Gurl, can you read? Like, literally?*

Mia The Witch

Quando se faz ciência, seja em qualquer área, volta e meia um dos dilemas que enfrenta-se é a desvalorização dos nossos esforços em detrimento de crenças populares ou apego emocional em uma narrativa sem fundamentação. Podemos pensar, a princípio, na crescente onda de movimentos anti vacinas ao redor do mundo como exemplo: um grupo de pessoas que, sem embasamento científico, une forças para espalhar desinformação e propagar medo sobre determinado assunto em pessoas leigas, contrariando resultados obtidos por diversos estudos qualificados. Por vezes, cientistas têm sua imagem deturpada em prol de narrativas falaciosas: são acusados de perversão, imoralidade, alinhamento político específico, entre diversos outros boatos que se difundem buscando descredibilizar o método científico.

Desde que entrei na Universidade, em 2014, traço caminhos próximos à pesquisa científica. Atualmente, sou pesquisador em nível de formação de pós-graduação na área da Comunicação, sendo bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Minha pesquisa em desenvolvimento trata sobre os tensionamentos nas significações de gênero e sexualidade propostas a partir da performance de drag monstras brasileiras. Desde a graduação, eu pesquiso a respeito da arte drag, tendo realizado uma monografia que buscou entender as percepções que drag monstras porto-alegrenses tinham de si e do cenário drag em que atuam. Desse modo, além de artista drag há quase uma década, eu também tenho alguns anos de experiência em pesquisa científica sobre essa linguagem artística. 

É verdade que um dos pilares do fazer ciência deve ser o diálogo e a troca de ideias: a ciência não deve ser um local de certezas imutáveis e inquestionáveis. Porém, quando se questiona um posicionamento científico, a controvérsia exige o mesmo nível de comprometimento das informações das quais se discorda. Deve haver espaço na ciência para o debate democrático, para a exposição de ideias contrárias e até para que fatos apresentados sejam refutados. Freud e Foucault, dentre diversos outros célebres acadêmicos, são constantemente questionados e tensionados – assim, notamos também avanços no pensamento científico. Porém, qualquer um que queira contrariar um exercício de pesquisa deve o fazer a partir de novos embasamentos científicos. Quando uma pesquisa chega em um resultado, seja ele qual for ou em que instância da vida social esteja sendo empreendido os esforços, essas conclusões não são meros devaneios advindos das crenças pessoais ou dos interesses próprios do grupo de pesquisa em questão. Eles são obtidos através de uma série de procedimentos rigorosos que conferem o grau de cientificidade necessário para que o exercício se torne um dado consistente e não uma fake news. A ciência não precisa – e nem vai – agradar a todos para ser uma fonte legítima de informação. Goste quem gostar, suas conclusões são frutos de estudos realizados e fundamentados em diálogo entre a teoria e a pesquisa de campo. 

Quando aponto em meus textos que Porto Alegre tem uma cena drag baseada nos signos de feminilidade hegemônica, isso não é um ataque às artistas que se enquadram nessa vertente, mas sim uma evidência observada através de pesquisas, não apenas minhas, como de outros autores que já lançaram olhar para nossa cena. Como exemplo disso, Almeida (2023) realizou uma dissertação de mestrado analisando o consumo midiático de drag queens em Porto Alegre. Em descrição do percurso metodológico adotado para entender o fenômeno regional, a autora dispara: “a fim de compreender melhor a performance drag e os processos de transformação de um corpo masculino em uma mimetização do feminino […]” (Almeida, 2023, p. 72). A afirmativa que a pesquisadora considera para tomar decisões estratégicas entra em consonância com o que aponto: Porto Alegre busca performar drag, majoritariamente, a partir da feminilidade. Ademais, Almeida (2023) também elenca um time de drags conhecidíssimas entre o público gaúcho como corpus que considerou em sua pesquisa de campo, nomes os quais em totalidade podem ser encontrados os de Desirré Aserehe, Seripha Sigma, Suzzy B, Cassandra Calabouço, Charlene Voluntaire, Maria Helena Castanha e Madison Nubië (Almeida, 2023, p. 64). Algumas mais do que outras, mas todas as artistas citadas no estudo compõem um quadro drag que busca a expressão da feminilidade como a centralidade de sua performance. Não há menção a nenhuma drag monstra, drag king ou drag queer: a pesquisadora toma a cena a partir da performance queen, baseada nos signos de beleza e sensualidade envoltos aos corpos femininos. Isso, de longe, é um problema para o trabalho realizado por ela, pois demonstra uma amostra coerente da expressividade drag encontrada na cidade que, predominantemente, busca pelos códigos sociais hegemônicos atribuídos à estética das mulheres. Porém, nos serve como mais um dos estudos científicos que entendem a cena drag de Porto Alegre como um local que promove uma hegemonia drag baseada na feminilidade. Ainda conversando com esse pensamento, eu mesmo obtive respostas em entrevistas de campo com artistas locais de outras tipologias drag, nas quais registraram sentir uma grande pressão para se adequar a cena drag porto-alegrense por ser uma “cena de beleza”, a necessidade de mesclar sua expressão drag aos códigos de feminilidade estabelecidos na cidade e a forte resistência local entre artistas e contratantes para com drags que não seguem as normas estéticas da feminilidade (Nascimento; Primo, 2025). 

