SciELO e o futuro dos periódicos

A VI Reunião Anual do SciELO Brasil, realizada no dia 14/12/2016 na sede da FAPESP, tratou principalmente do futuro dos periódicos, considerando os contextos e condicionantes nacionais e globais. Vem crescendo os questionamentos sobre a publicação de periódicos que motivam reformas e inovações, entre as questões principais estão a lentidão do processo de publicação que não raramente leva mais de um ano, a eficiência da revisão por pares, a reprodutibilidade dos resultados das pesquisas, os altos custos, as brechas na integridade dos processos de avaliação e dos próprios artigos, o uso do fator de impacto do periódico como proxy da qualidade das pesquisas que publica, situação que afeta principalmente os periódicos editados no Brasil e em muitos outros países em desenvolvimento, etc.

Entretanto, mesmo com um amplo reconhecimento da persistência de problemas e da busca continuada de melhoramentos, houve consenso sobre o papel relevante que cumprem os periódicos na filtragem, validação e comunicação de novos conhecimentos gerados pelas pesquisas. Igualmente, se reafirmou a importância do Programa SciELO e da sua continuidade inovadora em prol do fortalecimento das infraestruturas e capacidades de comunicação científica do Brasil, fato que é extensível aos outros 14 países que participam da Rede SciELO. Independentemente da profundidade das reformas que venham a ocorrer na comunicação científica, os periódicos continuarão existindo no exercício de qualificar os resultados das pesquisas.

A reunião analisou, como de costume, o estado de avanço da Coleção SciELO Brasil e as perspectivas que moldam o seu futuro a curto, médio e longo prazo, e, para tanto, contou com a colaboração proativa de especialistas em questões contemporâneas da comunicação científica e de editores-chefes de periódicos SciELO de prestígio. As condições e políticas nacionais que afetam o desenvolvimento dos periódicos e os avanços da comunicação científica internacional permearam a estrutura do programa de apresentações da reunião, as análises e debates. Dados sobre os especialistas e editores que compuseram o programa assim como os arquivos das suas apresentações estão disponíveis na página do programa da reunião no website da reunião. A imagem abaixo destaca os palestrantes. Clique nela para acessar o website da reunião.

A agenda de temas da VI Reunião Anual do SciELO

A programação da reunião compreendeu três palestras e dois painéis de editores-chefes de periódicos indexados no SciELO. A primeira palestra, proferida pela Profª. Sonia Vasconcelos da UFRJ, abordou a integridade na comunicação científica com foco na responsabilidade dos autores e editores, tema sempre relevante e especialmente selecionado pelo fato de que em um futuro próximo o SciELO promoverá junto aos periódicos o aperfeiçoamento dos controles de integridade na gestão editorial com destaque para a detecção de plágios nos idiomas inglês, português e espanhol e para a explicitação das responsabilidades das autorias seguindo boas práticas das melhores editoras e periódicos.

Na segunda palestra, apresentei a situação de avanço do SciELO à luz dos progressos alcançados na profissionalização, internacionalização e sustentabilidade dos periódicos e do programa, e sinalizando os desafios e as perspectivas futuras. Na sequência, a Profª. Maria Helena Marziale coordenou o painel dos editores-chefes que debateram as linhas de ação a partir de suas visões e experiências. O Profº Lucas Massimo destacou os ganhos de eficiência e qualidade na gestão editorial que conta com dados atualizados sobre os processos de avaliação de manuscritos. O Profº José Leopoldo Ferreira Antunes compôs um amplo marco da internacionalização da pesquisa e sua comunicação a partir do campo da Saúde Coletiva do Brasil e advertiu sobre o perigo da busca de indicadores cair na simples estrangeirização. Fechando as intervenções do painel, o Profº André Felipe Cândido da Silva abordou o tema da sustentabilidade considerando, por um lado, o fortalecimento da credibilidade do periódico, e, por outro, as diferentes opções de mobilização de recursos financeiros. Os três comentaristas convergiram que a função da editoria é a priorização da eficiência e qualidade nos processos de adoção das linhas de ação.

