Entrevista Brigitte Liberté

Por Lady Lazzarus

Brigitte Liberté compõe a cena drag de Belém do Pará, onde integra o coletivo NoiteSuja e coloca em prática o projeto Manas (En)Cena. No dia 03 de setembro, Lady Lazzarus entrevista a artista via e-mail. Entre os temas abordados estão as referências no processo de montação, o artivismo feminista através de laboratórios drag para mulheres e as lutas pelo protagonismo de mulheres na arte drag.

Brigitte Liberté Grafia Drag
Brigitte Liberté. Foto: Ana Paula Gomes.

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Lady Lazzarus. Como nasceu Brigitte Liberté? Há quanto tempo você se monta e quais foram as suas fontes de inspiração para a criação da sua persona drag queen? 

Brigitte Liberté. Em 2016, tive meus primeiros contatos com a arte drag por vivenciar muito intensamente o processo de inserção na arte drag de uma grande amiga minha da faculdade, Ti Yara, mulher trans, artista da dança, cuja drag se chamava Aracna Swan (este processo se deu antes de sua transição de gênero). Passei admirar e me identificar com o exagero nas formas, nas maquiagens, as roupas extravagantes e principalmente, com as performances. Já sendo artista da dança, das artes cênicas, a questão performática das drags era o que mais me encantava, me imaginava, tal qual esta minha amiga, fazendo performances cheias de textões de teor político e dança. Apesar da identificação e interesse que começava a se instaurar, a falta de protagonismo feminino na arte da montação (especialmente de mulheres cis), me inibia de iniciar meu próprio processo, desta forma, enterrei a vontade de me montar, por mais um tempo. 

Em 2018, assisti pela primeira vez uma performance de Skyssimme, grande artista transmasculino da cena drag Amazônida. Na época, antes de sua transição de gênero, trazia à cena performances que abordavam questões referentes a vivências femininas na sociedade, violências, medos, lutas, etc. Conhecer seu trabalho, foi um divisor de águas na minha vida, pois eu entendi que era exatamente aquilo que eu queria. 

Daí para frente, comecei a pesquisar mais sobre mulheres no cenário drag, entender preconceitos e tabus que deveriam ser quebrados e principalmente, a importância da ocupação destes espaços, por mulheridades. Skyssimme me ajudou muito no início deste processo, me deu apoio e me influenciou a iniciar minha jornada como drag.

No dia 9 de julho de 2019, fiz a primeira edição do meu projeto artístico feminista Manas (En)Cena, que nasceu com o objetivo dar visibilidade e protagonismo para mulheres artistas da Amazônia. A primeira edição, tratou-se de um espetáculo em um teatro da Universidade Federal do Pará, que levou à cena apresentações de artistas mulheres de diversas áreas (teatro, dança, música, circo, drag), e neste dia, também tive meu debut, me montei e performei pela primeira vez, como drag Brigitte Liberté.

Minhas referências sempre foram as drags daqui da Amazônia paraense, a nossa regionalidade, territorialidade, as drags que usam textos e dança em suas performances. Sempre fui uma drag da música popular brasileira, músicas paraenses, dificilmente performo músicas estrangeiras, pois sinto que a minha maior potência permanece no que sai daqui de dentro, não no que vem de fora.

Lady Lazzarus. Sabemos que você é uma grande ativista e militante pelo espaço das mulheres dentro da arte transformista/drag. O que mais lhe move nessa luta? 

Brigitte Liberté. Costumo dizer que minha trajetória é movida por gritos decoloniais, principalmente de mulheres. Sem dúvida, o que sustenta o meu trabalho é o ativismo feminista e LGBTQIA+, a vontade de fazer com que a minha arte, transforme cada vez mais a sociedade em um mundo mais digno para corpos dissidentes viverem. Ao adentrar o cenário da arte drag e entender as questões de machismo e misoginia que refutam corpos com buceta destes espaços, me deparei aí, com mais uma grande luta que eu precisaria abraçar, a luta pelo direito de mulheres de se reconhecerem e se fazerem presentes e ativas nestes ambientes.

Lady Lazzarus. Tem um vídeo seu que gosto bastante, e que inclusive me contempla muito enquanto visão de uma expressão muito comum no Brasil. O vídeo se intitula “E homem que se veste de mulher?”. Você poderia explicar para as pessoas que nos leem qual a diferença entre DRAG e “HOMEM VESTIDO DE MULHER”?

Brigitte Liberté. Sempre parto do princípio de que drag é sobre montação, experimentação pessoal, exploração de possibilidades estéticas, induzidas por motivações pessoais, por vontades de se descobrir de outras formas, de quebrar barreiras impostas pela sociedade e chegar a um estágio de realização pessoal, e isso, não tem nada a ver com gênero. Homem que se veste de mulher no intuito de fazer imitações e chacotas, como ocorre constantemente no carnaval, não passa de uma pessoa se utilizando de seus privilégios sociais, para ridicularizar grupos sociais minoritários e sendo massa de manobra para mais violência com estes grupos, especialmente mulheres trans e travestis, que permanecem sendo vistas como passíveis de humilhação, desprezo e que servem para fazer as pessoas rirem. 

Lady Lazzarus.  Você tem um projeto incrível na Amazônia, que é o MANAS (EN)CENA. Poderia falar um pouco mais sobre este projeto para nós e para as pessoas leitoras do GRAFIA? 

Brigitte Liberté. O Manas (En)Cena é um projeto artístico-cultural que tem como objetivo dar visibilidade à cena artística feminina, no estado do Pará. Teve sua primeira edição em julho de 2019, no Teatro Universitário Cláudio Barradas, em um espetáculo que reuniu trabalhos artísticos de várias mulheres de diversas áreas das artes, em uma noite cheia de artivismo feminista. Sua segunda edição, ocorreu em agosto de 2020, em formato de um show online com transmissão ao vivo de trabalhos em vídeo de várias artistas paraenses, a maioria deles, produzidos durante o isolamento social e com arrecadação solidária para o Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará. A terceira edição do Manas (En)Cena, intitulada Joga na Roda, foi um festival premiado pela lei Aldir Blanc Pará, ocorrido nos dias 06 e 07 de março de 2021, com transmissão ao vivo pelo YouTube, que além de exibição de videoperformaces de artistas mulheres paraenses, também contou com rodas de conversas sobre importantes temáticas que tangenciam o universo feminino. Premiado pelo edital FCP de Incentivo à Arte e Cultura, o Manas (En)Cena teve sua quarta edição, em novembro de 2022, em formato de show musical e performático, ocorrido no Espaço Cultural Apoena. E finalmente, o Manas (En)Cena alcançou sua quinta edição com o Laboratório Drag para Mulheres, com patrocínio da emenda parlamentar da deputada federal Vivi Reis, contou com cinco encontros, voltados exclusivamente para mulheres,  compostos por oficinas e vivências em áreas que tangenciam o universo da arte drag, sendo estas, história da montação, maquiagem e performance, sempre mediadas por discussões referentes a padronizações estéticas e comportamentais de corpos feminino na sociedade, tendo como conclusão, um espetáculo, que levou à cena, um pouco do trabalho que foi desenvolvido durante o laboratório, estrelando performances artísticas das mulheres participantes e apresentando a nova geração de mulheres drags da Amazônia. 

Lady Lazzarus. Para onde mais você gostaria que o MANAS (EN)CENA fosse? Onde mais você acha que é necessária essa desconstrução do que é a arte da montação? 

Brigitte Liberté. Ainda estou decidindo quais serão os formatos das próximas edições do Manas (En)Cena, sempre gosto de variar o conteúdo anual do projeto, afim de abranger cada vez mais linguagem artísticas e trazer novidades, também. Agora, falando especificamente sobre o Laboratório Drag para Mulheres, pretendo que este projeto tenha ainda muitos desdobramentos, acredito que a desconstrução da ideia estereotipada de que drag é um homem que se veste de mulher e toda carga machista, misógina, transfóbica, que vem junto, é necessária por todos os cantos do Brasil e do mundo, portanto, tenho buscado novas articulações para fazer uma nova edição do laboratório, aqui no Pará novamente, e para circular com ele, em outros estados do Brasil. Acredito na necessidade maior de discussões como estas serem levadas para estados do Sul e Sudeste, onde a cultura drag ainda bebe muito das referências norteamericanizadas que propagam competitividade nociva, machismo, misoginia, etc. 

Lady Lazzarus. Você já sofreu algum preconceito por ser uma mulher cis atuando como drag queen? O seu projeto MANAS (EN)CENA já sofreu algum tipo de preconceito em algum momento (ao longo das edições que você já fez)? 

Brigitte Liberté. Preconceitos, situações desconfortáveis, medos e inseguranças, são basicamente acessórios a mais, que mulheres drags são obrigadas a carregar. Mãos bobas pelo corpo, pessoas perguntando se sou “mulher de verdade”, pessoas tentando diminuir meu fazer, dizendo que é mais fácil ou até mesmo, nem me considerando drag, são algumas das situações às quais já fui submetida. Até onde eu sei, nunca fui atacada diretamente pelo meu projeto, até porque o Manas (En)Cena sempre esteve bastante protegido pela minha bolha de relações, que fortalecem o rolê.

Lady Lazzarus. A comunidade LGBT também pode ser uma grande opressora das mulheres artistas. Na sua visão, experiência e vivência, por que isso acontece?

Brigitte Liberté. Muitos homens gays ainda sustentam e fortalecem a ideia de que são o centro da comunidade LGBTQIA+ e desta forma seguem propagando machismo e misoginia. É sempre importante lembrar que homens gays não deixam de ser homens, portanto não estão isentos de surfar nos privilégios masculinos e falocêntricos e se somar na opressão de mulheres e outros corpos sexo-dissidentes minoritários, o que enfraquece sobremaneira a ideia de comunidade.

Lady Lazzarus. Você é uma artista da dança que recentemente defendeu sua dissertação de mestrado. Como foi essa experiência para você enquanto mulher, artista e pessoa LGBT? A Academia é mais ou menos receptiva às contribuições de pessoas como você?

Brigitte Liberté. Infelizmente não pude vivenciar o ambiente acadêmico do mestrado como gostaria, por conta da pandemia, fiz o curso todo de forma virtual e sem muita interação e troca com a turma, por conta de toda frustração que carreguei de não ter sido como eu gostaria. Mas do que pude vivenciar, por ser um curso de artes, um Mestrado em Dança, onde a maioria das pessoas são LGBTQIA+, já se torna um ambiente mais tranquilo e agradável de estar, nunca sofri algum tipo de violência de gênero, por exemplo. Minhas questões com a academia, são mais sobre academicismo latente, embates metodológicos, linguagem acessível, que são minhas maiores lutas neste espaço, pois para mim não faz sentido produzir algo que não seja sobre e para as minhas, que parta das minhas semelhantes, do meu movimento cotidiano, das pessoas que constroem política e cultura junto comigo. Descontruir a academia como esse lugar de distanciamento e hierarquia, é uma árdua tarefa, mas de uma maneira geral, consegui dar minhas contribuições sobre isso, na minha dissertação, sem embates tão grandes.

Lady Lazzarus. Quais conselhos você dá para as mulheres que estão iniciando na arte da montação? Você acha que teremos alguma mulher ou pessoa AFAB numa próxima temporada do DRAG RACE BRASIL, por exemplo? 

Brigitte Liberté. Sempre digo que é necessário entender que não é um lugar fácil para nossos corpos adentrarem, que vários obstáculos de colocam no caminho e nos empurram para trás. Entretanto, saliento que é uma das experimentações mais bonitas que corpos como os nossos, que durante a vida inteira, foram colocados em caixas normativas de padronizações estética, podem experimentar. Então digo que se deve começar, sentir vontade e buscar artifícios para dar o pontapé inicial, que ele vai nos levar aos próximos passos. Importante também é buscar rede de apoio, descobrir próximo a você pessoas que podem te abraçar, te acolher e realmente te impulsionar nessa trajetória. Ter apoio e incentivo, principalmente se for de outras mulheres, é uma das coisas mais valiosas que se pode conseguir. É sobre saber que o caminho pode sim ser bastante tortuoso e sempre buscar se proteger, mas lembrar que o lado bom dessa trajetória, todas as possibilidades, realizações, o autoconhecimento e autoestima oriundos dali, podem ser muito mais fortes e superiores a qualquer desavença do caminho e nos tornar mais fortes ainda. Eu sempre digo que a gente tem medo, mas maior do que o nosso medo é o medo deles, de que a gente não tenha mais medo.

Lady Lazzarus. Se quiser deixar algum comentário, convite ou conselho a todas as pessoas que leem e prestigiam o GRAFIA DRAG, deixamos esse espaço. 

Brigitte Liberté. Gostaria de agradecer este espaço, fico muito feliz com a identificação e interesse com o meu trabalho e também quero parabenizar por este trabalho tão necessário que o Grafia Drag vem fazendo, buscando abrir diálogos urgentes sobre gênero, montação e afins.