Nesse ponto do diálogo, cabe também ressaltar que, pessoalmente, não tenho nenhum problema contra artistas drag que seguem os códigos sociais femininos em sua expressividade artística. Minha observação não se baseia na promoção de uma rivalidade entre quem performa personas hiper-femininas e as demais tipologias drag. Isso seria, novamente, além de raso demais, um papo que eu consideraria nocivo ao exercício drag na cidade. Levo à sério meu compromisso de produção de conhecimentos drag, o qual também dá sustentação à carreira acadêmica que estou construindo. Não apenas por apreço ao meu papel de cientista, como também porque acho fabuloso o trabalho que as manas femininas desempenham. Existe uma tremenda transgressão política quando uma bicha afeminada que sofre os pavores da homofobia institucional passa a subverter esse local de sujeição em que o sistema a coloca, reivindicando o seu poder justamente através da feminilidade que lhe fora negada. Assim também no caso de mulheres cis e trans que desempenham drag em expressão femme, confrontando os limites que lhes foram impostos socialmente e desenhando seus próprios espaços, sem necessidade de nenhuma permissão masculina. Toda forma de drag é absurdamente política e válida. Eu jamais estaria gastando meu tempo produzindo sobre uma arte marginal em que eu não visse poder político, uma vez que é papel do artista criar a tensão de desestabilizar. 

Portanto, a conversa aqui não é sobre eu ser contra a forma drag de algumas artistas ou achar que elas representam algum malefício ao grupo. Não existiu e nem existirá espaço para esse tipo de pensamento superficial  em meus textos, pois não é algo em que eu acredito. Nesse sentido, também não cabe que haja distorções levianas sobre as minhas produções. Nesses casos, recomendo a realização de uma nova leitura, mais atenta e disposta a fazer uma interpretação de texto qualificada. Se depois de assim o feito, permanecerem discordando dos meus posicionamentos e os enxergando com maus olhos, as encorajo para que me demonstrem, a partir da construção de uma argumentação consistente, que leve em base o rigor científico, além da empiria, onde estive errando em minhas conclusões. O tensionamento que proponho através das minhas produções é muito mais direcionada aos contratantes, espaços que oferecem trabalho drag e para o público consumidor do que para as demais artistas em si. Busco fazer tais tensões em prol da reconstrução de uma cena drag que acolha a diversidade e oportunize a criação de carreiras plurais. Existe, por trás das intenções que me movem a produzir, um sentimento de que toda forma de drag é válida e, justamente por isso, todas devem ser validadas também no mercado. 

De modo bastante direto, o que me incomoda não é a existência de drags que buscam se assemelhar com mulheres, mas sim isso ser norma para que artistas drags consigam emprego em Porto Alegre. Aqui, aponto para o domínio de uma tipologia drag no mercado porto-alegrense, regido por aqueles que detém os poderes de decisão: contratantes e público. Nesse sentido, alio esforços a toda uma linha de pesquisa que busca legitimar a arte drag como uma performance diversa, que não é restrita aos ideais de mimetização feminina. Speckart (2023), por exemplo, aponta que a expressão drag não pode ser resumida em uma oposição de gênero, em que um homem cisgênero gay vai “vestir-se de mulher”, pois além de deslegitimar o trabalho de diversos artistas drag que não se incluem nas categorias “homem, cisgênero e gay”, como mulheres e pessoas não-binárias que fazem drag, isso representaria um pensamento danoso para o movimento, pois existem diversas outras abordagens drag que não utilizam a feminilidade como centralidade. 

