Mia The Witch
Eu não me recordo a idade exata que eu tinha quando eu conheci uma drag queen, mas certamente foi ainda na infância. Aqui, vale ressaltar que fui uma criança dos anos 1990, sabemos que a época dos fatos tem certo peso sobre eles ao orientar perspectivas sociais. As primeiras drags que conheci foram pela televisão: Vera Verão e Nany People. Lembro de achá-las muito divertidas, sempre sorrindo e fazendo sorrir quem contracenava com elas nas esquetes dos programas que faziam parte. Ao mesmo tempo, eu não entendia muitas das piadas e nem tinha ideia do porquê as pessoas com quem eu convivia (família, colegas de escola, professores, etc.) não gostavam ou tiravam sarro delas. Fui condicionada pelo meio social a esconder meu interesse pelo trabalho delas, mesmo sendo elas tão encantadoras à minha criança. Não era tido como de bom tom gostar de uma drag queen naquele contexto.
Anos mais tarde, por volta de 2014, descobri o trabalho de Lorelay Fox no YouTube. Essa descoberta coincidiu com o período em que eu tinha me assumido como uma pessoa LGBTQIAP+ aos meus pais e amigos. Os vídeos didáticos de Lorelay foram me fazendo entender mais sobre assuntos queers e me dando orgulho de ser quem eu sou – orgulho esse que não existia antes em mim e era ocupado por um sentimento terrível de inferioridade. Lembro que em um de seus vídeos, Fox disse que a drag queen é como uma porta-voz da comunidade LGBTQIAP+; que, através da arte e do encantamento proporcionado pela drag ao público, ela se torna hábil de ser uma comunicadora eficaz e abre espaços de diálogo com o objetivo diminuir a exclusão social de pessoas queers. Acho que foi assistindo a esse vídeo que um estalo se deu em mim e me fez pensar: “Eu quero ser uma drag queen!”.
Aliado a isso, comecei a consumir cada vez mais conteúdos drags e descobri meu amor por RuPaul’s Drag Race. A partir do programa, meu deslumbramento pela arte drag tomou uma proporção ainda maior. Eu via no trabalho daquelas participantes uma ligação muito forte com o que eu queria fazer, mas que desde a infância fui ensinada a abafar em mim. O universo de Drag Race era muito viciante, me cativava de uma forma que eu me pegava em vários momentos do dia me imaginando em vestidos que vi na passarela do programa ou em como eu dublaria músicas que apareceram no show.
Drag Race moldou a ideia da primeira drag queen que eu queria me tornar. Arrisco a dizer que não só a mim, mas como a maioria das drag queens da nova geração. A ideia desse reality show, em teoria, me parecia fabulosa: pegar uma arte marginalizada, dar umas boas modeladas nela e a transformar em uma arte de entretenimento mainstream. Entretanto,
na prática, acredito que a disputa acirrada apresentada por RuPaul acabou criando regras e limitações demais para uma arte que era sobre ser livre para se expressar da forma que sentimos ser a nossa melhor versão.
É necessário reconhecer que o público teve acesso e aprendeu sobre a arte drag a partir desse show, o que evidencia sua relevância para a cena drag contemporânea. Contudo, ao mesmo tempo, esse reality elenca hierarquicamente um tipo específico (ou tipos específicos) de artistas e todos que destoam desse padrão “racer” passaram a ser comparados e inferiorizados por parcela dos fãs do programa, incluindo aí algumas drags que reproduzem esses padrões.
Por esse caminho, uma drag queen só teria seu valor reconhecido pelo público, mesmo na cidade em que se apresenta, quando se assemelha com o que é visto sobre drag na competição televisiva. Vejo nesse pensamento um ato de redução das expressões drag, mesmo depois de mais de uma década de programa e suas discretas tentativas de se tornar um show com linguagens diversas. Isso me incomoda, não me interessa ser uma artista padrão “racer”.

Fonte: Arquivo Pessoal
Minha estética drag é bem diferente do que habitualmente aparece no show. Enxergo a minha arte como uma forma política de contestar imposições de gênero que me aborrecem desde a minha infância.
Eu sou uma pessoa não-binária. A vida inteira tentaram me encaixar em um lugar duro, desconfortável e cruel em relação ao meu gênero. A Mia nasceu como uma forma de o Patrick explodir essas caixas. Sendo assim, minha drag nunca foi feminina de um modo patriarcal. Enxergo que minhas escolhas estéticas – que são, sobretudo, escolhas políticas – incomodam e tiram o conforto de alguns espectadores. Eu ser uma drag queen com pelos em todo o corpo, que não usa enchimentos corporais e não aquenda faz com que muitos nem me considerem uma drag queen de verdade. Acredito que esse também seja o papel do artista: incomodar; fazer sentir desconforto; tirar a pessoa de um lugar de certezas imutáveis e acolhedoras.
Apesar de ter uma paixão imensa por referências glamourosas, como a Old Hollywood ou o cenário pop atual com divas como Lady Gaga e Pabllo Vittar, enxergo minha arte como uma expressão de contra-revolta. Tento quebrar essas regras que foram impostas aos artistas drag. Por isso, eu me considero uma drag monstra.
O dicionário Oxford traz para o verbete “monstro”:
- ser disforme, fantástico e ameaçador, ger. descomunal, que pode ter várias formas e cujas origens remontam à mitologia.
- qualquer ser ou coisa contrária à natureza; anomalia, deformidade, monstruosidade.
Eu sou a monstra das drags. Sou uma drag que, do seu próprio modo, aprendeu a se incluir como artista num espaço que não se sentia bem-vinda por não se encaixar às “normalidades” próprias a esses lugares. Depois de 4 anos de montaria, estou encontrando quem sou enquanto artista e encorajo a todes que, assim como eu, se incomodam com essas regras, a se rebelarem. A arte é livre. E nós também devemos nos sentir assim.
Vamos quebrar o CIStema!

Muito feliz por poder aprender tanto com a Mia e também de vivenciar na mesma época toda essa arte em vida! Obrigada, é uma preciosidade! ❤️
Mia, parabéns pelo seu texto. Adorei!!! Linda, é isso aí.