Aninha e suas pedras (Cora Carolina)

Não te deixes destruir…

Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

 

 

Sintonia para pressa e presságio (Paulo Leminski)

Escrevia no espaço.

Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.

 

5º Ciclo de Estudos: Metrópoles, Políticas Públicas e Tecnologias de Governo – A centralidade das periferias brasileiras

 

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU propõe a realização da quinta edição do Ciclo de Estudos: Metrópoles, Políticas Públicas e Tecnologias de Governo, no sentido de compreender as metrópoles e seus movimentos enquanto reinvenção dos espaços políticos e suas formas de construção, olhando atentamente para as dinâmicas que ocorrem a partir das periferias e que colaboram decisivamente para a referida reinvenção. Esta compreensão permitirá explorar as metrópoles à luz dos conceitos de multidão e do comum, de forma a perceber nelas os diferentes modos de ser e existir que se forjam nas singularidades das periferias brasileiras, podendo inspirar possibilidades e limites quanto a (re)invenção do(s) espaço(s) político(s) e suas formas de construção, no sentido da superação dos atuais modelos de construção política e participação cidadã, numa perspectiva de cocriação e coprodução.

 No dia 10/05, às 19h30, haverá a conferência Itinerários versados – redes, pertenças e modos de ser nas periferias de Porto Alegre, com o  Prof. Dr. Leandro Rogério Pinheiro (UFRGS)

Local: Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU

 

 

 

Leia mais informações aqui.

 

Muitas fugiam ao me ver (Carolina Maria de Jesus)

 

Muitas fugiam ao me ver
Pensando que eu não percebia
Outras pediam pra ler
Os versos que eu escrevia

Era papel que eu catava
Para custear o meu viver
E no lixo eu encontrava livros para ler
Quantas coisas eu quiz fazer
Fui tolhida pelo preconceito
Se eu extinguir quero renascer
Num país que predomina o preto

Adeus! Adeus, eu vou morrer!
E deixo esses versos ao meu país
Se é que temos o direito de renascer
Quero um lugar, onde o preto é feliz.

Carolina Maria de Jesus, em Antologia pessoal. (Organização José Carlos Sebe Bom Meihy). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996

 

Roda Viva (Chico Buarque)

 

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mais eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
No volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

 

 

 

 

Novo encontro na Restinga

Em 24 de março, realizamos o terceiro grupo de discussão sobre as atividades de “tempo livre” no bairro Restinga, desta vez com a participação de estudantes da Escola Estadual Raul Pilla. Os debates anteriores, realizados em janeiro, contaram com moradores e ativistas idosos, adultos e jovens-adultos. Este procurou contemplar as práticas de jovens-adolescentes.

Procuramos garantir uma distribuição equilibrada entre meninos e meninas, considerando ainda os diferentes anos do ensino médio e distintas tomadas de posição em relação às práticas escolares.

Contrastados aos demais grupos, este se destacou pela diversidade das referências culturais citadas para seus cotidianos. De uma parte, poderíamos aventar uma vivência da condição juvenil de maneira mais plena, dada a vivência institucional escolar ampla, sem que precisem trabalhar até o momento. De outra, parece haver um aproveitamento intenso da diversidade de opções de consumo, com algumas incursões pela língua inglesa.

Há um considerável consumo de narrativas ficcionais de TV e internet (seriados e novelas), ampla fruição musical e um gosto disseminado pelas redes sociais, em especial aquelas com postagens mais curtas e instantâneas. O objetivo da navegação estaria sobretudo na interação e sociabilidade.

Além disso, foi possível observar segmentações de gênero (um tanto tradicionais) nas opções de lazer e no acesso ao espaço público. Apesar dos riscos interpostos pelos agentes do tráfico, os jovens (especialmente, os meninos) demonstram resistir, fazendo incursões em grupo para festas ou para jogar futebol nos campos do bairro. As meninas, embora também ocupem o espaço público, diziam tender a atividades em casa, em função dos riscos da rua.