A terceira palestra veiculada em vídeo foi uma contribuição pessoal à temática da reunião anual do SciELO da parte do Diretor do Open Scholarship Initiative (OSI), Glenn Hampson, que compartilhou um emaranhado de facetas da complexidade que envolve as análises e propostas de reforma da comunicação científica, refletindo em boa parte as análises do OSI. A abordagem que ele apresentou sobre o futuro da publicação dos periódicos orientou o debate que seguiu com a participação dos Profs. Élder Antônio Sousa Paiva, Suzana Caetano da Silva Lannes e Alexander W. A. Kellner, editores-chefes de prestigiados periódicos do Brasil. O painel contou com ativa participação do público. Tanto nas falas dos editores do painel como nas do público, ressaltou-se a necessidade de que políticas e autoridades valorizem adequadamente os periódicos do Brasil com projetos de apoio a médio e longo prazo e o estabelecimento de algum sistema que prestigie a função dos editores na carreira dos pesquisadores. Uma manifestação que se repete nas reuniões de editores foi o questionamento da classificação dos periódicos do Sistema Qualis que passou a determinar o fluxo das submissões das pesquisas dos programas de pós-graduação. Nestas condições, a exclusão dos melhores periódicos do Brasil das primeiras categorias de muitas das áreas de avaliação do Qualis que são predominantemente reservadas aos periódicos dos países desenvolvidos, que há tempos tem adquirido prestígio, é uma barreira quase intransponível ao surgimento de periódicos de alto impacto no país. Ou seja, é praticamente impossível que periódicos do Brasil adquiram altos níveis de prestígio internacional sem indução e dependentes da submissão voluntária de manuscritos de qualidade dos programas de pós-graduação. Por outro lado, os programas de apoio financeiro à editoração de periódicos das agências operam na base de atender as demandas de custeio de atividades, produtos e serviços por meio de auxílios quase sempre restritos a um ano de duração, procedimento que limita o desenvolvimento de projetos que buscam metas de desempenho em dois ou mais anos.

A questão central – a relevância dos periódicos

A questão central que permeou as apresentações e discussões foi uma vez mais o reconhecimento da relevância dos periódicos do Brasil e do SciELO no desenvolvimento da pesquisa nacional. Por um lado, eles dotam as sociedades e associações científicas, instituições acadêmicas e de desenvolvimento, programas de pós-graduação, grupos de pesquisas e outras comunidades com a capacidade de avaliar, editar e comunicar pesquisas do país e do exterior, que são funções essenciais da infraestrutura e do progresso científico. Por outro, contribuem decisivamente para a veiculação de pesquisas produzidas nacionalmente que por diferentes razões conformam-se mais aos periódicos editados nacionalmente.

Entretanto, a relevância dos periódicos é percebida historicamente por meio de dois indicadores: presença e desempenho em índices bibliográficos de referência internacional e pela contribuição à comunicação das pesquisas nacionais. No primeiro indicador, a emergência e consolidação do SciELO como índice de expressão internacional contribui para ampliar a cobertura da indexação de periódicos de disciplinas ou com políticas editoriais que não se adaptam aos critérios de indexação dos índices de referência internacional. De fato, 30% dos periódicos SciELO não estão indexados no Scopus ou no Web of Science (WoS).

Quanto ao segundo indicador, as políticas nacionais em prol da internacionalização da comunicação da pesquisa dos programas de pós-graduação, como a do Programa Qualis, e as políticas em prol da internacionalização dos periódicos como a do Programa SciELO, contribuíram para diminuir significativamente a presença dos periódicos de qualidade do Brasil na comunicação da pesquisa nacional. Este câmbio foi mais acentuado no índice Web of Science (WoS), quando consideramos os artigos de pesquisa original, os artigos de revisão e trabalhos de congresso nos índices Science Citation Index Expanded, Social Science Citation Index e Arts and Humanities Citation Index. Neste contexto, em 2006, previamente à ampliação da indexação do WoS, os periódicos do Brasil contribuíam com 18% dos artigos do Brasil, proporção que saltou rapidamente para 35% em 2010 e da mesma forma caiu para 23% em 2015. No mesmo período, a proporção de artigos de autores afiliados no exterior duplicou passando de 19% para 38%, enquanto de autores do Brasil diminuíram de 86% para 69%.

O aperfeiçoamento dos periódicos

Centrado no reconhecimento da relevância dos periódicos do Brasil e considerando o contexto das políticas nacionais que afetam o desenvolvimento dos periódicos e dos avanços e reformas que ocorrem na comunicação científica internacional, o SciELO vem promovendo o aperfeiçoamento dos periódicos segundo três linhas de ação: profissionalização, internacionalização e sustentabilidade. Este aperfeiçoamento visa contribuir prioritariamente para a inserção proativa dos periódicos no fluxo internacional de informação e conhecimento científico. Mantendo suas missões e características essenciais, a perspectiva é tornar os periódicos altamente competitivos no fluxo da informação e conhecimento científico.

A linha de ação de profissionalização deverá completar-se em boa parte em 2017 para a coleção SciELO Brasil e até 2020 para a maioria das coleções da Rede SciELO. Ela inclui: a adoção da marcação em XML dos textos completos no padrão Journal Article Tag Suite (JATS) segundo o SciELO Publishing Schema, incluindo fórmulas, tabelas e outros componentes dos artigos científicos; o uso de um sistema online de gestão de manuscritos, que permita aos editores e aos autores acompanhar o estado de avanço da avaliação dos manuscritos e forneça aos editores estatísticas e relatórios atualizados de apoio à gestão editorial; a publicação rápida dos manuscritos aprovados por meio da modalidade de publicação contínua com a perspectiva de reduzir a mediana do tempo de publicação para seis meses e futuramente para três meses; a publicação dos dados da pesquisa, e, finalmente, a participação ativa nas redes sociais como meio prioritário de divulgação das pesquisas publicadas. Os periódicos SciELO caracterizam-se pelo alto número de acessos (arquivos em formato HTML) e downloads (arquivos PDF) de artigos que atendem. Nos últimos doze meses somente os periódicos do SciELO Brasil tiveram uma média diária de 760 mil acessos e downloads. A expectativa é que a participação ativa nas redes sociais aumente ainda mais este fluxo e poderá contribuir também para mais citações.

A linha de ação de internacionalização deverá completar-se em boa parte até 2020 para a coleção SciELO Brasil. A publicação em inglês deverá alcançar 75% da coleção Brasil em 2018 com 40 a 50% de artigos em português considerando entre 15% e 25% publicados simultaneamente nos dois idiomas; a gestão editorial com participação mínima de 25% de editores estrangeiros deverá acontecer até 2019; e, a porcentagem de 35% recomendada de autores estrangeiros é esperada para 2023. A internacionalização é a mais polêmica das linhas de ação e o seu equacionamento requer a participação ativa dos editores e das instituições responsáveis pelos periódicos e é especialmente dependente das disciplinas e áreas temáticas cobertas pelos periódicos. Entretanto, muito da sobrevivência e relevância futura dos periódicos de qualidade do Brasil dependerá da inserção ativa no fluxo de informação científica internacional, o que acontecerá com a ampla visibilidade das pesquisas que publicam e, ao mesmo tempo, com a condição de veículos competitivos internacionalmente para atrair autores estrangeiros.

A linha de ação de sustentabilidade envolve além da dimensão financeira, a preservação e aumento continuado da credibilidade e prestígio do periódico. Ou seja, a sustentabilidade é produto combinado da qualidade do periódico e do apoio financeiro que recebe. Em geral, os periódicos do Brasil são financiados por um mix de fontes de recursos: a instituição responsável pelo periódico, as agências de apoio à pesquisa e comunicação científica, patrocinadores, os autores que compartilham custos como de tradução por exemplo, e, os autores que pagam taxas de publicação (Article Processing Charge). Cabe a cada um dos periódicos definir seu modelo de financiamento com base em uma ou mais destas fontes de recursos. Um avanço essencial na sustentabilidade financeira é criação de escala para a contratação de produtos e serviços de editoração de modo a minimizar os custos. Assim, sociedades científicas, universidades e demais instituições que são responsáveis por vários periódicos ou que possam associar-se entre si para a editoração de vários periódicos devem negociar soluções comuns e vantajosas financeiramente. Nesse sentido, o SciELO vem promovendo um mercado de empresas, produtos e serviços certificados que combinem qualidade e custos competitivos, principalmente com ganhos de produtividade devido a inovações tecnológicas. Ao desenvolver este mercado com uma ampla plataforma de soluções a serviço de todos os periódicos, o SciELO se posiciona como um Metapublisher.

No esforço coletivo de aperfeiçoamento dos periódicos, estas três linhas de ação se desenvolvem de modo complementar e convergente.

A evolução da edição digital promovida pelo SciELO

O objetivo principal do SciELO de aumentar de forma sustentável a visibilidade dos periódicos de qualidade é realizado por meio da publicação digital online em acesso aberto. Um fator essencial nesta realização são os ganhos com inovações metodológicas e tecnológicas. O SciELO procura maximizar os ganhos via três orientações principais: acompanhar o estado da arte internacional de edição científica digital, estabelecendo parcerias com instituições e empresas de comunicação científica; maximizar a interoperabilidade dos artigos e periódicos na Web com índices, serviços e sistemas de informação científica; e, baixar os custos e acelerar a publicação com ganhos de produtividade gerados com a automação de processos e introdução de novas modalidades de publicação.

A implantação de uma plataforma de publicação digital online em acesso aberto pelo SciELO foi um empreendimento pioneiro e inovador, que foi desenvolvida e testada inicialmente por um projeto piloto realizado entre fevereiro de 1997 e março de 1998 com a participação de uma equipe técnica dedicada e 10 periódicos de diferentes áreas e de alto prestígio na comunidade científica. O projeto piloto pode ser considerado a primeira etapa na evolução da publicação digital liderada pelo SciELO. Em março de 1998, com o lançamento oficial do SciELO, deu início à etapa de operação regular das funções de indexação, preservação e publicação digital dos periódicos e da interoperabilidade com o Google e índices bibliográficos. Em termos de edição digital a função do SciELO nesta etapa pode ser caracterizada como agregador, visto que recebia os arquivos dos periódicos e procedia com o tratamento digital. Esta etapa no SciELO Brasil prosseguiu até 2012 com a conformação da coleção núcleo dos periódicos de qualidade do Brasil disponibilizados em acesso aberto.

A partir de 2013 a edição digital dos textos foi transferida progressivamente para os periódicos com a geração dos textos completos em XML de acordo com a norma internacional JATS e sua adoção via SciELO Publishing Schema. Esta terceira etapa representa um avanço notável no desenvolvimento das capacidades e infraestruturas locais de edição científica e se consolidará em 2017.

A partir de 2018, o novo avanço na plataforma de edição científica ocorrerá com a participação ativa dos autores na preparação dos arquivos por meio de interfaces online amigáveis de edição e submissão de manuscritos já estruturados internamente em XML de modo a minimizar as intervenções dos periódicos e do SciELO na edição digital e assim acelerar a publicação. Nesta quarta fase está prevista também a adoção da publicação em repositórios preprint previamente à submissão aos periódicos para a devida validação. Repositórios preprints vêm sendo implementados em diferentes áreas temáticas e os periódicos SciELO deverão adotar políticas editorais que permitam a recepção de manuscritos já disponibilizados em repositórios preprints. O Programa SciELO deverá também avaliar e experimentar a operação de um servidor preprint SciELO.

Esta quarta etapa significará, em vários aspectos, um avanço notável na plataforma de edição digital do SciELO ao abrir possibilidades dos periódicos em conjunto com o SciELO superarem muitos dos problemas contemporâneos da comunicação científica por meio da aceleração da disponibilização dos resultados de pesquisa, o enriquecimento das opções de revisão por pares e o barateamento dos custos.

Fonte: PACKER, A. SciELO e o futuro dos periódicos. SciELO em Perspectiva. [viewed 05 January 2017]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/12/21/scielo-e-o-futuro-dos-periodicos/

13 de janeiro de 2017

Publicado por Priscila Jacobsen