Aproveito para indicar que se pesquise e conheça mais sobre o cenário da arte drag aqui da Amazônia, que ainda é tão desvalorizado em perspectiva nacional, mas que tem construído ao longo dos anos, um movimento potente de montação, a partir do trabalho do Coletivo NoiteSuja que deu origem ao movimento das Themônias, onde buscamos descontruir com padrões estereotipados e normativos do fazer drag, colocando em evidência nossos aspectos de regionalidade, identidade, norteados sempre pelas nossas relações de afeto.

“Disseram que voltei americanizada”: Será que o transformismo brasileiro resistirá à franquia RuPaul’s Drag Race?

Lady Lazzarus

Ru Pauls Drag Race Brasil Disseram que voltei americanizada
Elenco do Drag Race Brasil, spin-off brasileiro de RuPaul’s Drag Race. Foto: Divulgação

Em 30 de agosto de 2023, o país assistiu à grande estreia do Drag Race Brasil, a versão brasileira do reality show RuPaul’s Drag Race, que tem apresentado, divulgado e enaltecido a arte da montação em todo o mundo. Foram anos de espera por uma “franquia para chamar de nossa”, uma vez que o Brasil tem um histórico fortíssimo de grandes artistas transformistas, drag queens e também drag kings. Esses grupos específicos de artistas esperavam ansiosamente que isso ajudasse a popularizar ainda mais esse segmento de arte no país, e com isso, levá-la ainda mais longe, e consequentemente gerar mais empregabilidade e chamar atenção às pautas da comunidade LGBTQIA+. Mas, a provocação que fazemos diante deste fato é: será que a franquia brasileira do Drag Race vai realmente valorizar a nossa forma de fazer transformismo/arte drag ou vai fazer com que nossas/os/es artistas se rendam à cultura estadunidense de uma vez?

A arte do transformismo brasileiro é bastante diferente da arte drag dos Estados Unidos. As nossas transformistas, como eram chamadas as drag queens brasileiras antes da popularização de RuPaul’s Drag Race, ficaram conhecidas pelos grandes concursos de beleza como o Miss Gay, onde tomam parte usando figurinos suntuosos, com muito paetê, pedrarias e plumas, que em muito lembram as grandes divas do cinema clássico e do cabaré internacional. Outra grande inspiração é o Carnaval, e isso se mostra pelos adereços de cabeça e pelas performances sensuais que exploram o corpo e os ritmos musicais brasileiros. A maquiagem, sempre muito polida e requintada, é para se aproximar do female impersonator, característica essa muito forte no transformismo latino americano como um todo. No palco, nossas artistas tem na comicidade um ponto altíssimo, sendo célebres contadoras de piada e de interações cômicas com a plateia. Elas próprias se definem como “caricatas”, usando às vezes de uma caracterização mais exagerada, e fazendo uso de técnicas que vão de encontro à palhaçaria para apresentar um show de humor único, muito típico do fazer teatral brasileiro. Nesse segmento, temos grandes nomes como: Suzy Brasil, Karina Karão, Silvetty Montilla, Gina de Mascar e Maria Helena Castanha. 

Ainda explorando as múltiplas facetas do transformismo brasileiro, temos as divas do teatro. Mulheres trans e travestis em sua maioria, Rogeria, Jane Di Castro, Divina Nubia, Divina Valeria e outras tantas encenavam esquetes de Teatro de Revista e outros espetáculos, numa época onde o transformismo não era uma arte tão marginalizada no Brasil. A elite brasileira era frequentadora de grandes casas de shows e teatros que eram referência desse tipo de atração, como o Teatro Rival, no Rio de Janeiro. O show de Impersonator também é algo que artistas transformistas brasileiras – e latino americanas – se especializaram em fazer. A imitação de grandes celebridades, especialmente cantoras e outras artistas de palco, sempre foi um dos carros-chefes dos eventos com elenco de transformistas. Luiza Gasparelli, por exemplo, foi impersonator de Madonna por muitos anos, junto de seu colega Erick Barreto/Diana Finsk, uma das maiores referências do nosso transformismo, que atuava como impersonator de Carmen Miranda, chegando a encená-la num filme. Ambas ficaram famosas concorrendo no “Show de Calouros” do Programa Silvio Santos, exibidos aos domingos no SBT, entre as décadas de 1980 e 1990. Por fim, temos um tipo de número artístico tipicamente nosso: o “bate cabelo”. “Bater cabelo” é algo que representa 100% a arte transformista/drag brasileira. Com precursoras como Marcia Pantera, Stripperella e Robytt Moon, um show drag brasileiro não está completo se não houver uma performance de bate cabelo.

Carregado de requinte, sempre bastante pautado na feminilidade, no humor e no glamour da arte cabareteira, a arte transformista brasileira passa longe dos figurinos futuristas ou que fazem referência ao bondage, como é comum vermos em RuPaul’s Drag Race. Enquanto aqui tínhamos Walerio Araújo assinando o guarda-roupa de Elke Maravilha, que sem ser drag já era “muito drag”, as participantes do reality show de RuPaul Charles, em sua maioria, exibem peças feitas por artistas que ainda não são tão conhecidos no mundo da moda, mas pautam suas criações no high fashion por influência do próprio RuPaul, que foi a primeira drag queen a representar grandes marcas de cosméticos nos Estados Unidos (como a MAC) e usar peças de estilistas renomados (como Bob Mackie). RuPaul cunhou o conceito de supermodel para as drag queens, e faz questão que seu programa tenha uma passarela de alta moda, além de exigir das participantes um vasto conhecimento sobre o assunto.

Não que o transformismo brasileiro não represente a alta moda, muito pelo contrário. Sempre tendo como referência o que é grandioso para sua época, a arte da montação brasileira sempre foi maxi, onde “mais é melhor”, e nunca representou a moda de forma minimalista. Nossa arte tem como marca registrada o brilho, os penteados imensos e pomposos, acessórios que imitam uma grande quantidade de joias, e adereços coloridos e festivos. O nosso Carnaval, talvez o mais emblemático do mundo, faz com que nossas artistas sempre vejam o conceito de “mais é melhor” como o ponto de partida da montação. Para ser uma grande transformista/drag queen brasileira, você precisa brilhar, estar envolta de uma atmosfera de fantasia, ser aquela pessoa fácil de ser avistada na multidão, diferente e única. O transformismo latino americano passa longe de ser neutro, conciso, e até mesmo, básico. Ele é sempre hiperbólico. E, quando colocamos frente a frente a nossa arte com a arte norte americana vimos como elas são diversas, têm origens diferentes e como caminham para lados opostos na grande maioria das vezes.

Em RuPaul’s Drag Race podemos ver desafios de comicidade onde a caricatura é protagonista. Também sabemos que muitas das participantes do programa foram Misses, e elas nos lembram muito as nossas transformistas, ao desfilar seus longos vestidos cravejados de pedras brilhantes ou ainda usando alguma vestimenta burlesca que lembra o nosso Carnaval. Também é possível ver desafios de atuação e canto, algo que nossas veteranas não apenas dominavam, mas são referência até hoje. Mas, também vemos grandes divergências quando se trata de humor politicamente incorreto, algo que o Brasil já pode dizer que deixou para trás, além da exigência de um minimalismo no visagismo e na produção dos figurinos das participantes, que definitivamente não é algo que compartilhamos por aqui.

Quando da estreia e ao longo dos episódios da franquia brasileira, vimos drag queens que apresentaram visuais muito próximos à franquia estadunidense saindo à frente no favoritismo, como Organzza, que foi a grande vencedora desta primeira edição, Betina Polaroid e Naza. Os looks apresentados por essas drag queens na promo do Drag Race Brasil poderiam nos fazer confundi-las com participantes da franquia original. Ali estavam presentes as linhas modernas do high fashion, o minimalismo, e maquiagens que iam da abordagem clássica, mais “feminina”, como as feitas por Organzza e Hellena Malditta, ao gráfico contemporâneo muito comum das queens dos Estados Unidos, como aquelas de Betina Polaroid e Dallas DeVil. Aliás, essas duas últimas queens poderiam facilmente estar numa temporada de RuPaul’s Drag Race, tamanha era a semelhança de suas abordagens drag com as participantes deste programa.

Shannon Disseram que voltei americanizada
Shannon Skarlett representou com excelência o transformismo brasileiro. Foto: Drag Race Brasil/ Divulgação.

Isso não deveria representar problema algum para a nossa arte, se este padrão não estivesse começando a vigorar como predominante na cena transformista/drag de todo o país. Por mais que o Brasil, de Norte a Sul, ainda se mantenha fiel de alguma forma às referências brasileiras, muitas pessoas jovens que estão ingressando agora na arte da montação, têm apenas o Drag Race como inspiração e “espelho” da arte. Cada vez mais esse molde avança para dominar o segmento, fazendo uma espécie de “pasteurização” de estilo, e colocando a estética brasileira e latino americana na categoria de old school, e num sentido pejorativo: como algo carregado e ultrapassado.

Shannon e Hellena Disseram que voltei americanizada
Shannon Skarlett e Hellena Malditta sofreram críticas no Drag Race Brasil por representarem a cena transformista brasileira. Fotos: Divulgação.

Os desafios do Drag Race Brasil mesclaram uma visão completamente estereotipada do país (trazendo referências fortes ao Carnaval e ao futebol, por exemplo) com o humor controverso da franquia original, aliados às passarelas onde o high fashion foi uma prioridade. A drag queen Shannon Skarlett, uma das poucas a trazer o transformismo brasileiro como protagonista das suas produções, foi criticada pelo painel de jurados por fazer algo “datado”. Hellena Malditta, que também trouxe fortes referências ao nosso fazer transformista em seu visual e figurinos, e mais especificamente da cena de Salvador, na Bahia, que tem uma característica marcante – e talvez única de seus artistas, que é um misto de glamour e monstruosidade, de caricatura e cabaré – também foi criticada ao exibir uma maquiagem e uma produção típica local. E não podemos esquecer, obviamente, de Tristan Soledade. Sendo talvez a participante que mais se distancie do padrão binário de gênero imposto ao transformismo e à arte drag, Tristan foi duramente criticada por usar barba e por apresentar figurinos característicos do movimento das Themônias da Amazônia, grupo de transformistas/drag queens/kings do Pará, que tem por base a dissidência de gênero e a mitologia amazônica, e que incorpora novas figuras e novas tendências ao fazer drag brasileiro. Shannon, Hellena e Tristan representaram com honras o transformismo brasileiro, mas foram “penalizadas” na competição justamente por isso. Seriam essas penalidades uma mensagem de que nossa forma de fazer transformismo/drag não seja pertinente na Workroom do Drag Race?

No desenrolar da competição, acompanhando as participantes por sua passagem em eventos de divulgação e outros tantos que tomaram parte por estarem dentro da primeira franquia Drag Race brasileira, foi possível observar que os figurinos, as maquiagens e os penteados das artistas ficaram cada vez mais parecidos com aqueles das norte-americanas. Podíamos ver as linhas geométricas nos figurinos, as perucas em formato de esculturas, a maquiagem mais suave e delicada, e até uma supressão de nossas expressões de pajubá, para a adoção de um linguajar mais próximo do inglês (shade, runway, challenge, etc). Devido às agendas lotadas de compromissos, algumas das artistas levaram consigo seus maquiadores, peruqueiros e até assistentes de produção, mostrando a evolução da arte transformista/drag no mercado, conquistando um espaço próprio, e demonstrando a necessidade de toda uma equipe para se manter um/a único/a artista em movimento. O Drag Race traz consigo um impacto fortíssimo na arte como expressão a ser vendida e comprada, e por um valor considerável, trazendo uma valorização que artistas brasileiros talvez nunca experimentaram antes. Mas, traz também um novo padrão de artista: o da celebridade, da supermodelo, e com aquele toque “americanizado”, que é demasiado “polido” e higienizado, típico de produtos pensados para o consumo de massa. A mensagem é clara: você adere esse modelo para que a sua arte seja aceita, e consequentemente, vendida de forma mais eficaz. Mas será que é isso mesmo que queremos?

Tristan Soledade
Tristan Soledade foi a participante que mais representou a ruptura de padrões que a arte transformista/drag deveria ter e manter como estandarte. Foto: Drag Race Brasil/Divulgação.

A arte transformista/drag brasileira por si só não pode ser consumida de forma a ser bem paga? Não pode ocupar os mesmos espaços que as participantes do Drag Race Brasil ocuparam? Ela precisa de algum tipo de “adequação”? Será que a arte transformista/drag, enquanto conceito, consegue caminhar ao lado do capitalismo intacta em sua ideologia? O transformismo/arte drag, enquanto manifestação subversiva, deveria se encaixar totalmente num padrão mercadológico? São muitas as questões que permeiam esse debate, e muitas as respostas possíveis. O artista é um profissional como qualquer outro, que padece da romantização do seu ofício. Todo o mundo nos diz para “viver pela arte” ou “fazer arte por amor”, enquanto temos necessidades como qualquer outra pessoa, e merecemos respeito e remuneração adequada por nosso trabalho como qualquer profissional. Partindo daí, assistir ao sucesso do fenômeno de RuPaul’s Drag Race e vê-lo movimentar todo um nicho de mercado em nosso país é completamente válido. Mas, isso pode implicar no apagamento de importantes características das cenas regionais, além de uma padronização que foge ao conceito dessa arte em particular em detrimento de um modelo de artista com maior adesão, e mais fácil de ser “consumido” por todos os públicos. Em resumo: quanto mais próximo do modelo norte-americano, mais “vendável”. É como se estivéssemos vivendo uma fase de “democratização” da arte, mas ao mesmo tempo, sofremos com uma “regulamentação” que passa muito longe de conversar e coexistir com a nossa história.