Tão antigos quanto as queens na historiografia drag, os drag kings podem ser citados como uma das tipologias que desafiam essa norma. Lessa e Tortola (2016) apontam que os kings tratam da construção de masculinidades plurais dentro da expressão drag, contestando que a masculinidade não pode ser reduzida aos corpos dos homens. Nesse sentido, as autoras afirmam que “nas práticas Drag Kings, abrem-se possíveis modos de libertar os corpos que estavam presos ao papel de destino biológico e, assim, recriar um corpo mais lúdico, um modo transviado de masculinidade, que inclui o papel da vestimenta na configuração dos gêneros” (Lessa; Tortola, 2016, p. 77). De tal modo, a tipologia king descentraliza a feminilidade do campo artístico, substituindo-na pela problematização das masculinidades. 

Minha pesquisa em curso também se destina a analisar uma dessas tipologias dissidentes das normas hegemônicas do drag: as drag monstras. Apresentadas por Costa e Filho (2024, p. 6) como uma das quatro partes componentes da expressão drag queer, as drag monstras, juntamente das outras três, ecodrags, tranimals e themonias, “buscam justamente romper com representações muito essencialistas do masculino e do feminino, levando a arte drag para lugares de expressão que chacoalham a tradição”. Por esse caminho, a descentralização das questões de gênero feitas pelas drag monstras acontece através do desmanche dos signos da humanidade, os substituindo pelos da monstruosidade em um movimento que, além de estético, promove tensões políticas de sujeitos queer abjetos. Ao rejeitar a humanidade, encontrando na alegoria do monstro de horror um local de subversão das normas sociais e poder político, Gadelha, Maia e Lima (2020) apontam que as drag monstras representam o futuro da política queer.

Por essa via, minha atividade de produção sobre conhecimentos drag parte de uma lógica sistematizada e compartilhada por diversos estudos debatidos na área. A partir de todos eles, entendemos que a arte drag é bastante plural, inclusiva e com infinitas possibilidades criativas, aliando esforços de representatividade queer à performance artística. Nenhuma das posições que defendo deixam de ter embasamentos que dialogam tanto com o campo, como com a teoria. Portanto, acredito que tenham subsídios fortes o suficiente para não caírem ao papel de meras opiniões ou gostos pessoais. Essas, com certeza, guardo para as pessoas mais próximas e as oferto com uma boa cerveja gelada. Aqui, existe um compromisso ético e profissional em produzir textos embasados, com boa argumentação e sustentação. Ninguém é obrigado a concordar com os dados que eu apresento, assim como muitas pessoas estarão contra as vacinas e medicações, mas a contestação exige a apresentação de argumentos tão sólidos quanto os que demonstro. Ademais, penso que incomodar-se com tais apontamentos é, entre duas opções possíveis, negar o acesso das diferentes tipologias por medo da perda de espaço ou falta de uma boa interpretação de texto. As portas da GD estão abertas, nossas vozes e pontos de vista são múltiplos.

*O título em inglês faz uso do vocabulário drag, no qual a gíria “to read” significa gongar alguém, criando um trocadilho com seu sentido de tradução literal, que é “ler”.

Referências

ALMEIDA, Mirella de. A performance drag queen gaúcha: uma análise do consumo midiático de drags de Porto Alegre. 2023. 155 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2023.

COSTA FILHO, Francisco Carlos; LOPES, Elisabeth Silva. Questões de gênero e mais além: a interseccionalidade na arte drag. Revista Brasileira de Estudos da Presença, Porto Alegre, v. 14, n. 3, e132185, 2024. 

GADELHA; MAIA; LIMA. Drag, glamour, filth: gênero e monstruosidade em Rupaul’s Drag Race e Dragula. Cadernos Pagu, Belém, n. 61, junho de 2020.

LESSA, Patrícia; TORTOLA, Eliane. O corpo que dança e a construção da poética Drag King: um tango-ação. Periódicus, Salvador, n. 4, v. 1, p. 76–90, nov. 2015 – abr. 2016. 

NASCIMENTO, Patrick Sutil do. Drag, monstruosidade e identidade: estudo sobre a percepção de drag monstras sobre si e sua participação no cenário drag da cidade de Porto Alegre/RS. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Relações Públicas) – Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2024.

NASCIMENTO, Patrick Sutil do; PRIMO, Alessandra Teixeira. Monstruosidade na identidade de drags no contexto de Porto Alegre/RS. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 48., 2025, Vitória, ES. Anais […]. Vitória, ES: Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2025. 

SPECKART, Jeanne Martins. Uma andança por pedagogias Drag. 2025. Dissertação (Curso de Moda) – Udesc, 2023.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *