Consumismo na arte drag

Miss Dangerr

Eu sou Miss Dangerr, uma drag queen vampira instalada atualmente na cidade de Campo Limpo Paulista, em São Paulo. Algumas das coisas que me inspiram são a música gótica, a música industrial e o horror. Recentemente, me tornei compositora de músicas trevosas e é assim que pretendo dar continuidade à minha carreira como transformista. Além de artista drag, sou professor de inglês (puramente como profissão) e escritor de horror.

Desde que iniciei o planejamento de Miss Dangerr, me preocupei em idealizar roupas e acessórios feitos de material reciclável, pois tenho preocupação ambiental e gostaria de trazer essa pauta com minha drag. O que descobri com o passar da minha jornada foi que fazer reciclagem não seria o suficiente para ser uma drag ecológica. Eu teria, também, que aproveitar mais minhas roupas e com isso viria mais um desafio, o de não ser básica.

Miss Dangerr arte drag
Miss Dangerr. Fonte: Arquivo pessoal da artista.

Em 2019, fiz uma guitarra de papelão, lata e isopor para uma de minhas apresentações. Ficou maravilhosa. No entanto, com o passar do tempo, descobri que reciclar não é tão simples assim. No final das contas, nossos acessórios feitos de reciclagem vão parar no lixo do mesmo jeito que os outros lixos, tendo seu descarte apenas um pouco atrasado. Todos os meus acessórios de material reciclado ou reutilizado foram parar no lixo mais cedo ou mais tarde, porque em algum momento já não precisei mais deles. Ou seja, a reciclagem torna-se um placebo.

Então, o que um transformista precisa fazer para, ao mesmo tempo, ter looks arrasadores e gerar menos impacto ambiental? Bom… Pode continuar fazendo seus acessórios e roupas a partir de lixo, com certeza; mas isso não adiantará muito se a montação durar apenas um dia. Sendo assim, uma das respostas que achei para meus questionamentos foi: repita os looks, aproveite-os mais. A fast fashion é um dos mercados que mais poluem no mundo;  não deveríamos colaborar com ele juntamente às grandes marcas de roupas.

Looks especiais feitos para um único show são comuns na cena drag. Eu mesma já passei horas costurando roupas que usei apenas uma vez, feitas apenas para aquela ocasião especial, aquele vídeo, aquela festa. Note também que RuPaul nunca repetiu um look em seu programa. Eu considero que isso seja um consumismo inerente à arte drag e estou há quase dois anos tentando evitá-lo. Jurei para mim mesma que nunca mais faria  uma roupa de uma noite só. Me sinto livre para repetir minhas imagens extravagantes quantas vezes quiser.

É claro que fazer isso sem parecer repetitiva e básica não é uma tarefa fácil. Agora, meu plano é ter algumas camisas, algumas saias e alguns casacos para combiná-los de maneiras diferentes. Assim, não é necessário fazer algo novo para cada ocasião. Mudar a peruca, o penteado e a maquiagem também ajudam a transformar o mesmo em algo novo. Eu poderia muito bem usar no Halloween a  roupa que usei no Réveillon  mudando somente a peruca e a maquiagem. Por que não? 

Miss Dangerr arte drag
Mis Dangerr. Fonte: Arquivo pessoal da artista.

Outra estratégia que uso para aproveitar mais as roupas é fazer peças que sirvam tanto para mim, em meu dia-a-dia, quanto para minha persona drag queen, sejam elas unissex ou femininas, já que sou um homem cisgênero que usa vestido, saia e espartilho. Fazer uma roupa cotidiana parecer um figurino de drag queen não é tão difícil, você pode encher sua calça de correntes e alfinetes de segurança tamanho 6 ou colocar quase toda sua energia em fazer um casaco bem chamativo que vá até o chão; dessa forma, ninguém perceberá que você está usando a calça skinny preta que usa para ir trabalhar. Além disso, uma customização e um bom do it yourself podem te ajudar bastante nessas situações. 

Acredito que este trabalho de me vestir para arrasar sem ser consumista e sem desperdiçar material ainda demorará algum tempo para se consolidar. Estou apenas no início de minha adaptação para uma drag queen não-consumista e econômica,  inclusive, começo a pensar  em quais materiais devo ou não usar em minhas confecções. Sei que toda pessoa que se aventura na arte do transformismo é diferente, mas gostaria de convidar outras a refletirem sobre essa questão do consumismo . Você não precisa fazer um look diferente para cada música, para cada show e depois deixá-lo jogado no fundo do guarda-roupas; faça com que o show se adapte a você e ao que você tem. Quando for repetir uma roupa, mude a maquiagem, a peruca e a proposta da performance; as pessoas não têm que se importar. Se achar que está tudo básico e repetitivo demais, lance mão dos acessórios de reciclagem e use sua criatividade.

Todos nós podemos arrasar consumindo menos!

Como citar este texto

DANGERR, Miss. Consumismo na arte drag. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/consumismo-na-arte-drag/>. Acesso em: 13. Nov. 2023.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *