A história da professora Clarissa Gutierrez Carvalho na Famed iniciou-se há mais de 20 anos, ainda na década de 1990, quando começou a cursar a faculdade de medicina na UFRGS. Em 2003, ela concluiu a graduação e começou a fazer a residência no Hospital de Clínicas, onde permaneceu para fazer o seu mestrado em Saúde da Criança e Adolescente, concluído em 2009, e doutorado no mesmo programa de pós-graduação, concluído em 2013. Durante o doutorado, Clarissa foi então contratada pelo Hospital de Clínicas para integrar o corpo médico da UTI Neonatal. Em 2014, ela decidiu encarar um desafio diferente: se tornar professora do Departamento de Pediatria da Famed. Deu tão certo que, no final de 2020, ela migrou para a área da Neonatologia, tendo junto consigo agora, um casal de gêmeos para acompanhá-la nas aventuras que a profissão trouxe e ainda traz para a família.
A escolha pela especialização na área pediátrica foi construída durante todo o curso e veio da familiaridade e do gosto que Clarissa sempre teve por genética, medicina fetal e psiquiatria, que foram áreas em que ela foi fazendo pesquisas ao longo da graduação. “Eu percebi que o que ia juntar tudo isso ia ser a pediatria, eu gostava de fazer a atenção primária das crianças também. Eu vi que a pediatria ia suprir todas essas demandas”, conta a médica que é também filha de um intensivista pediátrico, mostrando que a família tem uma longa relação com as crianças e com a medicina.
Para conseguir conciliar a rotina de trabalho que a medicina e a docência exigem com a maternidade, “é preciso ser ninja”, como conta Clarissa. A médica ressalta a importância da rede de apoio para as mães e da tranquilidade de saber que no fim, tudo sempre fica bem. Para os cuidados com os gêmeos, ela conta com a ajuda de uma babá, de uma escola infantil e do seu marido. E para manter a rotina de trabalho, ela salienta a importância do apoio da chefia e da confiança que depositam no trabalho que ela realiza.
Quando estava grávida dos gêmeos, ela precisou se afastar por 3 meses – em virtude do risco de parto prematuro – além dos 6 meses da licença maternidade após o nascimento dos bebês. Após todo esse tempo longe do serviço, ela sentiu um pouco de dificuldade no retorno, mas o apoio que ela recebeu foi muito importante. “Foi um pouco difícil essa volta. Vinha muita culpa em mim, de sair de casa para cuidar do filho dos outros enquanto os meus estavam sendo cuidados por outra pessoa. Mas isso é algo que se vai superando, porque faz parte da vida. Há tantos profissionais da saúde que agora na pandemia tiveram que sair para cuidar de pacientes e os filhos precisaram ficar com outras pessoas. A gente precisa ter alguém em quem possamos confiar”, salienta Clarissa.
É fato que a pandemia mudou vários rumos profissionais de quem trabalha com a medicina. Para Clarissa, além do impacto no trabalho, a pandemia transformou os planos que tinha para os filhos e planos que tinham como família. Mas, por outro lado, o caos desse momento em que se vive, conseguiu deixar a família mais próxima. “A pandemia nos deixou muito próximo deles. Eles estão muito acostumados com a gente em casa, já que eu faço um turno presencial e um home office, e o meu marido está trabalhando em home office também. Então, eles estão sempre muito seguros que a gente está em casa”, ressalta a pediatra que finaliza falando sobre os impactos da pandemia na visão que as crianças têm do mundo: “para eles [essa situação causada pela pandemia] é normal, são crianças de dois anos que acham normal as pessoas usarem máscaras e os pais trabalharem em casa”.
“A maternidade transforma a tua relação com a pediatria” – Clarissa Gutierrez Carvalho, médica pediatra
Quanto a ser pediatra e mãe de gêmeos, ela ressalta que os filhos trouxeram novos aprendizados para a Clarissa pediatra: “a maternidade transforma a tua relação com a pediatria. Algumas coisas que eu não compreendia antes de ser mãe eu consigo compreender agora”. Ela ressalta que depois de ser mãe, se sente uma profissional mais completa e que passou a ter uma sensibilidade diferente a algumas coisas. Outro aspecto muito importante para ela, é conseguir separar a Clarissa mãe da Clarissa pediatra em casa, deixando apenas que elas se influenciem positivamente. “Eu tento não exercer a pediatria nos meus filhos, eu tenho uma pediatra para as questões de saúde deles. Mas eu tento colocar em prática coisas que eu ensino para os meus alunos, tento manter a alimentação deles saudável, tento evitar as telas excessivamente e fazer a saúde bucal deles adequadamente.” Ela ainda finaliza salientando a importância de saber separar a maternidade real da maternidade ideal, tendo consciência de que nem sempre é possível fazer tudo do jeito esperado.
Para ela, ser mãe é uma espécie de doação. “Ser mãe é não ter controle da tua vida pelo resto da tua vida (risos). Agora, é tudo para eles, tudo gira em torno deles. E eu não sei mesmo o que seria da minha vida sem eles”. Assim, Clarissa segue, sendo mãe, sendo médica e sendo parte da Famed. Como ela, outras várias servidoras e professoras vão passar esse domingo, 9 de maio, junto dos filhos, comemorando mais um “dia das mães”. Mas, na verdade, não se pode esquecer que o dia delas, que transformam o seu mundo para dar o melhor para os filhos, é todo dia
Foto:Clarissa com o marido e os filhos | reprodução: arquivo pessoal