Resgate de contos de Júlia Lopes de Almeida é ato de devolução da autora à literatura

Artigo originalmente publicado por Alexandre Briozo Gomes Filho no Jornal da Universidade.

O que o tempo impõe atualmente à mulher é o desprendimento dos preconceitos, a luta, sempre dolorosa, pela existência, o assalto às culminâncias em que os homens dominam e de onde a repelem. Mas, seja qual for a guerra que lhe façam, o feminismo vencerá, porque não nasceu da vaidade, mas da necessidade que obriga a triunfar.
Júlia Lopes de Almeida, Para a morte!, em Livro das Donas e Donzelas

Nas últimas duas décadas, cresceu o número de autores e artistas pertencentes às minorias que tiveram seus trabalhos resgatados pela academia. Isso ocorre em consequência da ascensão de discussões em torno dos lugares ocupados pelos grupos minoritários na sociedade e a reivindicação de maior participação e visibilidade desses grupos na esfera sócio-político-cultural. Em consonância com esse movimento, uma dissertação de mestrado do Programa de Pós-graduação em Letras da UFRGS buscou “devolver” Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) à literatura brasileira ao resgatar contos da autora antes restritos à imprensa da época. A partir do estudo, os vinte contos resgatados, disponíveis para leitura na segunda metade da dissertação, serão reunidos e publicados em livro físico.

“Não há como falar sobre escritoras do século XIX sem acabar falando de Júlia Lopes de Almeida, já que ela foi a maior escritora desse período”, conta Guilherme Barp, autor da dissertação. Sua trajetória de pesquisa no campo das escritoras oitocentistas começou ainda na graduação em Letras, quando fez iniciação científica durante quase quatro anos. No mestrado, orientado pela professora e doutora em Ciência da Literatura Cinara Antunes Vieira, o pesquisador buscou na Hemeroteca Digital as edições de jornais e revistas que contaram com a colaboração da escritora no período de sua publicação. 

Júlia Valentina da Silveira Lopes de Almeida foi a única mulher entre os idealizadores da Academia Brasileira de Letras (ABL). Defensora da abolição da escravatura, da educação formal para mulheres, do divórcio e dos direitos civis, a escritora estava à frente de seu tempo. Suas obras, entre romances, contos, peças de teatro e novelas, somam mais de vinte. Apesar de sua influência no meio literário e intelectual da época, com o avanço da ideia da ABL e sua consequente concretização, Júlia Lopes de Almeida foi marginalizada da instituição. “As escritoras do século XIX foram apagadas só por serem mulheres. Elas eram apenas toleradas, não eram respeitadas”, explica Guilherme. 

Publicação do periódico ‘A Semana’, do Rio de Janeiro, em 28 de Fevereiro de 1885. No canto superior esquerdo, o conto ‘As Lagrimas’, de Julia Lopes de Almeida. Imagem: Reprodução/A Semana.
Para contornar o memoricídio

Segundo o autor, pesquisas de resgate da literatura feita por mulheres são realizadas desde os anos 1980, mas pouco se examina como elas são realizadas e quais tendências e metodologias seguem. Em sua dissertação, dividida em revisões bibliográfica e documental, o autor, primeiro na revisão bibliográfica, baseou-se em estudos de gênero (ou estudo das mulheres) e na literatura para poder analisar como essa modalidade de investigação tem sido feita no Brasil. No país, os estudos em torno dessa temática analisam a literatura feminina esquecida a partir do fim do século XIX até o século atual.

Ao traçar a metodologia de resgate dos contos da autora, Guilherme verificou como esse processo tem sido feito através dos anos e como se dá atualmente. Segundo ele, há três formas distintas de resgatar uma escritora: por meio da reedição de suas obras, que é o caso da dissertação em questão; por meio de suplementação bibliográfica, através de revisão de biografias das escritoras em busca de documentos e informações, uma vez que o esquecimento não é somente sobre suas obras, mas também sobre suas vidas; e, por fim, por meio da teoria da literatura comparada, já que, a partir do momento em que há o resgate das obras, estudos podem ser feitos por meio dessas edições.

Ainda no século XIX, as mulheres sofriam o que hoje é conhecido como memoricídio: apagamento da literatura de autoria feminina. O conceito foi trabalhado pela professora da Universidade Federal de Minas Gerais Constância Lima Duarte. Guilherme explica que ainda se pode dizer que Júlia Lopes de Almeida é a mais lembrada dentre as esquecidas. “A relevância dela na época não pôde ser apagada de tão expressiva que ela foi.”

Na segunda etapa, o pesquisador, por meio da Hemeroteca Digital, foi até os jornais da época em busca de contos de Júlia Lopes de Almeida. No período analisado pelo autor, nas décadas de 1880 e 1890, foram reunidos vinte contos antes restritos à imprensa da época. De acordo com ele, ainda há muito a ser resgatado, como os contos produzidos entre o início do século XX e 1934, ano da morte da autora. “Ainda há muito a ser feito caso alguém se disponha”, observa.

A contemporaneidade agradece

Partindo do realismo, atravessando o simbolismo e o modernismo e chegando à literatura contemporânea, a literatura feminina brasileira foi ganhando notoriedade. Escritoras como Cora Coralina, Clarice Lispector, Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo passaram a figurar no imaginário nacional como sinônimo de literatura, inaugurando novos termos, estruturas, pontos de vista, reivindicações e inquietações. 

“Eu acredito que grande parte da literatura nacional de autoria feminina da contemporaneidade deve muito às escritoras brasileiras do século XIX, que puderam abrir portas para discussões que hoje são tidas na literatura feminina contemporânea”Guilherme Barp

Após mais de seis anos estudando sobre escritoras do século XIX, o autor pretende se manter na mesma temática quando fala de doutorado. Para seguir adiante com a publicação da edição dos contos reunidos, Guilherme agora aguarda o retorno de um edital do Instituto de Letras, na expectativa de que o livro seja publicado em parceria com a UFRGS. Para ele, uma vez que a pesquisa foi feita pelo PPG Letras, seria interessante que a edição também fosse publicada pela Universidade. “Mas caso essa parceria não aconteça, já recebi convite de editoras de Porto Alegre para publicar o material”, assegura.