Se eu conversasse com Deus…

Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

Leandro Gomes de Barros

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

[Manoel de Barros]

E-book ‘Movimentos sociais, sujeitos e processos educativos’

O GT 03 da ANPEd – Movimentos Sociais, sujeitos e processos educativos – disponibiliza e-book para download gratuito. O trabalho traz uma antologia do Grupo de Trabalho, com organização de Elmir de Almeida, Leandro R. Pinheiro, Luís Antonio Groppo e Mirela Figueiredo dos Santos Iriart.

No prefácio, Maria Antônia de Souza afirma que a obra trata da sociedade a partir dos movimentos sociais, dos seus sujeitos e dos processos educativos nele construídos, sendo composta de partes que instigam o leitor a viajar pelo cenário de origem do grupo, os problemas nele debatidos e os interlocutores nacionais e internacionais. “É um livro que nos faz pensar em esperança, pois contém textos que dizem de práticas sociais, ações coletivas, movimentos sociais que lutam pela conquista e manutenção de direitos, além de revelar que há uma dinâmica social que resiste à política antidemocrática. Diz de sujeitos que denunciam o Estado protetor dos interesses empresariais, que lutam por políticas públicas e, especialmente, pelo reconhecimento da própria existência.”

O e-book está disponível no site da Pedro & João Editores.

As pessoas que duvidam

Mangue, de Di Cavalcanti

Gosto das pessoas que duvidam,

das pessoas que tanto ouvem

seu coração balançar.

Gosto das pessoas que dizem

e que se contradizem

sem se denunciar.

Gosto das pessoas que tremem,

que, às vezes, não parecem

capazes de julgar.

Gosto das pessoas que passam

meio em seus “calçados”

meio de parte, ao lado.

Amo sua pequena canção

mesmo se eles passam por idiotas.

Gosto daqueles em pânico,

aqueles que não são lógicos;

bem, não como é preciso

aqueles que, com suas correntes,

mesmo que isso não nos incomode,

fazem um ruído de sinos.

Aqueles que não terão vergonha

de não ser mais, no final das contas,

que faltas do coração,

por não ter sabido dizer

“livrai-nos do pior

e mantenha o melhor”.

Amo sua pequena canção

Mesmo se eles passam por idiotas.

Gosto das pessoas que não se atrevem

a se apropriar das coisas

e ainda menos das pessoas.

Aqueles que não querem ser

mais que uma simples janela

para os olhos das crianças.

Aqueles que, sem bandeira,

daltônicos da alma,

ignoram as cores.

Aqueles suficientemente “comuns”

para que nunca a história

lhes preste honras.

Amo sua pequena canção

Mesmo se eles passam por idiotas.

Gosto das pessoas que duvidam

e gostariam que nós as deixássemos

em paz de tempos em tempos,

e que não as fustiguemos

quando passeiam

seus outonos à primavera.

Que lhes digamos que a alma

faz mais belas chamas

que todos esses tristes traseiros.

E que nós lhes agradecemos

Que lhes digamos, lhes gritemos

“obrigado por ter vivido,

obrigado pela ternura…”

[Les gens qui doutent – Anne Sylvestre]

Juventudes em debate

É com satisfação que divulgamos o Ciclo de Lives Juventudes em debate: trabalho, educação e ação política, vinculado ao projeto de extensão ‘Contextos, trajetórias e reflexividades: educação e disputas sócio-políticas em debate – GESET/FACED/UFRGS’ e ao Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEDU/FACED/UFRGS).

Estamos realizando encontros virtuais com professores-pesquisadores no tema, conforme a agenda abaixo:

24/02 (19h) – ‘Juventude: elementos sócio históricos e panorama atual’ (Prof. Dr. Luís Antonio Groppo/UNIFAL)

07/04 – ‘Juventudes e trabalho: provocações da abordagem de Machado Pais’ (Profa. Dra. Miriam Lacerda/UNILASALLE)

14/04 – ‘Juventudes e escolarização’ (Prof. Dr. Victor Nedel/Colégio de Aplicação-UFRGS)

28/04 – ‘Juventudes e ação política: reflexões sobre a atualidade’ (Prof. Dr. Maurício Perondi/UFRGS)


Será atividade aberta ao público em geral e sem necessidade de inscrição. Abaixo, o pôster da quarta live, que, como as demais, terá transmissão pelo Canal do GESET no Youtube.

Diadorim

Semente de peixes – Marta Barros


Aquele lugar, o ar.
Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora. Melhor alembro.

O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente – “Diadorim, meu amor…” Como era que eu podia dizer aquilo?

É como é que o amor desponta.

Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe.”

E eu – como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida o diga. Se amor ? … Diadorim tomou conta de mim.

E de repente eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes, com meu coração nos pés, por pisável; e dele o tempo todo eu tinha gostado. Amor que amei – daí então acreditei.”

 Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim- que não era de verdade. Não era?

Diadorim deixou de ser nome, virou sentimento meu

Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava.

Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.

Tudo turbulindo. Esperei o que vinha dele. De um aceso, de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu, às loucas, gostasse de Diadorim, […] no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre.

Abracei Diadorim, como as asas de todos os pássaros

 Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura…

amor é a gente querendo achar o que é da gente.

Grande sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
Trechos lidos Maria Bethânia em ‘Caderno de Poesias’
Assista ao vídeo

Em campo no Partenon

No segundo semestre de 2019, iniciamos a pesquisa no bairro Partenon, nas proximidades do Campo da Tuca, dando continuidade às atividades do projeto ‘Tempos versados: éticas e capitais nas narrativas da alegria’. Esta é a última localidade prevista para imersão.

Nesse bairro, privilegiamos o diálogo com ativistas do funk, além de acompanhar a rotina de intervalos na Escola Estadual Paulo da Gama. Sendo esta a última localidade para incursões, optamos por combinar a observação em prática cultural juvenil com o acompanhamento da sociabilidade dos estudantes. Trata-se de uma medida de aproximação à instituição escolar, visando concluir na escola nosso circuito por consumos e produções culturais pertinentes aos jovens.

No Campo da Tuca, dialogamos com o MC Sabha, que desenvolve projeto sócio educativo com jovens em composição e canto. Ele e seus educandos estiveram em aula da disciplina Sociologia da Educação I-A, ministrada pelo Prof. Leandro R. Pinheiro, para apresentações e roda de conversa no dia 30 de outubro/2019.

Seguiremos em diálogo no bairro até julho de 2020. Teremos ainda uma intensa agenda de incursões, entre observação de práticas, aplicação de questionários, grupos de discussão e entrevistas.

Escolarização em meios populares…

Nos dias 21 e 22 de novembro/2019, como parte de nossas atividades junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação, realizamos o Seminário Especial “Escolarização em meios populares: percursos escolares, experiências e desafios à pesquisa” (15h), com a participação de Profa. Dra. Nadir Zago (PPGE/UFSC). O seminário se deu como atividade articulada ao seminário avançado “Socialização e individuação em processos sócio culturais: reflexões para pesquisa sobre trajetórias de jovens no campo da educação” (60h), ministrado junto com Profa. Dra. Célia E. Caregnato. Se esta última discutia contribuições teórico metodológicas de Pierre Bourdieu, Bernard Lahire e Danilo Martuccelli, o primeiro nos trouxe aportes complementares vinculados à consolidada experiência de pesquisa de Profa. Nadir em periferias urbanas.

Foi possível discutir as relações entre família e escola em grupos populares, assim como as mudanças históricas na configuração dos percursos escolares quando o acesso ao ensino superior passa a figurar como possibilidade para contingentes antes excluídos. O seminário especial foi encerrado com o painel ‘Acesso e permanência no ensino superior: políticas, disposições e desafios a estudantes de meios populares’, agregando a participação das professoras Neusa C. Batista e Célia E. Caregnato (ambas do PPGEDU/UFRGS).

PPGEDU e participações…

Sessão do GT 03 – 39 Reunião da ANPED, Niterói/RJ.

De agosto a dezembro de 2019, realizamos mais algumas participações em bancas de qualificação e defesas finais. Inicialmente, tivemos a qualificação do doutorando Alex da Silva Vidal, com o título “Rastros e traços de vidas juvenis: escritas de jovens na sócio educação”, na linha ‘História, memória e educação’. Depois, a qualificação também de doutorado de Elisabete da Silveira Ribeiro, “Não sou mais criança! Posso continuar na escola e ser aluno?”, sob orientação de Carla Vasquez (linha ‘Educação especial e processos inclusivos’) e a qualificação de mestrado de Murilo M. Pedroso, de título “Estudantes da rede pública de Porto Alegre na perspectiva de acesso ao ensino superior: análise de capitais e traços disposicionais”, com orientação de Célia E. Caregnato (linha ‘Educação, cultura e humanidades’).

Participamos ainda da qualificação de doutorado de Andréa Wahlbrink Padilha da Silva, intitulada “O direito à cidade e a construção da pedagogia da juventude nos processos de resistência”, sob orientação de Conceição Paludo. E, por fim, integramos a banca da defesa da dissertação de Gislaine Angeli, “Juventude e trabalho: as percepções dos jovens do Ensino Médio sobre a educação profissional”, orientada por Jorge A. Rosa Ribeiro. Estes últimos vinculados à nossa linha de pesquisa (Trabalho, movimentos sociais e educação).

Em 2019/02, participamos também da 39 Reunião da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPED), na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói/RJ, de 20 a 24 de outubro. Então, apresentamos trabalho no ‘GT 03 – Movimentos sociais, sujeitos e processos educativos’, com o título “A prova social da escolarização entre jovens de escolas públicas: escola e interatividade nas periferias de Porto Alegre”. Foi também a oportunidade para acompanharmos discussões atinentes a metodologias de pesquisa sobre individuação e socialização, e/ou tomarmos parte em debates sobre interseccionalidade e educação. Confira o site do evento aqui.

Vale registrar também o trabalho desenvolvido na orientação de dissertações e teses. De momento, trabalhamos, no mestrado: com Pedro A. Wink, que investiga as disputas de hegemonia no Conselho Estadual de Educação-RS, no que tange à Reforma do Ensino Médio; com Paulina dos Santos Gonçalves em pesquisa sobre os suportes produzidos por jovens moradores de rua; e com Vitória Sant’Anna Silva, que estuda a dimensão educativa das escolas de samba desde a formação de disposições sociais. Apoiamos, ainda, a realização da pesquisa de doutorado de Diogo Zanini, acerca da socialização de educadores sociais vinculados ao movimento Hip Hop.