Podemos encontrar um meio-termo para seguir fazendo aquilo que melhor nos representa, respeitando àqueles/as que vieram antes de nós, aliando o que é tradicional sem colocar isso no lugar de retrógrado, e ainda buscar por uma valorização da classe – neste caso, da artística e cultural, mais especificamente do segmento do transformismo. Podemos usar a visibilidade e a força que o Drag Race traz para colocar em destaque aquilo que fazemos de melhor, sem seguir a “receita” de um produto americanizado e moldado para consumo de massa. Usar essa máquina de publicidade da franquia pode, sim, ajudar a alavancar muitos talentos, fazê-los ser bem sucedidos como profissionais da arte e da cultura e ainda fomentar projetos que são nossos e têm a cara da cultura brasileira. Podemos desenvolver e manter outros reality shows voltados para a nossa realidade, desde que observadas as questões de diversidade e pluralidade na seleção do elenco. O que não é prudente é se deixar absorver de todo pela tendência de RuPaul’s Drag Race, seja na concepção de um visual, seja na execução de um concurso ou evento. A realidade do/a artista transformista/drag brasileiro/a/e é: manter a maquiagem intacta em um clima tropical, permeado pelo sol ardente e pelas chuvas intensas de verão, é adaptar um brunch para um festejo junino, é saber que somos um combo completo de diversão e entretenimento, e que não precisamos nos pautar em nada que o programa faça ou venda para que sejamos melhor remunerados. A arte brasileira é preciosíssima e forte. Sobrevivemos a uma ditadura e agora enfrentamos com garra o conservadorismo. É direito nosso resistir e exigir que sejamos tratados com o respeito que qualquer outro trabalhador mereça, sem ter a régua do americanismo medindo nossos esforços. Esmorecer diante da tentação que um produto de caráter globalizado oferece pode fazer com percamos ainda mais o domínio sobre coisas que naturalmente já escapam de nossas mãos.

Recentemente, por conta da explosão da série POSE, também estadunidense, vimos a popularização da cultura Ballroom no Brasil. Porém, a cultura Ballroom não é algo nosso. É mais uma manifestação que, por mais que represente pessoas negras e não brancas, transgênero, periféricas e marginalizadas, ela tem berço em outro país e num outro contexto. Ela pode ser adotada por pessoas brasileiras e pode se desenvolver aqui? Sim, mas não quer dizer que isso mude a história das pessoas LGBTQIA+ e racializadas do país, que é bastante diferente dessa outra realidade. A comunidade de pessoas negras e não brancas, periféricas e marginalizadas no Brasil sempre encontrou muita representatividade no Carnaval, por exemplo. O Carnaval sempre foi a festa “da favela” em nosso país. Aos poucos, o capitalismo e a branquitude conseguiram tomar um bocado desse território do Carnaval, transformando-o numa festa cara e onde, muitas vezes, as pessoas que escreveram a sua história se veem apagadas e negligenciadas. Por quanto tempo o Ballroom no Brasil se manterá negro e transgênero, por exemplo? A tendência de algo que se populariza é a adesão de um maior número de pessoas, e assim, uma maioria de indivíduos brancos e cisgênero pode se apropriar disso, como fizeram com o transformismo. Como consequência, teremos mais um desvirtuamento cultural, que vai priorizar a maioria e apagar a história da minoria, que por muito tempo resistiu nessas manifestações culturais e artísticas como formas de protesto político e sobrevivência.

O Drag Race Brasil pode (e deve) permanecer entre nós, mas que ele não seja nossa única fonte de inspiração e nem de manutenção da nossa arte. Podemos ter uma temporada ou várias da franquia, mas que ela sirva para mostrar ao mundo quem somos e como sobrevivemos em um país que foi colonizado e expropriado de tantas de suas riquezas. Que sigamos servindo a nossa arte com as cores, aromas e sabores da nossa terra, assim como na música de Carmen Miranda que dá título a este ensaio, e que ela seja permeada pelas nossas demandas, que são muitas, e que siga a provocar e a invadir espaços cisnormativos. Que a arte do transformismo esteja sempre a serviço dos corpos dissidentes, e não do capitalismo. Você sabia que RuPaul’s Drag Race teve por inspiração os balls nova-iorquinos? Que as passarelas são, na verdade, uma competição como o Ballroom era? E que por isso existe uma “categoria” de apresentação de figurino e vence quem melhor impressionar o painel de jurados naquela categoria? O maior programa de arte drag do mundo tem um histórico de inspiração numa cultura de resistência.

Divinas Divas
Divinas Divas: o documentário de Leandra Leal mostra grandes artistas de palco e do transformismo brasileiro. Foto: Reprodução/Divulgação.

Devemos saber a origem das coisas, a história delas, para que a nossa própria não seja apagada. Lembremos que o registro das coisas para aqueles que virão sempre será feito pelas mãos quem venceu a batalha. Nossa meta é vencer a batalha do capitalismo sobre a arte, da globalização sobre as culturas. É tempo de resgatar territórios e bens dos mais diversos e entregá-los de volta às mãos das minorias. O Drag Race Brasil deve mostrar o quão valiosa e necessária a arte da montação é, mas não é preciso “desmontar” a arte do transformismo brasileiro para isso.

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Referências

https://www.imdb.com/title/tt24251630

https://www.imdb.com/title/tt2362790

 

Como citar este texto

LAZZARUS, Lady. “Disseram que voltei americanizada”: Será que o transformismo brasileiro resistirá à franquia RuPaul’s Drag Race? Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/disseram-que-voltei-americanizada/>. Acesso em: 11 Dez. 2023.

Grafia Drag, 2° ano: memórias afetivas, gongação crítica e as potências da arte drag

Luná Maldita

Em outubro, celebramos o segundo aniversário do Grafia Drag. Durante esse período, publicamos 46 textos que falam dos saberes, das estratégias e das vivências de artistas drag e transformistas. No último ano, lançamos 21 ensaios, uma entrevista, dois episódios de podcast e realizamos duas rodas de conversa públicas na Casa de Cultura Mário Quintana. A mais recente novidade no Grafia Drag é a nossa organização enquanto coletivo, que surge do desejo de fortalecer nossas redes e criar alianças para projetos conjuntos.

Foto: Guilherme Martinez. Fonte: Pexels CC

Além dos materiais produzidos pelo nosso núcleo de produção textual, composto por Anubis Blackwood, Gilmar Montargil, Jandiro Adriano Koch, Juana Profunda, Kam Middle Space, Lady Lazzarus, Luná Maldita, Mia The Witch, Pietro Lamarca e Tiffany Plazza, tivemos a colaboração de mais seis artistas ao longo deste segundo ano: Ptera Dactyla, Sandro Ka, Grottesca, Candy Bloom, Ruby Catuaba e Paco Leal.

Mapeando os trabalhos publicados no último ano, identificamos três temas recorrentes. O primeiro deles é o das memórias afetivas nas cenas drag e transformista, que têm sido uma preocupação constante desde o nosso primeiro texto publicado em 2021. O segundo tema aborda questões relacionadas à reprodução de padrões estéticos, corporais e de feminilidade nessas cenas, apresentando uma espécie de “gongação crítica” construtiva. A terceira abordagem trata das potências da arte drag na afirmação das existências minoritárias. A seguir, detalhamos cada uma dessas linhas temáticas.

Memórias afetivas do transformismo

Antes que a notie acabe Sandro Ka
Suzzy Be, Laurita Leão, Everton Barreto, João Carlos Castanha, Sandro Ka, Cassandra Calabouço, Charlene Voluntaire e Gloria Crystal na exposição “Antes que a noite acabe”. Foto: @ocorre.lab

A primeira linha temática que percorre os textos é a das memórias afetivas do transformismo. Chamamos de “memórias afetiva” porque, na relação com as histórias e experiências de artistas transformistas, estamos construindo vínculos afetivos na produção coletiva de subjetividade. Essas memórias não consistem em um arquivo de dados objetivos; elas residem nos corpos, entre os corpos e são criadas na interação entre artistas de distintas gerações que convivem conjuntamente.

Iniciando o segundo ciclo do Grafia Drag, Sandro Ka nos presenteia com o ensaio “Antes que a noite acabe“, no qual o artista apresenta elementos do processo de composição da exposição que dá nome ao texto. Aqui, o foco está em um grupo de artistas com vasta experiência na cena gaúcha: Rebecca McDonald, Cassandra Calabouço, Gloria Crystal, Dandara Rangel, Charlene Voluntaire, Laurita Leão, Maria Helena Castanha, Lady Cibele e Suzzy Be. Parte dessas artistas também se reuniu na roda de conversa “Rainhas da noite: o transformismo gaúcho”, onde compartilharam suas trajetórias artísticas e memórias.

Rainhas da noite Porto Alegre Grafia Drag
Roda de conversa Rainhas da Noite,
com Glorias Crystal, Fabielly Klimberg, Maria Helena Castanha, Laurita Leão e Everton Barreto.
Foto: Arquivo Grafia Drag

Seguindo nessa linha, no ensaio “Ektor Von Hofmeister através das memórias de sua irmã, Dona Leda“, Jandiro Koch dá continuidade ao seu projeto de resgatar as memórias de artistas transformistas gaúchas, como é o caso de Ektor Von Hofmeister, que não apenas deu vida a Sophia Loren, mas também se destacou como renomado estilista, chegando a se tornar um barão. Mantendo o foco nas memórias, o ensaio “Territórios transformistas de Porto Alegre“, escrito pela professora Luná Maldita, apresenta um mapeamento dos espaços frequentados pelas artistas transformistas da capital gaúcha, como a Workroom, o Vitraux e o Mixx Bar.

Na entrevista “Gloria Crystal: uma conversa sobre o transformismo e o movimento LGBTQIA+“, Douglas Ostruca compartilha trechos de uma conversa realizada com a artista, abordando o processo criativo e a participação de Crystal na política. Em “Gilda: entre memórias curitibanas e arquivos da internet“, o pesquisador Gilmar Montargil direciona a atenção para a cena curitibana, resgatando fragmentos da história de Gilda, uma pessoa em situação de rua que realizava intervenções artísticas na cidade.

Transformismo Gaúcho Grafia Drag
Maria Helena Castanha, Lady Cibele, Cleber Farias, Abigail Foster, Fabielly Klimberg e Laurita Leão. Foto: Douglas Ostruca

Esse conjunto de textos abrange uma riqueza de memórias e experiências no cenário do transformismo e do movimento LGBTQIA+, destacando a importância da preservação e compartilhamento dessas narrativas em nossas comunidades.

Gongação crítica

O desenvolvimento de perspectivas críticas em relação às práticas é uma segunda linha temática que percorre diferentes trabalhos publicados ao longo dos últimos 12 meses. Propomos chamar esse olhar de ‘gongação crítica’, como sugere Judith Butler, no livro Corpos que importam: “‘Ler’ [‘gongar’] significa rebaixar alguém, expondo o que não funcionou no nível da aparência, insultando ou ridicularizando” (2019, p. 222). Em nosso uso, em vez de gongar uma pessoa julgando sua aparência com base em padrões normativos, nós trabalhamos a ‘gongação’ como estratégia para expor a reprodução de mecanismos sociais que reforçam preconceitos, machismos e padronizações estéticas. Assim, configuramos uma ‘gongação crítica’ que pode auxiliar na composição de territórios drag e transformistas abertos às diferenças, atentos para os aparatos sociais normativos em operação nesses contextos.

Candy Grafia Drag
Candy.
Fonte: Arquivo pessoal da artista
Grottesca. Fonte: Arquivo pessoal da artista.

No ensaio “A arte drag queen para além dos padrões de feminilidade“, Grottesca desafia os estereótipos na construção do feminino, afirmando as múltiplas variações que transbordam os modelos estabelecidos. Nesse mesmo contexto, em “Quebrar os padrões, afirmar as diferenças: desafios da arte drag“, Candy critica os padrões corporais reforçados nos meios drag, os quais não apenas expõem os corpos gordos ao julgamento, mas também tendem a reduzi-los à comicidade e a personagens vilãs.

Com o ensaio “Por que tão pouco? A arte drag como um lugar de revolta“, Anubis Blackwood ecoa as preocupações de Grottesca e Candy, expondo a intolerância em relação às mulheres cis nos territórios drag. Diante disso, Blackwood defende a revolta na arte drag como uma forma de quebrar rótulos e normas sociais. Essas questões continuam a ressoar em “Feminilidade disruptiva na arte drag: notas de uma mulher-monstra“. Neste ensaio, Tiffany Plazza considera a montação drag como um espaço de experimentação da feminilidade, incorporando a monstruosidade na composição de uma ‘mulher-monstra’. Já Lady Lazzarus, em “Toda forma de drag? A falta de representatividade AFAB em reality shows brasileiros“, chama a atenção para a invisibilidade, não apenas de mulheres cis no elenco de reality shows drag brasileiros, mas de pessoas designadas como mulheres no nascimento (AFAB) de forma mais abrangente.