 

 

 

Colônia Africana: como teve início a remoção dos negros para a periferia de Porto Alegre

 

“E lá tem negros, na capital do Rio Grande do Sul?”. A pergunta que norteia a análise do pesquisador Marcus Vinicius de Freitas Rosa sobre racismo em Porto Alegre tem razão de ser. Brasileiros aprendem na escola (e com a ajuda do senso comum) a estabelecer uma forte associação entre o Estado e a presença de imigrantes europeus. Essa imagem de região “embranquecida” e “europeizada” é reforçada, ainda hoje, em reportagens dedicadas a noticiar ao restante do País o “rigoroso inverno” e as ocasionais “nevascas” sulinas. Retratado dessa forma, o Rio Grande do Sul – europeu, frio e distante – se contrapõe à imagem de um Brasil tropical e mestiço.

 

Leia a matéria completa aqui.

POÉTICA (Manuel Bandeira)

 

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Sociabilidades, amizades e lazer: para refletir periferias


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Estão abertas as inscrições para o projeto de extensão Sociabilidades, amizades e lazer: para refletir periferias. Quinzenalmente, são promovidas rodas de conversa para discussão de textos relativos a sociabilidade, redes de amizade e estetização, tomando referências diversas para problematizar práticas de lazer e encontro em contextos nominados como periféricos. Os encontros acontecem às quartas-feiras, das 19h às 20h, de setembro a dezembro, na Faculdade de Educação da UFRGS (Faced).

Graduandos em cursos de licenciatura da UFRGS e interessados em pesquisas e práticas educativas em periferias urbanas podem se inscrever. Cada participante será convidado a compartilhar com o grupo as impressões e destaques resultantes de sua leitura de forma espontânea. O projeto busca construir uma dinâmica de trabalho com bastante informalidade e horizontalidade para que todas e todos se sintam à vontade na apropriação dos referenciais em debate. Sociabilidades, amizades e lazer: para refletir periferias busca a proposição de hipóteses analíticas a partir das experiências e incursões dos integrantes do grupo em localidades de periferia.

Para se inscrever, basta enviar nome, RG, CPF e número do cartão da UFRGS para cotidianosnarrativas@gmail.com.

.:O que: Projeto de extensão Sociabilidades, amizades e lazer: para refletir periferias;
.:Carga horária: 35h
.:Quando:Quinzenalmente, às quartas-feiras, das 19h às 20h30, de setembro a dezembro;
.:Onde: Faculdade de Educação UFRGS;
.:Inscrições: cotidianosnarrativas@gmail.com (nome, RG, CPF e número do cartão da UFRGS).

 

As periferias de Porto Alegre: entrevista com Leandro Pinheiro


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Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, Leandro Pinheiro, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, fala sobre as periferias de Porto Alegre, abordando seu surgimento, suas semelhanças e suas diferenças. Respondendo às perguntas do portal, o professor trata sobre programas como Bolsa Família e ProUni, assim como sobre movimentos sociais e educação.

Alguns pontos interessantes da entrevista abordam a formação das periferias porto-alegrenses, o que nos ajuda a compreender o significado do termo. Leandro Pinheiro explica que “A formação desses núcleos tem antecedentes em políticas de planificação e higienização da cidade no início do século XX, que removiam as populações mais empobrecidas, residentes em cortiços, para as bordas do centro.[…] Vale lembrar, é neste cenário que a noção de “periferia” ganha expressão, como uma das maneiras de designar contingentes de trabalhadores marginalizados no acesso a recursos sociais da cidade”.

Trazendo para a atualidade, de acordo com o censo de 2010, Porto Alegre teria em torno de 13% de sua população vivendo em aglomerados subnormais. “A capital gaúcha apresenta índices de favelização inferiores à cidade do Rio de Janeiro (22%) e, além disso, estes núcleos não estão localizados tão próximos a áreas visibilizadas como nesta última. Por outro lado, houve um crescimento de 34% entre 2000 e 2010, de forma que superamos a proporção da cidade de São Paulo (11,4%)”, afirma Pinheiro.

Leia a entrevista aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos