.

MB – A discussão sobre um novo direcionamento das bibliotecas sempre existiu e ganhou força na pandemia, com o maior uso das tecnologias. Em que estágio estamos?

Letícia Strehl – Não concordo com esta afirmação. Os muitos séculos que marcaram a Era Impressa centraram o poder das bibliotecas em suas coleções ou nos serviços de compartilhamento de coleções que se estabeleciam entre diferentes bibliotecas. 

Apenas nas últimas décadas, os avanços tecnológicos têm imposto, dia a dia, circunstâncias que têm acelerado o ritmo das mudanças a ponto de ser possível conceber uma biblioteca com intensa atuação junto à sua comunidade sem, necessariamente, precisar formar qualquer coleção, usando apenas repositórios de acesso aberto, por exemplo. 

Essa situação, particularmente, não é nova, mas foi percebida pelas equipes de muitas bibliotecas quando tiveram que fechar o acesso às suas coleções impressas como medida de isolamento social, ao longo da pandemia da Covid-19. Assim, novamente, não me parece existir uma situação comum às bibliotecas, considerando que muitas delas já percebiam, muito antes da pandemia, sua atuação para além de seu espaço. 

Provavelmente, o hoje destas bibliotecas é o amanhã das que fizeram essa descoberta apenas recentemente. Em especial, neste último caso, espero que esse aprendizado recente perdure. A longo prazo, a sobrevivência das bibliotecas depende desta atual perspectiva. 

MB – Você sugere uma agenda para a reinvenção das bibliotecas universitárias. Qual o propósito e como esta iniciativa foi traçada?

Letícia Strehl – A pandemia e suas restrições foi um período especial para os bibliotecários para além do óbvio. Passamos a valorizar o virtual, mas também estabelecemos muitas colaborações. A Comissão Brasileira de Bibliotecas Universitárias nos agregou muito neste período e tivemos a oportunidade de refletir e de produzir colaborativamente, transcendendo nosso espaço institucional. Uma oportunidade riquíssima. Resolvi aproveitar o convite para o Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias, de 2021, para sistematizar esse aprendizado em uma Agenda, buscando contribuir com as discussões que se iniciaram e precisam se fortalecer daqui para frente. 

MB – Esta reinvenção da biblioteca tradicional abrigaria duas outras: uma tecnológica e uma educadora. Como isso aconteceria?

Letícia Strehl – Já havia mencionado a importância sobre a reflexão das demandas a serem atendidas pela biblioteca universitária em duas categorias. A utilização das denominações biblioteca tecnológica e biblioteca educadora é para auxiliar nesta compreensão. A biblioteca tecnológica reinventa a tradicional do ponto de vista de infraestrutura de informação disponibilizada à comunidade.  Já a biblioteca educadora reinventa no sentido da cultura da informação, dando significado a todos os produtos e serviços da biblioteca tradicional que foram revolucionados pela biblioteca tecnológica, promovendo a competência informacional e a leitura como essenciais à aprendizagem e à produção de novos conhecimentos.

O valor de uma biblioteca para estudantes e comunidade

MB – Esta Agenda já foi colocada em prática em alguma IES ou é apenas um projeto?

Letícia Strehl – A Agenda de Reinvenção é completamente baseada nos projetos desenvolvidos no Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, graças à atuação comprometida de seus profissionais com os desafios de seu tempo: a informatização dos catálogos (SABi); o desenvolvimento de repositórios institucionais (LUME); a aquisição de e-books; a implantação de gestão por projeto com dinâmica colaborativa; a formação de competências informacionais e promoção da leitura (Super8); a implantação de serviço de descoberta (Sabi+); e a promoção da discussão sobre os modelos de negócio de e-books no Brasil em diversos eventos virtuais. As ações em fase de projeto ainda não consolidadas e não constam na Agenda por não terem sido testadas. Desta forma, para brincar um pouco, pode-se dizer que a Agenda de Reinvenção da Biblioteca Universitária é baseada em fatos.

MB – Como as plataformas de acervos virtuais se inserem neste contexto?

Letícia Strehl – As plataformas de acervos virtuais são absolutamente fundamentais no processo de reinvenção da biblioteca universitária considerando uma tendência de uso de documentos eletrônicos que, antes da pandemia, ainda encontrava certa resistência no caso da leitura de e-books, mas agora não mais. Existem no mercado plataformas que concentram coleções indispensáveis para formação qualificada de profissionais de nível superior. Textos bem editorados, com abordagem didática são fundamentais para a aprendizagem de conteúdos complexos. 

Contudo, entre as ações da Agenda, inserimos a luta por modelos de negócio de e-books mais justos, levando em conta que as plataformas são inacessíveis para uma parcela significativa das instituições. Sem acesso institucional, a pirataria tem aumentado significativamente, o que é prejudicial para o mercado livreiro e, portanto, para a própria comunidade, que precisa de editoras fortes produzindo constantemente lançamentos. 