Anubis Blackwood Grafia Drag
Anubis Blackwood. Foto: PHJUNIORG
Mia The Witch. Fonte: Arquivo pessoal da artista.

Nos trabalhos mencionados até aqui, encontramos o delineamento de uma questão coletiva sobre a inclusão das mulheres nas cenas drag e dos modelos de feminilidade corporeados nesses contextos. Contribuindo para essa discussão, Gabi Coiradas, em “Drag para todes? O machismo que ainda invisibiliza drag kings“, diagnostica o machismo estrutural como um dos fatores que cria barreiras para mulheres na cena drag. Nesse caso, a artista acrescenta outra camada a essa problematização, indicando que a invisibilidade de drag kings também é resultado do machismo estrutural.

Essa mesma temática ainda é abordada sob uma perspectiva diferente no ensaio “O descarte do estranho: a exclusão da diferença na cultura drag“, onde Mia The Witch argumenta que a reprodução de padrões estéticos de beleza promove a exclusão da diferença nos meios drag. Já no ensaio “Drag feminista? Reflexões acerca dos limites entre a arte e o ativismo“, The Witch apresenta fragmentos de uma pesquisa realizada com mulheres feministas para entender como elas percebem a arte drag. As colaboradoras do estudo identificam nas drag queens a reprodução de estereótipos de vivências femininas, sugerindo que a mistura de códigos de gênero seria mais interessante para uma aliança com os movimentos feministas. Relacionado a isso, na roda de conversa “Além do binário de gênero: drag monstras, drag queers e cosmodrags”, Chromatica, Luná Maldita, Mia The Witch e Tiffany Plazza se reúnem para discutir as montações drag que buscam expressões outras para além das performances binárias de gênero.

Coletivo Kings of the Night
Coletivo Kings of the Night
Foto: Arquivo pessoal
Coletivo Grafia Drag
Rolá de conversa “Além do binário de gênero”, com Chromática, Profª Luná Maldita, Tiffany Plazza e Mia The Witch. Foto: Arquivo Pessoal

No ensaio “Quem tem medo de drag queen? Da subversão ambivalente de gênero às potencialidades do fantasiar“, Luná Maldita busca respostas para os ataques de grupos conservadores às drag queens. A professora recorre à Judith Butler para apresentar a fantasia como uma maneira de intervir na construção da realidade. Essas questões também são abordadas no primeiro episódio de podcast do Grafia, “Caça às drags: censuradas no espaço público“, que reuniu Juana Profunda, Tiffany Plazza e Luná Maldita para discutir o projeto de lei HB9, o qual propunha a proibição de números de drag queens e drag kings em espaços públicos no estado de Tennessee, EUA.

Finalmente, ainda dentro do contexto de ensaios com provocação crítica, o ensaio “Para hétero ver: arte e cultura LGBTQIA+ para além da bolha“, de Lady Lazzarus, destaca a importância de artistas drag e transformistas alcançarem públicos heterossexuais, indo além dos espaços restritos aos grupos LGBTQIA+.

Drag Night Show Lady Lazzarus
Espetáculo DRAG NIGHT SHOW, escrito, dirigido e produzido por Lady Lazzarus desde 2017.
Foto: Andressa Magalhães

Nesse contexto, em conjunto os ensaios demonstram que a cultura drag é uma plataforma vital de discussão, questionamento e expressão, com contribuições para diálogos e olhares críticos em relação aos padrões gênero e normas reguladoras dos corpos. Através da iluminação de tais questões, essas análises contribuem para construção de uma arte drag atenta para a reprodução de mecanismos sociais geradores de exclusão e preconceito. 

Potências da arte drag

A terceira linha temática que perpassa os ensaios do Grafia é a afirmação das potências da arte drag. Nesse caso, a artista Ruby Catuaba, no texto “Drag: expressão artística transformadora“, afirma que suas experiências como drag queen e drag king geram transformações em suas vivências pessoais, trazendo-lhe forças para afirmar caminhos que confrontam os padrões cis-heteronormativos. Ao abordar a relação entre o performer e a personagem, Paco Leal, no texto “Performance drag e identidade“, sugere que existe uma tensão decorrente da relação dialética aí estabelecida, a qual pode impulsionar mudanças. Já Tiffany Plazza, em “Para sair da zona de conforto: uma boa competição“, localiza as competições drag como oportunidades para desenvolver habilidades e aprimorar a montação.

Copa do mundo das drags  Workroom
Scarlet Bloom, Myah Michelle, Tiffany Plazza e Ptera Dactyla no concuros “Copa do mundo das drags” da Workroom. Foto: Carla Menna Barreto

Para a artista e pesquisadora Kam Middle Space, uma das potências da arte drag é a inserção em diferentes espaços. Assim, no ensaio “Jaleco e batom: uma jornada de drag, ciência, saúde e autodescoberta“, Space coloca as intervenções nos âmbitos acadêmicos como forma de intensificar as discussões sobre as lutas LGBTQIPN+ nas universidades. Paralelamente a isso, no segundo episódio do podcast Grafia Drag, intitulado “As drags no orgulho e na luta LGBTQUIAPN+“, Mia The Witch, Ptera Dactyla e Professora Luná Maldita se reúnem para discutir as articulações entre a arte drag e as lutas LGBTQUIAPN+, sugerindo que, além de estarem na linha de frente na revolta de Stonewall, as drags atuam como comunicadoras capazes de se expressar em público, superando inseguranças pessoais.

Kam Middle Space. Foto: Arquivo pessoal da artista.
Esmeralda Dip. Foto: Humberto Araújo.

No conjunto dessas contribuições, emergem narrativas que destacam as potências da arte drag na transformação pessoal, nas identidades e nas esferas sociais. Através dessas perspectivas vemos que a arte drag abre caminhos de autoconhecimento e autoafirmação na sociedade, criando condições para desafiar as normas preestabelecidas que reduzem nossas capacidades de agir. 

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Nesse mapeamento do material produzido pelo coletivo Grafia Drag nos últimos 12 meses, identificamos três linhas temáticas que perpassam diversos textos: as memórias afetivas da cena, a gongação crítica e as potências da arte drag. Embora cada linha tenha sido associada a um conjunto específico de textos, elas não se apresentam como demarcações rígidas, uma vez que frequentemente se entrelaçam no corpo dos ensaios. Portanto, alguns ensaios podem abordar duas ou até mesmo as três linhas de maneira simultânea. Para o futuro, desejamos agregar pessoas de todo o Brasil ao coletivo e investir na criação de projetos para ampliar o alcance dos saberes provindos das montações.

Referências

BUTLER, Judith. Corpos que importam: os limites discursivos do “sexo”. São Paulo: n-1 edições, 2019.

Como citar este texto

MALDITA, Luná. Grafia Drag, 2° ano: memórias afetivas, gongação crítica e as potências da arte drag. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <grafia-drag-2-ano-memorias-afetivas-gongacao-critica-e-as-potencias-da-arte-drag>. Acesso em: 23. Out. 2023.

‘Toda forma de drag?’  A falta de representatividade AFAB* em reality shows brasileiros

Lady Lazzarus

*AFAB: Assigned Female at Birth – diz-se das pessoas “designadas mulheres ao nascer”. Pode identificar mulheres cisgênero, pessoas trans não binárias transmasculinas, transmasculines em geral e homens trans.

Toda forma de drag? Nia Cardalos e Toni Colette
As atrizes Nia Vardalos e Toni Colette interpretam Connie e Carla no filme homônimo. Elas são as drag queens mais bem sucedidas de Los Angeles. Ninguém sabia que elas eram mulheres cisgênero.
Foto: Divulgação

O Brasil vive a febre dos reality shows drag. Influenciado por RuPaul’s Drag Race, muitos produtores brasileiros estão trazendo à TV competições similares, envolvendo desafios, criação e desenvolvimento de persona drag e, agora, com o CARAVANA DAS DRAGS, até o enaltecimento da cultura nacional e regional. Mas será que os profissionais de casting estão recrutando artistas na sua pluralidade – e isso inclui representatividade de gênero – ou seguem reproduzindo preconceitos que a própria atração criada por RuPaul Charles admitiu ter por muitos anos, que é a de não incluir AFABs em seu programa?

O primeiro AFAB a participar da franquia RuPaul’s Drag Race foi Gottmik, homem trans de 26 anos, que já atuava como drag queen antes da transição social e corporal. Gottmik integrou o elenco da 13ª temporada do programa em 2021. Foram necessários quase treze anos para que a produção aceitasse que uma pessoa AFAB pudesse competir entre homens cisgênero e pessoas AMAB (Assigned Male at Birth – designadas homens ao nascer – no caso de mulheres trans e travestis). Nos spin-offs do reality em outros países, Victoria Scone foi a primeira mulher cisgênero a integrar o elenco do Rupaul’s Drag Race UK (2021), voltando posteriormente para o Canada’s Drag Race: Canada vs. the World, em 2022. Agora, o Drag Race España anunciou em seu elenco a drag queen Clover Bish, outra mulher cisgênero, que competirá na terceira temporada da atração no país. 

RuPauls Drag Race Gottmik AFAB
Gottmik, o primeiro AFAB (homem trans) a participar do reality RuPaul’s Drag Race.
Foto: Youtube

Foram 196 participantes até a 14ª temporada do reality show, mas apenas um desses era uma pessoa AFAB – isso falando apenas da franquia estadunidense. Admitindo que RuPaul’s Drag Race não só tem influenciado a comunidade de transformistas e drag queens (e até de drag kings) do mundo todo e que, de alguma forma, dita os “padrões” que a arte segue, é possível imaginar como devem ficar frustrados os perfomers AFAB que, todos os anos, são completamente ignorados por esse fenômeno, chegando a ter suas práticas artísticas invalidadas e conseguindo muito menos trabalho – ou quase nenhum – do que as pessoas AMAB dessa história. 

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Agora, vamos falar da NOSSA realidade: o Brasil. Nosso país tem uma história incrível com o transformismo/arte drag, considerada aqui uma manifestação artística muito respeitada até mesmo em períodos conturbados como a Ditadura Militar e o governo Bolsonaro. A drag queen brasileira Pabllo Vittar é, atualmente, a representante desta arte mais seguida no mundo no Instagram (12 milhões de seguidores). Pabllo rompeu barreiras ao fazer música com produtores e artistas estrangeiros e estabeleceu até mesmo uma nova identidade para drag queens brasileiras. Antes dela, obviamente, temos as nossas incríveis veteranas, as “Divinas Divas”, em sua maioria mulheres trans, que construíram carreiras sólidas e referenciadas aqui e no continente europeu, e serviram por muitos anos de referência não só para outras artistas drag/transformistas, mas para atrizes, performers e cantoras nacionais. A arte transformista brasileira ganhou palco em programas de TV, cinema e até novelas muito antes do fenômeno de RuPaul’s Drag Race chegar às telas nos Estados Unidos. Após a popularização do reality estadunidense por aqui, o primeiro programa brasileiro de TV com drag queens foi o DRAG ME AS A QUEEN, de 2017, no canal E!, que era  uma réplica nacional do DRAG U, criado por RuPaul Charles. A atração era capitaneada por Ikaro Kadoshi, Penelope Jean e Rita Von Hunty e proporcionava uma experiência de montação para mulheres cisgênero. As três drag queens ajudavam as mulheres no processo de investigação e criação da persona drag delas e as montavam por um dia. Ou seja: por UM DIA as mulheres poderiam “ser drag queens”. Um dos talentos que avançou do programa para as baladas, festas e eventos foi a drag queen Morana Evermore, até hoje uma artista bastante requisitada no estado e na cidade de São Paulo.

Toda forma de drag? Morana Evermore
Morana Evermore, drag queen de São Paulo, “nascida” no programa DRAG ME AS A QUEEN.
Foto: Divulgação

Este formato de programa, tanto o de RuPaul como o brasileiro, se analisado com cuidado, não se tratava de uma experiência drag genuína para mulheres (ou pessoas AFAB). Como por muito tempo o mito de que pessoas AFAB não poderiam atuar como drag queens/transformistas foi muito forte, parecia pertinente oferecer a elas essa vivência através das mãos de “drag queens de verdade” – pois também por muito tempo a grande maioria das mulheres, dentro e fora do Brasil, eram denominadas como “falsas queens” (faux queen). Se drag é uma arte como qualquer outra, mas também é uma forma de hackear e brincar com gênero, por que ela não pode ser explorada totalmente por certos grupos de pessoas? Por que é necessário que um homem cisgênero que atua como drag queen “monte” uma pessoa AFAB para que ela se sinta validada artisticamente? É como se disséssemos a uma criança que ela pode “ser o que quiser quando crescer”, desde que ela respeite certas “condições”. Por um dia, podemos sonhar com a maquiagem exagerada, o brilho das roupas e os grandes palcos. Para fazer disso profissão, talvez não. 

Em novembro de 2020 estreou na Netflix um segundo programa dedicado às drag queens, que lembrava um pouco o formato do DRAG ME AS A QUEEN. NASCE UMA RAINHA, apresentado por Alexia Twister e Gloria Groove, contou com seis episódios e em cada um deles uma pessoa seria “transformada” numa persona drag idealizada por si mesma e que teria por mentora/madrinha um outro artista brasileiro(a). Neste programa pudemos ver a presença de dois AFABs. No terceiro episódio “nasce” o drag king Carlão Sensação, persona drag de Caju Bernardes – que inclusive trouxe uma discussão muito pertinente acerca da arte drag king nas mídias e nas redes sociais – e Ginger Moon, drag queen e artista burlesca que atua como mentora num dos episódios. Ginger Moon é mulher cisgênero e integrante de um movimento pioneiro de AFABs em São Paulo, o Riot Queens. Até então, NASCE UMA RAINHA foi o primeiro e único programa de drag queens brasileiras a colocar dois AFABs na TV. Apesar de ter seu formato elogiado e contar com o carisma de Gloria Groove, uma das cantoras drag mais famosas do país, a atração não foi renovada para uma segunda temporada. 

Carlão Sensação Toda forma de drag?
Carlão Sensação, um dos pouquíssimos AFABs num reality brasileiro (NASCE UMA RAINHA).
Foto: Divulgação

Depois de NASCE UMA RAINHA, veio o reality para drag queens cantoras, produzido pela HBOMAX, o QUEEN STARS BRASIL, em 2022. O QUEEN STARS BRASIL foi a primeira produção televisiva de competição entre drag queens que mais se aproximou do formato de uma atração da franquia RuPaul’s Drag Race. Antes disso houve a ACADEMIA DE DRAGS, que contou com três edições transmitidas via Youtube, e vários outros concursos online e shows de talentos variados feitos pelos mais diversos produtores, e que tiveram como plataforma o Youtube e o Instagram.

O QUEEN STARS BRASIL, apresentado por Pabllo Vittar e pela cantora Luisa Sonza, contou com 20 participantes de vários lugares do Brasil. Não havia nenhum AFAB no elenco do reality. Focado em canto, as drag queens competiram em desafios diversos por um prêmio de R$ 100 mil reais, sendo que as três finalistas formariam um trio “drag” de cantoras com direito a um contrato para produzir música com a Universal Music.  Diante de toda a diversidade de performers que temos no Brasil, as equipes de casting não foram capazes de colocar no elenco uma pessoa AFAB sequer. O reality também sofreu críticas com relação às outras representatividades: havia poucas pessoas negras, gordas e poucas pessoas trans (AMABs, no caso). Apenas uma participante se declarou abertamente trans não binária (Ashilleyy Extravaganzza), levando em consideração o período em que a atração foi transmitida. O público também criticou o formato do programa, que eliminou várias drag queens em dois episódios, não dando assim chance para que o público conhecesse o trabalho de cada uma delas. 

No dia 14 de abril deste ano estreou no streaming do Prime Video a competição intitulada CARAVANA DAS DRAGS. Produção de Tatiana Issa e tendo como apresentadores Ikaro Kadoshi e Xuxa Meneghel, a atração já sofreu críticas e backlash antes mesmo da estreia, considerando o background de Xuxa e controvérsias de sua carreira no passado. O programa foi anunciado ainda em 2022 e como toda produção do gênero, não se soube muito sobre o processo de seleção de artistas para compor o elenco. Quando do anúncio da estreia, soubemos apenas que haveria 10 participantes e entre elas, nenhuma pessoa AFAB. 

Até aqui podemos ver que, à frente de RuPaul’s Drag Race, as produções que envolveram talentos drag brasileiros nos últimos dez anos trouxeram à TV mulheres trans, travestis e pessoas trans não binárias AMAB, mas apenas uma produção trouxe dois AFAB (um na condição de participante e outra na condição de mentora). São cerca de trinta e quatro participantes AMAB (94,4%) para apenas dois participantes AFAB (5,6%). Isso seria quase 1 participante AFAB para cada 20 AMAB. 

Clover Bish RuPauls Drag Race Espanha
Clover Bish, participante da terceira temporada do Drag Race Espanha, é a segunda mulher cisgênero a competir no programa, mas fora da franquia principal.
Foto: Divulgação

Ainda este ano foi confirmada a gravação do spin-off brasileiro de RuPaul’s Drag Race. O processo de casting se deu ano passado. O vídeo de audição pedia fotos e gravação de vídeos com os figurinos das possíveis participantes, um número de dublagem do repertório da artista, um número de dublagem de uma música de RuPaul Charles e a gravação de dois personagens para o quadro Snatch Game, um desafio clássico do programa. Foram muitas as drag queens de todo o Brasil que se inscreveram para participar, e sem dúvida deveriam haver muitas mulheres cisgênero e pessoas transmasculinas, mesmo que essas últimas ainda tenham pouco destaque atuando neste segmento. 

O elenco rumorado em redes sociais como o Twitter e plataformas como o Reddit confirma o padrão Endemol Shine de participantes: algumas pessoas negras, um número menor de asiáticas e uma maioria de pessoas brancas. Não há AFABs entre os possíveis competidores. O DRAG RACE BRASIL vai ser um divisor de águas no que tange à arte drag/transformista na América Latina. Mesmo com todo o sucesso que as produções nacionais possam gozar, a produção estadunidense é hipervalorizada entre artistas e produtores, que inclusive preferem empregar pessoas que se moldaram no padrão “Drag Race” de se fazer arte. Nos Estados Unidos as ex-participantes do programa são chamadas de “Ru Girls”. Agora, o Brasil terá seu primeiro time de Ru Girls, que não duvido que serão extremamente requisitadas em eventos posteriores à sua participação no programa, mas que, mais uma vez, não carregará nenhuma representatividade para AFABs e para mulheres e pessoas transmasculinas que gostam e consomem conteúdo do programa. 

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Que mensagem o mundo do showbusiness passa às muitas mulheres cisgênero e aos homens trans e pessoas transmasculinas que atuam como drag queens? De que a arte que fazem não é válida. Não para eles. Que não é apropriada para consumo de massa. Que seus corpos não são interessantes para a TV. O machismo e a misoginia são maiores que o olhar para a arte pela arte. Mulheres e pessoas trans estão entre os grupos de pessoas dissidentes que mais morrem todos os dias em todo o mundo, além de sofrerem grande abusos, preconceitos e, em alguns lugares, sequer são considerados seres autônomos. 

Se pensarmos como a proposta do movimento negro intitulado “Não me vejo, não compro”, que criou força em 2017 e serviu para mostrar aos consumidores negros o quanto muitos produtos e serviços oferecidos no mercado não pensavam neles – e não os retratavam em propagandas também – nós, pessoas AFAB, não deveríamos consumir nenhum desses programas de TV, uma vez que nossos corpos não fazem parte de sua história e de sua proposta como atração. 

RuPaul’s Drag Race, responsável pela disseminação da arte drag para o mainstream, está tentando corrigir os seus erros, mas ainda assim o número de participantes AFAB do programa está muito abaixo do que seria uma cota justa para o tanto de artistas que temos atuando pelo mundo afora. O Brasil tenta escrever uma história diferente, mas não vai longe: tendo a maior drag queen cantora da atualidade, traz um reality para drag queens cantoras, mas onde AFABs não são recrutados, traz um outro reality sobre cultura nacional e regional, que mais uma vez, não tem artistas AFAB contando suas histórias e mostrando suas abordagens e estéticas para a arte drag. DRAG RACE BRASIL não será diferente, e com isso vamos apagando e silenciando vozes dentro da comunidade LGBT que podem e devem ser amplificadas, justamente para contrapor os erros do passado. 

E se pensarmos no apagamento de drag queens criadas por mulheres e pessoas transmasculinas, o que diríamos acerca dos drag kings? Sequer lembrados por quase todas as produções, seguem ainda mais à margem, sem maiores oportunidades. O reality show The Boulet Brothers Dragula, que prioriza os/as drag monsters, premiou como soberano representante do programa um drag king, na sua segunda edição, em 2019. A notícia de que Landon Cider, persona drag de Kristine Bellaluna, venceu uma competição do gênero revolucionou o mundo dos drag kings nos Estados Unidos e na Europa, mas seu efeito não chegou a provocar uma onda de montação king significativa no Brasil, por exemplo. 

A arte dos drag kings, cuja história remonta oficialmente há mais ou menos 250-300 anos atrás, é uma arte que partiu de pessoas AFAB – mulheres cisgênero e homens trans, essencialmente. Muito se dizia e se diz que “mulheres não poderiam ser drag”, quando não só poderiam como já eram há muito tempo. Estudos realizados pelo drag king Mo B. Dick, do DRAG KING HISTORY, diz ter encontrado registros de artistas de male impersonation dos anos 1660. Como não temos certeza exata de como surgiu a arte das drag queens, podemos dizer que kings existem há tanto tempo quanto elas. Logo, pessoas AFAB estão há muito pavimentando a estrada da arte da montação, e deveriam ser tão respeitadas quanto pessoas AMAB por isso.

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Mas, voltando à nossa reflexão acerca de drag queens, uma última provocação: e se ocultássemos ou apagássemos o gênero de todas as pessoas que conhecemos e que atuam como drag queens? Será que muitas das nossas referências mais caras não seriam pessoas AFAB?

No Brasil, sob o posto de drag queens “honorárias” – pessoas que não se intitularam drag queens, mas usam estética similar – temos várias mulheres cisgênero, que inclusive pautam a estética de vários de nossos artistas favoritos. Elke Maravilha e Maria Alcina são alguns desses exemplos. Ao redor do mundo, divas pop como Lady Gaga e Katy Perry são constantemente comparadas a drag queens devido aos suntuosos visuais com os quais se apresentam em concertos e turnês. Zaldy, estilista de alta moda que veste RuPaul já criou vários figurinos para Katy Perry, por exemplo. O que separaria Katy Perry de RuPaul ou até mesmo Lady Gaga de RuPaul, que já foi jurada do programa nos Estados Unidos? O exagero no visual e o talento estão ali, em todos esses artistas. O que definiria definitivamente a estética drag queen? 

Maria Alcina  Toda forma de drag?
A cantora brasileira Maria Alcina sempre teve sua estética muito próxima das drag queens. Tanto ela como Elke Maravilha são exemplos de drag queens brasileiras “honorárias”.
Foto: Reprodução

Por fim, trago uma sugestão de filme para levar essa reflexão ainda mais à fundo. O longa metragem “Connie & Carla”, de 2004, traz as atrizes Toni Colette e Nia Vardalos como duas atrizes que precisam fugir de Chicago depois que testemunham um crime cometido pela máfia. Uma vez em Los Angeles, elas conseguem fazer uma audição para uma boate onde atuam drag queens – “disfarçadas” de drag queens – ou seja, fingindo serem homens caracterizados como artistas drag queens. Como ambas cantam e dançam, acabam se tornando a maior atração local, fazendo com que o público faça filas para vê-las fazerem seus números musicais. Sob os nomes de Connie e Carla ambas se tornam as drag queens mais bem sucedidas do momento – e não há quem conteste seus talentos, pois ninguém sabe que elas são… mulheres. 

Se o binarismo de gênero, o machismo e a misoginia não viessem à frente da arte não precisaríamos em nenhum momento ler num briefing de casting a famigerada frase: “Precisamos de homens que se vestem como mulheres (drag queens) para compor o cast de um trabalho para a rede social x” – como já li certa vez ao pensar em me candidatar. Uma drag queen não é um homem vestido de mulher. Um homem vestido de mulher não é uma drag queen. O que é vestir-se “de mulher” em dias como os nossos, onde os estudos da Teoria Queer nos dizem que o gênero é uma construção social? 

E se simplesmente recrutássemos artistas para um reality show que mostrasse seus talentos, ignorando completamente o gênero pelo qual a pessoa se identifica? Ou se, para começar, definíssemos que passaríamos a consumir um produto audiovisual a partir do momento que ele incluísse pessoas de todos os gêneros em seu elenco? James Baldwin, escritor e ativista estadunidense, nos disse: “Artistas existem para perturbar a paz. Eles precisam perturbar a paz.” Hoje, perturbo a sua paz e pergunto: artistas AFAB estão vivendo como artistas de fato no mundo da arte drag/transformista ou apenas passando por uma breve experiência comandada por um grupo de homens cisgênero majoritariamente brancos? A nós será dado apenas “um dia de drag” ou teremos no futuro espaço suficiente para competir e mostrar que somos tão bons ou até melhores do que essa hegemonia?

Referências

DOONAN, Simon. DRAG: The complete story. Amazon. 2019.

https://dragkinghistory.com

https://www.imdb.com/title/tt1353056

https://www.imdb.com/title/tt1584942

https://www.vogue.com/article/gottmik-rupauls-drag-race-fashion-star

https://www.huffingtonpost.co.uk/entry/rupauls-drag-race-victoria-scone-first-cisgender-woman_uk_61236e98e4b0e8ac791fc17b

https://www.imdb.com/title/tt7667398

https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2017/11/20/drag-mulher-e-tabu-depois-de-reality-ela-virou-drag-queen-profissional.htm

https://www.legiaodosherois.com.br/2022/queen-stars-brasil-pabllo-vittar-luisa-sonza-entrevista.html

https://www.imdb.com/title/tt19063056

https://web.archive.org/web/20150708210227/http://revistalofficiel.com.br/academia-de-drags-estreia-no-youtube/#

https://www.netflix.com/br/title/81140803

https://www.estadao.com.br/emais/tv/netflix-divulga-trailer-de-nasce-uma-rainha-com-gloria-groove

https://www.estadao.com.br/emais/tv/prime-video-divulga-primeiras-imagens-do-reality-caravana-das-drags-veja

https://m.imdb.com/title/tt22003244

https://mundonegro.inf.br/carreira-negocios/nao-me-vejo-nao-compro-plataforma-quer-mostrar-o-poder-do-consumidor-negro

https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-11/black-money-movimento-favorece-negocios-de-pessoas-negras

https://www.themarysue.com/dragula-landon-cider-drag-king-winner

https://www.imdb.com/title/tt0345074

https://www.elespanol.com/bluper/20230320/drag-race-espana-confirma-participante-clover-bish/749925030_0.html

Como citar este texto

LAZZARUS, Lady. Toda forma de drag?” A falta de representatividade AFAB* em reality shows brasileiros. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/toda-forma-de-drag/>. Acesso em: 24. Abr. 2023.

Lady Lazzarus é transformista. Dirige e produz o espetáculo Drag Night Show, além de realizar festivais, shows de talentos, concursos e oficinas tendo a arte transformista como protagonista. É cantora, fotógrafa, pesquisadora, preparadora de elenco e palestrante. Iniciou sua carreira na montação em 2001. Divide o corpo da artista LGBT Viviane de Paoli com o drag king Lorde Lazzarus, que criou o primeiro concurso de drag kings do Brasil, o Concurso King of Kings. Também realiza pesquisa sobre o transformismo latino americano e, em específico, sobre o transformismo drag king.

“Para hétero ver”: Arte e Cultura LGBT para fora da bolha

Lady Lazzarus

“Eles dizem dominar a periferia. Nós dizemos ‘mestiçar’ o centro.”

Paul B. Preciado

Inicio a provocação da vez com esta frase de Paul B. Preciado, filósofo transgênero contemporâneo, ou como ele mesmo gosta de dizer, filósofo dissidente, para convidar a todas as pessoas, sejam elas da comunidade LGBT ou não, a uma reflexão: até onde o discurso de militância feito de um grupo para este mesmo grupo é válido?

Vídeo: Gabriel Fidelis apresentar a performance “I want a dyke for president”, poema de Zoe Leonard, no espetáculo DRAG NIGHT SHOW, em 2018. https://youtu.be/sPfOXSznVDY

Quando falamos em arte e cultura LGBT, falamos em arte politizada, ativista, mesmo quando o propósito desses/as artistas é o entretenimento. Como corpos dissidentes e marginalizados, por muito tempo patologizados e proibidos de existirem dentro de uma sociedade majoritariamente branca, aristocrata, burguesa, capitalista e cisnormativa, toda e qualquer manifestação que nasce dentro da comunidade LGBT é revolucionária. Se voltarmos o nosso olhar para a arte transformista/drag, veremos então quão numerosas são essas manifestações, e como ativistas das mais variadas causas se utilizam do palco da arte do transformismo/arte drag para que suas pautas sejam vistas, avaliadas, para que se faça pensar, analisar, para angariar adeptos/as/es e, daí por diante, que passem a tomar corpo e finalmente chegarem a lugares como o parlamento, onde esse discurso vai ocupar o espaço de lei, de direito, de obrigação.

Como pessoa que também atua na produção cultural de eventos, quando faço um convite a qualquer performer LGBT e comunico que nosso espetáculo, festival ou concurso é aberto a todos os públicos, incluindo pessoas heterossexuais, vejo sempre duas reações que considero interessantes. A primeira delas é a insegurança que se instaura na pessoa, como se fazer qualquer coisa fora dos (poucos) lugares seguros conquistados pelo público LGBT fosse muitíssimo ameaçador. Ficam preocupados/as/es com a integridade de seus corpos e como isso será visto e interpretado por pessoas sexualmente diferentes. A segunda reação é a de promover algum tipo de choque cultural e fazer algo que insulte ou mostre a essas pessoas que elas são, de alguma forma, pertencentes a uma classe de algozes e agressores, e diante dessa motivação nascem muitos manifestos até bastante criativos, válidos e realmente transgressores.

Mas, pensemos juntos: não seria a arte uma poderosa ferramenta a favor da educação? Se sim, por que temer educar através dela aquelas pessoas que estão em outra categoria social mais privilegiada que a nossa? Por que não usar a nossa arte e a nossa cultura para construir pontes e conquistar aliados entre essas pessoas?

Arte e Cultura LGBT Lady Lazzarus
Foto: Espetáculo DRAG NIGHT SHOW, escrito, dirigido e produzido por Lady Lazzarus desde 2017. Teatro Municipal de Itajaí, 2018. Créditos: Andressa Magalhães

Como pessoa transgênero e como transformista, não vejo forma mais eficaz, potente e viável de mostrar ao universo heterossexual que somos seres humanos como eles, passíveis dos mesmos direitos, capazes de ocupar os mesmos lugares, constituir família, empreender, lutar e construir um mundo melhor e mais humano. Apresentar uma narrativa de militância dentro de uma “bolha” social é relativamente fácil. Tentar conversar com quem está fora dela é um desafio grande e totalmente capaz de ser feito por nós.

Para mim, quando estamos dentro do grupo das pessoas dissidentes, das pessoas que pertencem às minorias sociais (e que na verdade nem se tratam de minorias), reproduzir certos discursos através da arte é quase nulo. Falar de assassinato de corpos dissidentes para corpos dissidentes é algo válido? Talvez seja, se falarmos a um grupo de pessoas cisgênero sobre a morte das pessoas transgênero. Mas será que a pauta transgênero precisa ser sempre a morte? Não podemos falar de conquistas acadêmicas, de parentalidades trans, de uniões afetivas bem sucedidas, de negócios e até de arte que quebram as barreiras sociais e de gênero? Se tratarmos do discurso de racismo que sofrem as pessoas negras, indígenas, asiáticas e demais povos não brancos a povos não brancos estaremos de fato provocando alguém? Ensinando alguém? Mostrando o quanto isso ainda afeta a qualidade de vida dessas pessoas e até mesmo a expectativa de vida delas? Agora, se pegarmos essa mesma teatralidade, essa mesma encenação visual, esse mesmo discurso envolvido em arte e colocá-lo diante de um grupo de pessoas brancas? É amedrontador? É desafiador? Certamente que sim, mas como pessoa que interpreta o incômodo como reação válida a um número artístico, a uma performance, a um ato artístico, estaremos invertendo a máxima de que “a vida imita a arte” ao mostrar que “a arte imita a vida”, e que tudo que é mostrado num palco ou espaço cultural é um microcosmo de um macrocosmo, onde a realidade precisa mudar para que tenhamos um mundo mais próximo da equidade e onde uma pessoa não precisa lutar por toda uma existência para simplesmente manter-se viva.

Quando reflito sobre a frase de Preciado que citei no início deste texto, penso no seguinte: muito se fala em políticas públicas para levar “a arte e a cultura para as periferias”, para que pessoas que “geralmente não têm acesso a esses recursos possa então gozar deles”. Me parece, às vezes, que o governo nada inclusivo que temos em todos os estados da federação não considera que exista arte e cultura nas periferias. Como se pessoas pobres e desfavorecidas de recursos monetários por conta da sociedade capitalista não sejam capazes de produzir e criar arte, que o que têm em suas comunidades e vilas não seja cultura, mas qualquer outra coisa diferente disso. Nem sempre isso me parece bem intencionado, pois soa como um processo de catequização. Por que não deixar que a cultura dos periféricos invada os grandes centros de arte? Por que a comunidade não pode ocupar os teatros municipais com os seus manifestos, canções, danças e linguagens diversas? Por que não promover uma ocupação total desses espaços por pessoas dissidentes?

Através dessa reflexão, volto para o fazer artístico “para o heterossexual ver”. TODO E QUALQUER EVENTO LGBT DEVERIA SER EXIBIDO A UM PÚBLICO HETEROSSEXUAL, pelo menos uma única vez. Nossas vozes e corpos precisam estar diante dessas pessoas, e nossas pautas e agruras precisam ser ouvidas por elas. Não podemos ficar para sempre no conforto dos nossos redutos, das casas noturnas, das boates e bares dedicados a nós ou conquistados por nós. Falar de opressão para o nosso grupo de pessoas é mais do mesmo. A criança LGBT já cresce sabendo muito bem o que é ser oprimida, rejeitada, humilhada, censurada, castrada, banida – assim como sabe como criar espaços de acolhimento e alento pessoal entre os seus. Já sabemos se aqueles que estão na mesma embarcação que nós vão vibrar ou chorar diante do que temos a dizer com a nossa arte. Resta saber: que reação teriam aqueles que podem ter mais liberdade que nós? Aqueles que podem simplesmente preencher um formulário e pagar uma taxa para se casar, aqueles cujo nome e corpo são aceitos em todos os lugares para o trabalho, aqueles cuja família nunca questionou a honra e a possibilidade de sucesso.

Já apresentei meu espetáculo, o DRAG NIGHT SHOW, com elenco composto apenas por pessoas LGBT e com enfoque na arte transformista em vários teatros, muitos deles equipamentos públicos, com plateias lotadas de pessoas de todas as idades, gênero e classe social. Vimos todo o tipo de reação possível: de risos a lágrimas, de excitação a êxtase, de surpresa a comoção, de olhos que se fecham e reviram a olhos que se apaixonam. Não me recordo de nenhuma vez que alguém tenha se levantado e deixado a plateia ao falarmos que queríamos uma presidente sapatão, onde um viado é estrela do palco, onde uma mulher trans é a maior diva da noite e, quando erguemos nossas bandeiras coloridas dizendo que não vamos deixar de ocupar este lugar que também é nosso, de recebermos vaias e negativas daqueles que são diferentes de nós. Ao fim do espetáculo, forma-se uma fila imensa de pessoas emocionadas, cativadas por nós, que quer tirar fotos, pedir um abraço e contar como se emocionou e se divertiu naquela noite, que talvez não esperava ver o que viu, mas que viu muito mais do que imaginava ver e que quer repetir essa dose mais e mais vezes.

Arte e Cultura LGBT Lady Lazzarus
Foto: Espetáculo DRAG NIGHT SHOW, escrito, dirigido e produzido por Lady Lazzarus desde 2017. Teatro Municipal Bruno Nitz, Bal. Camboriú, 2018. Créditos: Andressa Magalhães

Nos últimos vinte anos vemos um “encaretamento” da cultura e todo um grupo de artistas cada vez mais restrito às noites, aos clubes e bares específicos para eles, deixando de se fazerem presentes em lugares onde poderiam fazer muito mais que a diferença. Agora, após o resultado revolucionário das eleições de outubro de 2022, temos uma nova chance de sair desses lugares à guisa de armário para onde nos empurraram e colocar as nossas vozes em coro pela nossa liberdade de expressão de fato. Não nos contentarmos somente com as cotas designadas a nós em editais culturais, sejam eles à comunidade LGBT ou à periferia. Precisamos nos levantar e OCUPAR OS CENTROS. Ocupar espaços da branquitude, da heterossexualidade, da cisnorma. Precisamos apresentar o transfeminismo e reapresentar o feminismo negro ao feminismo branco heterossexual. Precisamos mostrar que podemos constituir famílias e ser pais, mães e avós e não somente os tios e tias queer, aqueles considerados estéreis pela família cisheteronormativa. Precisamos exibir nossos corpos com ou sem intervenções cirúrgicas, pois também precisamos nos sentirmos bem conosco. Isso não é para ser um privilégio estético, mas uma forma de estar melhor consigo. Precisamos romper de uma vez com a norma, OCUPANDO o lugar dela e dizendo: este é o nosso lugar também.

O lugar da heterossexualidade é também o nosso. Ele nos foi retirado pelos dogmas religiosos, pelas normas e práticas médicas que também são preconceituosas e pelo processo de organização social pautado nos dois primeiros. Ser visto pela heterossexualidade é um ato necessário. Precisamos mostrar nossa língua a este povo, nossa cultura, nossos hábitos, nossos anseios e nossas agruras. Precisamos receber seus aplausos, precisamos que entendam que ocupam um lugar de favorecimento e que se querem ser nossos aliados e aliadas nessa luta constante para gozarmos de direitos que também nos são essenciais, essas pessoas precisam aprender conosco. Não podemos temer a potência dessa intervenção e a licença enorme que a arte nos dá para isso.