Aquisições perpétuas e seleções título a título são modelos praticamente inexistentes no Brasil que, contrariando uma tendência mundial, apresenta uma diversificada modelagem de negócio, permitindo várias formas de acessos dependendo da capacidade diferenciada de investimentos das instituições. Assim, ao falarmos da urgência da reinvenção das bibliotecas também falamos da urgência da reinvenção do mercado de e-books no país, sob pena de enfraquecimento de ambos por causa da pirataria.

MB – A Agenda é composta por 8 ações. Pode destacar seus pontos principais, em particular na oitava?

Letícia Strehl – A ação 8 “Revolucionar a atuação bibliotecária pela colaboração” é talvez a parte mais importante porque busca contribuir com reflexões sobre uma questão central para os bibliotecários brasileiros: atuamos em um país que não valoriza Educação, Cultura e Ciência e, portanto, não valoriza bibliotecas.

A referência a Florestan Fernandes feita no texto não é retórica, é prática. Somos bibliotecários em uma conjuntura desfavorável e, talvez, o único recurso do qual dispomos está concentrado em nós mesmos. Precisamos maximizar esse recurso pela colaboração em uma tentativa de minimizar os efeitos da ausência de políticas de Estado. Não podemos esperar por uma reforma, precisamos fazer a revolução, exatamente nos termos de Florestan Fernandes quando tratou do papel das universidades brasileiras no período da ditadura na década de 1960. Posso dizer que esta também é uma ação baseada em fatos, mas ainda embrionária, pois estamos tentando nos articular cada vez mais nacionalmente. Assim, a partir da colaboração, pretendemos qualificar nossos projetos e captar recursos para seu financiamento em um movimento de indução de políticas públicas tão necessárias no Brasil.

“Bibliotecas importantes são utilizadas, têm acervos significativos para suas comunidades e buscam despertar o interesse das pessoas para a leitura”

MB – A revisão estratégica no acesso às coleções da biblioteca tradicional se divide em dois níveis: o acesso à informação, para além de suas próprias coleções, e a formação de competências informacionais.  Pode explicar?

Letícia Strehl – Eu trabalho em bibliotecas há 27 anos, iniciei minha profissionalização na Era Impressa. Nesta época, um pesquisador, com acesso a uma biblioteca com uma qualificada coleção, estava em nossa sala de leitura diariamente. A função social da biblioteca era o acesso à informação. Hoje, fornecer acesso à informação é suficiente? Eu acho que não. Nós podemos conceber que a função de uma biblioteca inicia quando um usuário procura um serviço bibliotecário para realizar uma pesquisa por um assunto ou um documento específico. Ao fazer isso, eu posso considerar que tudo o que acontece com o usuário antes ou depois disso não tem qualquer relação com o papel que preciso desempenhar institucionalmente. Esse serviço centra-se mais na sua coleção do que na sua comunidade. 

Uma outra perspectiva é a biblioteca se voltar para o ecossistema de informação como um todo, identificando publicações e ferramentas que se relacionam com as atividades de pesquisa, ensino e extensão da universidade para traçar estratégias para incorporar esses elementos importantes aos produtos e serviços da biblioteca e, desta forma, sensibilizar a comunidade para seu uso. 

Na primeira situação, você possui uma biblioteca que faz bem o seu trabalho quando atende às demandas que recebe. Na segunda situação, a biblioteca cumpre seu papel quando gera demandas. Em um país carente de bibliotecas públicas e escolares, os estudantes chegam na universidade praticamente sem referência de biblioteca. Assim, se você não gerar a demanda, provavelmente, não terá demandas para atender. A comunidade continuará usando o Google e só. 

Acredito que seria um desperdício de oportunidade de aprendizagem que um estudante fizesse um curso superior sem conhecer as bases de dados e as publicações mais importantes de sua área, dependendo apenas da bibliografia indicada pelos professores. 

MB – Como os bibliotecários poderiam compartilhar, na sua rotina, suas próprias Agendas?

Letícia Strehl – Vivemos em uma época em que somos bombardeados por informações e dedicamos pouco tempo à reflexão. Às vezes, nos detemos em informações técnico-científicas complexas ou fazemos discursos acalorados sobre política, mas não paramos para pensar na organização de tudo isso para possibilitar a ação concreta. Ação concreta depende de contexto e cada gestor de biblioteca tem o seu. 

Não há como comparar a Agenda de uma biblioteca que tem um histórico consistente de investimentos com uma recém-criada. Podemos trabalhar com uma Agenda que busca refletir um padrão de excelência, mas cada gestor, de cada biblioteca, terá que avaliar no bom e velho esquema da matriz de SWOT: Quais são seus pontos fortes e fracos? Quais são as oportunidades e as ameaças que se avizinham? Ele precisa fazer isso em uma tentativa de tirar o melhor proveito da situação e potencializar sua atuação. 