Enquanto não temos pelo menos 50% dos nossos no parlamento para legislar em nosso favor, precisamos de aliados e aliadas que o façam. Precisamos que nossos representantes sintam total empatia por nossas causas e se sintam movidos por elas.

Logo, sim, eu faço arte para que todas as pessoas vejam. Eu quero que minha arte seja vista por crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Eu quero que minha arte seja vista por pessoas de todo o gênero, de toda raça e etnia. Eu quero que pessoas religiosas vejam a minha arte e revejam suas crenças. Eu quero atingir pessoas que precisam ser atingidas pela minha arte. Quero falar para quem usualmente poderia não querer me ouvir. Só a minha comunidade não me basta. Não que não tenhamos problemas que precisam ser resolvidos, mas alcançar o poder é mais importante neste momento. E para chegarmos ao poder precisamos de todos os aliados possíveis para enfrentarmos a batalha. Cada vez mais fortes, numerosos e persistentes.

Referências

PRECIADO. Paul B. Um apartamento em Urano: Crônicas da Travessia. São Paulo: Zahar, 2019. p. 44.

Como citar este texto

LAZZARUS, Lady. “Para hétero ver”: Arte e Cultura LGBT para fora da bolha. 2022. Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/arte-e-cultura-lgbt-para-fora-da-bolha/ . Acesso em: 21. Dez. 2022.

Lady Lazzarus é transformista. Dirige e produz o espetáculo Drag Night Show, além de realizar festivais, shows de talentos, concursos e oficinas tendo a arte transformista como protagonista. É cantora, fotógrafa, pesquisadora, preparadora de elenco e palestrante. Iniciou sua carreira na montação em 2001. Divide o corpo da artista LGBT Viviane de Paoli com o drag king Lorde Lazzarus, que criou o primeiro concurso (oficializado) de drag kings do Brasil, o King of Kings, que corou seu primeiro representante do transformismo drag king brasileiro em 2021 (Rud Fiamino). Também realiza pesquisa sobre o transformismo latino americano e, em específico, sobre o transformismo drag king.

Número artístico e performance: tem alguma diferença?

Lady Lazzarus

Atualmente vemos drag queens e transformistas ocuparem os mais diversos lugares: nós as vemos na TV, nos concursos, nos espetáculos de teatro, nas intervenções urbanas, nas capas de revistas e até nas headlines de notícias. A arte da montação alcança o mainstream e é vista e consumida por, essencialmente, todo o tipo de público, conquista fãs e adeptos, desperta curiosidade e até alguma polêmica. O repertório dessas artistas é o mais vasto possível: elas dublam, cantam, atuam, dançam, fazem stand up comedy e protagonizam quadros de entrevistas, dentre muitas outras atividades. Adquirimos o costume de dizer que drag queens e transformistas apresentam PERFORMANCES variadas, e isso se deu também à popularização do reality RuPaul’s Drag Race, que legendado em português, diz: “Foi pedido a vocês que preparassem uma performance de dublagem para esta noite.” Com isso, a batalha entre as drag queens inicia e o painel de jurados decide quem fica e quem sai do programa. Aqui reside a dúvida – e a provocação: drag queens fazem PERFORMANCES?

Número artístico e performance Chi Chi DeVayne e Thorgy Thor
Chi Chi DeVayne e Thorgy Thor na Batalha de Dublagem do reality Rupaul’s Drag Race.
Fonte: Youtube

A arte da performance é a manifestação artística mais “jovem”, conforme os estudos em História da Arte. Ela se manifesta pela primeira vez no início do século XX com o Movimento Dadaísta e segue se desenvolvendo fortemente até os nossos dias. Hoje, temos performers e artistas que exploram a performance que influenciam os mais diversos trabalhos nas Artes Visuais, Artes Cênicas, Cinema e Audiovisual e até na Arte Urbana. Mas o que é a arte da performance?

“A performance ou performance art, expressão que poderia ser traduzida por ‘teatro das artes visuais’, surgiu nos anos sessenta (não é fácil distingui-la do happening, e é influenciada pelas obras do compositor John Cage, do coreógrafo Merce Cunningham, do videomaker Name June Park, do escultor Allan Kaprow). Ela chega à maturidade somente nos anos oitenta. A performance associa, sem preconceber ideias, artes visuais, teatro, dança, música, vídeo, poesia e cinema. É apresentada não em teatros, mas em museus e galerias de arte. Trata-se de um ‘discurso caleidoscópico multitemático’ (A. Wirth)”

(PAVIS, 2011).

Mas para entender um pouco melhor o que é a performance, precisamos também estabelecer o conceito de PERFORMER:

“Termo inglês usado para marcar a diferença em relação à palavra ator, considerada muito limitada ao intérprete do teatro falado. O performer, ao contrário, é também cantor, bailarino, mímico, em suma, tudo o que o artista, ocidental ou oriental, é capaz de realizar (to perform) num palco de espetáculo. O performer realiza sempre uma façanha (uma performance) vocal, gestual ou instrumental, por oposição à interpretação e à representação mimética do papel pelo ator. Num sentido mais específico, o performer é aquele que fala e age em seu próprio nome (enquanto artista e pessoa) e como tal se dirige ao público, ao passo que o ator representa sua personagem e finge não saber que é apenas um ator de teatro. O performer realiza uma encenação de seu próprio eu, o ator faz papel de outro”

(PAVIS, 2011).

A partir da breve definição de performance e performer dada por Patrice Pavis, vemos que existe uma diferença entre o performer, que é um artista de palco que se manifesta das mais variadas formas, do ator, que encarna um personagem específico (ou até mais de um). É como se o performer fosse um artista orgânico, que colocasse mais de si em suas encenações e obras, o que combina com o conceito de “drag persona”, que é o que estabelecem para si vários(as) artistas transformistas. A drag queen ou o drag king não é, na grande maioria das vezes, um personagem, mas sim uma persona, uma manifestação da própria pessoa que o encarna, uma faceta do seu “eu”. Sendo assim, de alguma forma seus shows são quase sempre atos únicos, que dependem da reação do público, o que mais uma vez difere da atuação no teatro, por exemplo. Um espetáculo teatral pode ser encenado sem público algum e sem levar em consideração nenhuma reação ou ação do público, enquanto a arte do performer é, de certa forma, interativa: ela depende da leitura, da reação e às vezes até da ação do público para ser um ato completo.

Mesmo assim, será que todas as manifestações artísticas das transformistas são performances?

Entre os artistas de palco que não são atores – cantores, circenses, bailarinos e artistas da dança, mímicos, cômicos – é muito comum vermos encenações pautadas, que possuem começo e fim, que caminham de forma linear ou não, que são ensaiadas, que até podem possuir um roteiro para sua execução. A isso damos o nome de ATO ou NÚMERO ARTÍSTICO, uma vez que é criado para ser repetido várias vezes, como uma encenação teatral. O número artístico pode ou não ter um propósito específico, mas ele possui marcações essenciais, ações específicas, trilha sonora que não pode ser acidental, dentre outros elementos que estão mais próximos de uma cena curta do que de um ato performático. A performance é algo que exige esforço específico do artista, que fala diretamente com ele e transmite também uma mensagem às pessoas que assistem, e que pode se modificar pouco a pouco (ou drasticamente) com a interação do público.

Gabriella apresenta a performance “A Carne” no espetáculo DRAG NIGHT SHOW, dirigido por Lady Lazzarus. Tradução do poema e preparação do performer: Lady Lazzarus.

A performer Marina Abramovic, considerada uma pioneira na arte da performance, tem em seu repertório de criações várias intervenções onde colocava à disposição do público o seu próprio corpo, a ponto de arriscar a própria vida. Um de seus trabalhos mais conhecidos é intitulado Rhythm 0, de 1974, onde a artista ficou em uma galeria com uma mesa a seu lado contendo vários objetos como: uma pena, uma rosa, uvas, mel, um chicote e até uma arma com uma bala. As pessoas passaram seis horas interagindo com Marina, que não reagia em nenhum momento. Rasgaram suas roupas, cortaram seu corpo, carregaram-na de um lado para o outro, até que uma pessoa resolveu “testar” a arma com ela. Neste momento, o galerista interviu dizendo que a performance havia acabado e Marina voltou a si, chorando, caminhando ensanguentada pela galeria. As pessoas assustadas correram para fora.

Número artístico e performance Marina Abramovic
Marina Abramovic – “Rhythm 0” – 1974.
Fonte: Reprodução – IMDB

Para trazer um exemplo de artista brasileira dentro do mesmo espectro de Marina, Marcia X criou a performance/instalação Pancake em 2001. Marcia ficava dentro de uma bacia de alumínio e perfurava latas de leite condensado de 2,5kg e derramava por sobre si. Depois de abrir cerca de 10 ou 12 latas de leite condensado, ela então peneirava confeitos e colocava também sobre seu corpo.

Número artístico e performance Marcia X
Marcia X – “Pancake”. 2011.
Fonte: Reprodução – O Globo

Mas as performances precisam seguir sempre esse tipo de ação? Não. Como vimos na definição apresentada por Pavis no início deste texto, ela pode incluir outros elementos de arte em sua encenação, como a música, o canto, a dança, a poesia, dentre outras, e elas podem também estar combinadas para provocar o público, passar uma mensagem, estabelecer uma conexão, criar uma experiência diversa.

Quando falamos de um número de dublagem, que é o “carro-chefe” das apresentações de transformistas e drag queens, estamos diante de um NÚMERO ARTÍSTICO, um ato
encenado, de forma menos roteirizada e mais inspiracional, mas ainda assim algo que requer uma preparação prévia, que vai desde a execução de um figurino, adereços, perucas e acessórios até a incorporação de expressões na letra da música dublada. Um número de dublagem não é necessariamente uma performance, pois ele segue um caminho traçado previamente pelo(a) artista.

Entre transformistas, drag queens e drag kings e artistas de circo encontramos poucas diferenças. Todos possuem caracterização específica, que inclui figurino, maquiagem, peruca e acessórios e todos apresentam algo a fim de entreter o público. No caso do circo temos números de aéreos (tecido acrobático, lira, trapézio), palhaçaria, contorcionismo, dança etc. Por que palhaços(as) não apresentam “performances”? Por que sempre chamam seus shows de “números” ou “atos” artísticos? Porque eles seguem uma partitura corporal, uma espécie de roteiro com um clímax, criado especialmente para ver o público reagir a tudo isso. Existe muita diferença entre um número de aéreo com música e um número de dublagem? Ou ainda, entre um número de palhaçaria ou um número de canto? Não, na verdade não há diferença. Mesmo assim, não vemos artistas circenses se referirem aos seus shows como performances, pois as performances são MENOS encenadas e MAIS sentidas pelo performer do que os números artísticos, que são criados para apresentação em uma temporada de shows, seja ela diária, semanal ou mensal (e até esporádica).

Quando Pavis nos diz que a performance não é “pré-concebida” é justamente porque ela vai depender da condução da plateia presente. É o público que guia o artista no caminho da performance, e não o contrário, como no número artístico. No número artístico, o artista prepara um caminho e conduz seu público por ele. Há um clímax, mas ele já é pré-definido pelo artista, que aguarda certa reação de seus espectadores (alegria, incômodo, emoções diversas). Na performance, o performer é quem recebe essa energia do público e é ele que vai experienciar as emoções, ele que será surpreendido pelas pessoas que interagem com ele ou o assistem. Geralmente as performances são concebidas para um momento e um espaço específico, enquanto os números artísticos podem ser repetidos indefinidamente, adaptando-se aos espaços e aos recursos disponíveis.

Quer dizer então que um(a) artista transformista NÃO é um PERFORMER? Não. Ele é um performer, pois ele vai encenar ou até improvisar algo dentro do seu repertório de conhecimento e ação, mas ele tem noção completa (ou deveria ter) de até onde pode ir e também até onde o público pode acompanhá-lo. Ele não precisa de um palco italiano e luzes profissionais, embora isso ajude a conduzir seu ato. Ele não precisa também se ater a um texto e um conjunto de ações específicas. E, claro, há artistas transformistas que produzem performance na sua essência, que criam intervenções e interações com o público que dependem deste último, que dependem de sua observação e até de suas ações. A arte do transformismo engloba muitos fazeres artísticos e pode, sim, se usar da arte da performance, mas via de regra, ela fica num lugar onde é mais fácil manter um repertório que pode ser facilmente repetido em qualquer lugar do que dialogar com um momento, um espaço e um público em específico.

O significado principal da palavra PERFORMANCE, conforme o dicionário, é DESEMPENHO. Quando vemos essa palavra sendo utilizada em inglês, na grande maioria das vezes ela quer dizer apenas isso. Como consumimos mais e mais conteúdo produzido por outros países para pautar nossas referências como transformistas, isso nos faz crer que toda vez que criamos um ato encenado, um número artístico, estamos criando uma “performance”, pois ouvimos isso no reality show e achamos que também se aplica ao que fazemos. Mas, não é bem assim. Precisamos, como artistas, saber a diferença entre uma coisa e outra, pois a arte performática exige mais de nós, exige mais preparo físico e menos poética, mais convicção e menos estética. É algo mais visceral, mais intenso, que transforma o performer e sua plateia.

Como disse o fantástico Erick Barreto, um pioneiro da arte transformista brasileira: “Transformistas são palhaços de luxo. Pintamos a cara para passar uma coisa que não somos e nem sentimos” – se referindo aqui ao ato do female impersonation, que é a “imitação” daquilo que seria uma mulher, também uma base da arte transformista no passado, antes de recebermos a iluminação da Teoria Queer sobre gênero, arte, suas diferenças e onde se tocam. O trabalho artístico do(a) artista transformista reside mais na transpiração, na prática, do que na inspiração, na poética. E não há problema algum em criar um repertório de atos ou números artísticos. Eles não estão, de maneira alguma, abaixo da performance, apenas são formas diferentes de explorar a atuação de um performer.

Número artístico e performance Erick Barreto
Erick Barreto no documentário “Bananas is my business”.
Fonte: Gayblog/Reprodução

Referências

PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. São Paulo: Perspectiva, 2011.
Marina Abramovic. Rhythm 0 – 1974. MoMA. Disponível em: https://www.moma.org/audio/playlist/243/3118. Acesso em 24 de julho de 2022.
Marcia X. Marcia X: Pancake. Disponível em: http://marciax.art.br/mxObra.asp?sObra=1&sMenu=2. Acesso em 24 de julho de 2022.
Erik Barreto Diana Finsk se transforma em um palhaço no Show de Calouros. Arquivo Transformista. Disponível em: https://youtu.be/0XwgHOgwdZY. Acesso em 24 de julho de 2022.

Lady Lazzarus é transformista. Dirige e produz o espetáculo Drag Night Show, além de realizar festivais, shows de talentos, concursos e oficinas tendo a arte transformista como protagonista. É cantora, fotógrafa, pesquisadora, preparadora de elenco e palestrante. Iniciou sua carreira na montação em 2001. Divide o corpo da artista LGBT Viviane de Paoli com o drag king Lorde Lazzarus, que criou o primeiro concurso (oficializado) de drag kings do Brasil, o King of Kings, que corou seu primeiro representante do transformismo drag king brasileiro em 2021 (Rud Fiamino). Também realiza pesquisa sobre o transformismo latino americano e, em específico, sobre o transformismo drag king.

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Transformista brasileiro/a/e: você conhece a nossa história?

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Graças à popularização dos reality shows envolvendo drag queens, drag kings e outras manifestações do transformismo, vemos hoje muitas pessoas interessadas em buscar as origens dessa arte que, por definição, desafia os padrões de gênero. Considerada parte da cultura LGBT nos dias de hoje, há muita controvérsia acerca do que é o transformismo, onde surgiu e até sobre quem pode abraçar essa arte.

Não há dúvidas que o transformismo tenha herdado parte dos seus “genes” do teatro. “Homens” – entre aspas, pois hoje a definição de homem é bastante ampla – interpretando mulheres podem ser considerados “drag queens” – também entre aspas porque é uma forma bastante genérica de colocar essa arte. “Mulheres” – entre aspas pela mesma razão que ‘homens’ – interpretando homens podem ser consideradas “drag kings”. Para situar o transformismo na história da arte consideramos essas manifestações. 

Lorde Lazzarus transformismo brasileiro drag king
Lorde Lazzarus
Foto: Marcelo de Paoli

Também podemos dizer que o transformismo é uma forma de hackear o gênero, um dispositivo utilizado para evidenciar estereótipos de gênero. Em relação a isso, no livro “Problemas de gênero” (2018), Judith Butler parte das expressões da drag queen Divine para perguntar: “Seria a drag uma imitação de gênero, ou dramatizaria os gestos significantes mediante os quais o gênero se estabelece? Ser mulher seria um “fato natural” ou uma performance cultural(…)?” (p.9).

De qualquer forma, se quisermos saber mais acerca do transformismo como arte e porque ele tem fascinado tantas pessoas ao redor do mundo, precisamos entender que em cada país ele se manifesta de uma forma, e é um resultado direto de cada abordagem cultural. Por conta da influência massiva da cultura estadunidense nas televisões e serviços de streaming brasileiros, exibindo programas como RuPaul’s Drag Race e a série Pose, muitas pessoas acreditam que o transformismo, ou a “arte drag”, como se fala por lá, tenha apenas um berço e um certo leque de estéticas padrão. Errado! 

O transformismo latino americano é muito diferente do transformismo norte americano, e o transformismo brasileiro é muito diferente do transformismo estadunidense. Nos Estados Unidos, ele nasce à margem da sociedade, nos salões de “bailes” (cultura ballroom), onde as “casas” (ou “haus”) drag batalham entre si por troféus nas mais diferentes categorias. Também tem origem nos cabarés, nos lugares onde a entrada do cidadão “regular” era proibida. As performances envolvem maquiagem, habilidade com a dança (especialmente o vogue), o canto e a postura do performer. A figura das pessoas transgênero é muito presente nesse cenário. Mães de haus costumavam ser, em sua maioria, pessoas trans. 

Já na América Latina, o transformismo nasce no teatro e nas casas noturnas, inspirado pelas grandes divas do cinema internacional, envolvido de muitos paetês, plumas e pedrarias. As transformistas pioneiras, em sua maioria mulheres trans e travestis, oferecem ao público números burlescos, de canto, de dublagem e dança envoltos em muito glamour e que tomam lugar em palcos nobres e casas especializadas nesse tipo de show, frequentadas por pessoas ricas e, às vezes, também bastante famosas. No Brasil, o transformismo foi muito presente no palco dos teatros e transformistas eram dirigidas por nomes de peso, como Bibi Ferreira. 

Naquele contexto, as transformistas não ocupavam apenas o teatro , mas o cinema e a TV. Rogéria e Elke Maravilha protagonizaram filmes e novelas, inclusive em horário nobre, para um público massivo de brasileiros assistir. Se você achava que Pabllo Vittar ou Gloria Groove haviam sido as primeiras drag queens brasileiras a ocupar esses lugares de importância na mídia, você se engana. Nosso país já foi bem menos “careta” nesse sentido e nossas drag queens já tiveram até mais respeito e prestígio do que têm hoje, considerando, claro, a população e a cultura da época.

E onde descobrimos tudo isso? Onde está registrada essa história? Em livros, em filmes e em arquivos de TV e teatro. Sim, existe também literatura que descreve todo esse cenário e como as coisas se popularizaram e também decaíram, e como nossas incríveis performers, em sua maioria mulheres trans e travestis, começaram a construir essa estrada por onde hoje podemos caminhar com maior facilidade. Dentre os livros para conhecer a era de ouro do transformismo brasileiro temos “Rogéria: uma mulher e mais um pouco” de Marcio Paschoal. Também temos “É o que tem para hoje!”, biografia de Silvetty Montilla, uma de nossas drag queens mais populares, com mais de trinta anos de carreira, escrita por Ricardo Gamba. Recentemente foi lançado o livro “Elke: Mulher Maravilha”, escrito por Chico Felitti, num processo que durou muitos anos de encontros com Elke enquanto ainda viva, com sua família, parceiros e amigos. 

Você sabia que Elke Maravilha é considerada a madrinha do grupo de teatro queer Dzi Croquettes? Para assistir, temos não só o documentário deste mesmo grupo dirigido por Tatiana Issa, mas também, “Divinas Divas” de Leandra Leal, que fala de nossas pioneiras e suas vivências dentro do transformismo e da arte cabareteira, passando inclusive pelo período da ditadura. Para ver de graça no Youtube, o canal Arquivo Transformista traz participações de nossas drag queens em shows de talentos no programa Silvio Santos, no programa de Hebe e em boates e casas noturnas. Nos vídeos do canal se destacam os talentos de Erick Barreto, considerado uma das maiores transformistas brasileiras, Marcinha do Corinto, Luiza Gasparelli, Nubia, Leo (Leonora) Áquilla, dentre tantas outras. Você ainda encontra vídeos de Laura de Vison, uma das figuras mais transgressoras da cena transformista do Brasil, e seus shows nada convencionais que aconteciam em boates underground no Rio de Janeiro.

E com relação aos drag kings? Temos registro dessa manifestação transformista também? Bem, a cena drag king acabou não tendo a expressividade que deveria e poderia ter, devido ao preconceito para com seus performers, que são, majoritariamente, mulheres cisgênero e transmasculinos (homens trans e pessoas transmasculinas). Mas existe um livro escrito por Simon Doonan intitulado Drag: The Complete Story, e que tem todo um capítulo destinado aos drag kings (butch drag). Lá veremos figuras que costumamos hoje acompanhar pelas redes sociais (como Adam All e Mo B. Dick) e também manifestações mais antigas, como as da cantora k.d. lang, considerada o primeiro drag king de sucesso internacional. 

No Brasil, a cena drag king ainda segue se desenvolvendo e ganhando adeptos e adeptas, mas salvo o teatro, temos poucos registros em literatura e vídeo oficiais acerca dos drag kings. Existem coletivos e grupos de drag kings desenvolvendo trabalhos de performance e pesquisa, mas sua incursão no mundo digital é recente (e se deu essencialmente durante o período da pandemia de Covid-19). Cabe a nós mudarmos essa história procurando conhecer o transformismo drag king e incentivando os performers que já estão atuando na área. Landon Cider e Tenderoni, ambos dos Estados Unidos, venceram competições importantes como o do reality show Dragula e o Concurso de Drag Queens “Drag Queen of the Year”, promovido por Alaska, uma das vencedoras do programa RuPaul’s Drag Race. Isso colocou os drag kings em destaque nos últimos três anos, uma grande vitória para quem se monta e atua na área.

E quanto às questões de gênero colocadas em xeque pelo transformismo? Se você quiser ler mais a respeito, eis as minhas indicações de livros: “O corpo da roupa” de Letícia Lanz, mulher trans e psiquiatra brasileira; “Viagem solitária” e “Velhice Transviada”, ambos de João W. Nery, homem trans, psicólogo e ativista pelo direito das pessoas trans no Brasil, e, “Problema de gênero” de Judith Butler, filósofa e estudiosa de gênero e teoria queer.

Ser drag queen ou drag king vai muito além de aprender a fazer uma caracterização através da maquiagem, estilizar uma peruca ou criar um figurino, vai muito além de criar um número artístico ou uma performance. Ser drag queen ou drag king, ser TRANSFORMISTA (creio que precisamos novamente tomar posse deste nosso termo latino americano para designar esta arte, já  que é muito mais abrangente,e agênero, que os demais)  é colocar seu corpo como manifesto social e político, desafiando as normas de controle estabelecidas pelo patriarcado, pelo sistema capitalista e pelas religiões. É uma expressão artística dentro da cultura LGBT que significa muito para a comunidade, pois é um símbolo de luta contra a opressão e o apagamento de um leque imenso de identidades. 

Marsha P, Johnson, que iniciou a revolta em Stonewall – que hoje é celebrada com as Paradas da Diversidade em todo o mundo – era uma drag queen. Para ser uma/a artista transformista consciente, você precisa se posicionar contra a opressão estabelecida pela hegemonia cis-hetero-normativa, e nada melhor do que ter o respaldo da história acompanhando seus passos, atos e palavras. Conhecimento pode e deve ser espalhado por aí, portanto, envie esse texto para o maior número de pessoas que puder, incluindo fãs da arte, que não necessariamente se montam. 

Para que hoje o transformismo pudesse estar tão acessível e também poder ser experimentado por qualquer pessoa, houve muita luta, persistência e resistência dos nossos pares. Continuemos na luta para fazer parte dessa história e inspirar pessoas LGBT que virão depois de nós a seguir na arte da montação com cada vez menos medo e com muita força.

*Lorde Lazzarus é drag king. Iniciou sua carreira na montação em 2001. Divide o corpo da artista LGBT Viviane de Paoli com a drag queen Lady Lazzarus. Lorde Lazzarus criou o primeiro concurso (oficializado) de drag kings do Brasil, o King of Kings, que coroou seu primeiro representante do transformismo drag king brasileiro em 2021 (Rud Fiamino). Também realiza pesquisa sobre o transformismo latino americano e, em específico, sobre o transformismo drag king. Lady Lazzarus dirige e produz o espetáculo Drag Night Show, além de realizar festivais, shows de talentos, concursos e oficinas tendo a arte transformista como protagonista. É cantora, fotógrafa, pesquisadora e palestrante.

Instagram: @theladylazzarus

YouTube: ladylazzarus

Referências

Canal ARQUIVO TRANSFORMISTA

Livros

Rogeria: uma mulher e mais um pouco – Marcio Paschoal

É o que tem para hoje! Biografia de Silvetty Montilla – Ricardo Gamba

DRAG: The Complete Story – Simon Doonan

O corpo da roupa – Leticia Lanz

Viagem solitária – João W. Nery

Velhice Transviada – João W. Nery

Problema de gênero – Judith Butler

Elke: Mulher Maravilha – Chico Felitti

Filmes

Divinas Divas – dirigido por Leandra Leal

Dzi Croquettes – dirigido por Tatiana Issa e Raphael Alvarez