Cada gestor de cada biblioteca precisa se conectar constantemente com suas necessidades e buscar, com ou apesar da conjuntura, fazer o seu melhor. Precisa, pragmática e objetivamente, traçar suas ações, criando sua Agenda para priorizar e correr atrás dos recursos e soluções possíveis para as demandas importantes. Às vezes, tudo isso tem relação com temas técnico-científicos complexos, outras com discussões políticas, mas sempre precisa resultar em ações concretas ou, pelo menos, tentativas de ações concretas. 

MB – Como você argumentaria o paralelo entre uma biblioteca vista apenas com livros nas estantes e não pela ação de seu uso e do poder transformador da leitura?

Letícia Strehl – Existe uma idealização das bibliotecas como instituições, independentemente da sua qualidade. Parece que uma biblioteca é importante por existir, não por sua utilidade. A situação educacional brasileira é tão precária que achamos que as bibliotecas não são utilizadas porque a população não possui o hábito de leitura. 

O que precisamos questionar é: as bibliotecas que existem são úteis, significativas, atraem o público que gosta de ler, é capaz de formar leitores? Não basta existir. Moro em Porto Alegre e amo literatura. Eu compro meus livros. Não teria acesso a eles em bibliotecas ao meu redor. Na época dos DVDs, por exemplo, eu tinha acesso aos filmes que queria assistir em locadoras próximas.

Bibliotecas importantes são utilizadas, têm acervos significativos para suas comunidades e buscam despertar o interesse das pessoas para a leitura. Uma população não leitora exige dos bibliotecários uma atuação ainda mais intensa. Uma biblioteca não utilizada reflete muito sobre os seus profissionais, não apenas sobre sua população. 

MB – A biblioteca é um ecossistema de avanço do conhecimento em diferentes áreas. Esta afirmação é válida atualmente? 

Letícia Strehl – A biblioteca faz parte do ecossistema de informação por trazer à sua comunidade elementos de infraestrutura que muitas vezes apenas ela fornece (adquirindo coleções, desenvolvendo ferramentas de descoberta de documentos, produzindo repositórios institucionais). Essa seria a biblioteca tecnológica, como já mencionamos. Quando falamos da biblioteca educadora, vemos sua importância para dar sentido ao ecossistema de informação, que hoje é vastíssimo, sendo a biblioteca apenas uma pequena parte dele. 

Talvez nunca sejamos capazes de demonstrar a relação entre causa e efeito entre a atuação das bibliotecas e sua influência positiva na formação de profissionais competentes e descobertas científicas relevantes. Contudo, a biblioteca que atua incessantemente para mostrar que o mundo de ferramentas, acervos e histórias literárias é vasto e pode levar a uma jornada gratificante de descobertas, se torna parte importante da vida de seus usuários. Este contexto passa uma mensagem importante: aprendemos o tempo inteiro e precisamos estar constantemente informados como parte da formação de nossa cidadania e de nossa qualificação profissional.

MB – O que é preciso para se ter uma biblioteca ideal? 

Letícia Strehl – A biblioteca ideal se posiciona como um elemento central da Universidade para a aprendizagem e produção de novos conhecimentos. Assumindo esse papel, sua gestão não pode ser acanhada, precisa ser baseada em projetos que tornem seus espaços atrativos, seus sistemas amigáveis, seus acervos qualificados e seus serviços significativos para a comunidade. 

Em caso de falta de recursos, os profissionais buscam desenvolver projetos para captá-los e fazer os investimentos necessários. Não conseguindo, farão o melhor que puderem com os recursos que têm e não desistirão de, em uma conjuntura melhor, tentar de novo.

A biblioteca ideal pode ser uma maldição ou uma benção. Uma maldição, quando condicionamos nossa atuação apenas à existência de condições ideais. Podemos achar que, sem recursos, não há o que fazer. Ela é uma benção quando é construída por bibliotecários constantemente desafiados, que estabelecem parcerias dentro e fora de sua instituição para fazer, na medida do possível, o melhor, mas nunca deixando de testar os limites do impossível. 

A biblioteca ideal é uma biblioteca reinventada, pode ser ainda deficiente do ponto de vista de estruturas e competências porque estamos em franca fase de transição, mas será uma biblioteca que conseguirá ser parte fundamental da educação e da ciência porque dissemina a cultura da informação crítica, ética e cidadã. 

Parece clichê, mas não é. Eu digo, essa história é baseada em fatos. Eu não trabalho na biblioteca ideal. Mas confesso: persegui-la é uma parte importante da minha vida. Sei que ela é parte também da vida de muitos bibliotecários que consideram as bibliotecas instrumentos de um mundo melhor.