Uma metáfora gráfica da permanência da música

Artigo | Carolina Baiocco e Nara Amelia da Silva, das Artes Visuais, refletem sobre perenidade e transitoriedade relativa à madeira, tanto em instrumentos musicais como na xilogravura

*Crédito: Carolina Baiocco/Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

A minha pesquisa parte de um interesse pela música e de como representá-la no meu trabalho visual; como representar visualmente algo que fruímos com outro sentido que não a visão? Entre os elementos da música que me interessam, estão a representação do instrumento musical e a relação deste com o músico, considerando aspectos como a perenidade da música perante a transitoriedade da vida.

Assim como peças musicais compostas no século XVIII ainda estão presentes no repertório de concertos, instrumentos musicais desse período seguem ativos, tendo passado pelas mãos de diversos músicos desde a sua construção. A relação do músico com seu instrumento beira a simbiose: sem o músico, o instrumento não cumpre seu propósito, e sem o instrumento, que som o músico produziria? 

É a partir dessas ponderações que realizo o trabalho Corpo Madeira (2024), no qual a junção da impressão xilográfica e o desenho a carvão me permitem explorar questões de permanência e efemeridade, e a relação entre músico e instrumento.

Na xilogravura, a madeira é cortada para produzir a imagem do instrumento na matriz, e a impressão dela gera a marca duradoura da tinta gráfica sobre o papel. Em contraste com a perenidade da madeira e da impressão com tinta gráfica, sobreponho o desenho a carvão e sua característica relativamente impermanente sobre o papel.

O desenho do esqueleto humano tocando o contrabaixo remete à impermanência do corpo perante o objeto de madeira, evocando a tradição dos mementos mori e das danças macabras, uma vez que essas são formas de relembrar o homem de sua mortalidade e da fugacidade da vida. A representação das danças macabras – que possivelmente surge em razão dos terrores difundidos pela peste negra do século XIV –, mais do que aumentar o terror da espera, servia para amenizar o medo e criar uma intimidade com o momento final.

Além das manifestações visuais das danças macabras durante a história, elas também entram em obras literárias, na música (Totentanz, 1849, de Liszt, e Danse Macabre, 1874, de Camille Saint-Saëns), no teatro e cinema (O Sétimo Selo, 1957, de Ingmar Bergman) e até em animação (Silly Symphony: the skeleton dance, 1929, da Walt Disney Cartoons). 

Percebe-se que, ao passar dos séculos, as representações de esqueletos e caveiras perdem, de certa forma, o caráter de terror, uma vez que a morte passa a se tornar mais distante e escondida na nossa realidade. A presença constante e massificada da representação da morte como esqueleto, sobretudo na imagem impressa, contribui para a banalização do sentido moral atribuído originalmente. Sendo assim, essas representações e alegorias passam a ter um caráter quase lúdico, por vezes, e aparecem de forma bastante caricata na cultura popular.

No meu trabalho, vejo o esqueleto de forma mais amena, sem a pretensão de soar dramático ou austero, mas, talvez, como metáfora, como personagem de uma narrativa alegórica e evocativa de todas essas tradições de representação da caveira como memento mori. 

No processo de gravação da matriz, busquei evidenciar a textura proporcionada pelo material, mesclando os seus veios naturalmente aparentes com os veios artificialmente gravados da imagem representada. A característica única das fibras da madeira evidenciada nas impressões xilográficas torna cada matriz uma soma do trabalho do gravador e da própria natureza do material, além de conferir ao instrumento musical (pelo menos àqueles que são feitos em madeira) a sua identidade.

Uma mesma imagem pode ser gravada em duas peças semelhantes de madeira, mas suas impressões resultariam diferentes, da mesma forma que um luthier pode construir dois contrabaixos a partir do mesmo molde e medidas, mas ambos seriam únicos pela característica ímpar da madeira e da manualidade do processo de corte e gravação do artista.

Assim como o luthier, que só vai ouvir o som do instrumento que construiu ao final de sua construção, o resultado do trabalho do gravador sobre a matriz só é revelado em sua totalidade após sua impressão no papel. Ambos trabalham com a madeira de forma minuciosa, com intuito de moldá-la e transformá-la em algo diferente e perene, tanto pela característica resistente da madeira quanto pelo que a madeira mutada produz: a música e a impressão gráfica.

Conforme citado, busquei, na pesquisa, relacionar a fragilidade do corpo-esqueleto aos aspectos materiais com os quais ele é representado. O carvão, apesar de apresentar-se bastante denso em meu trabalho, é um material fugaz, que não se fixa no papel com facilidade. O desenho a carvão permite o apagamento e com o passar do tempo vai se esvaindo do papel se não for fixado; já o papel arroz, suporte utilizado, apresenta fragilidade ao toque e ao riscar.

O corpo-esqueleto do músico – frágil e passageiro – faz contraponto com o instrumento musical, objeto de madeira, que com os cuidados adequados pode durar centenas de anos. O corpo-madeira do instrumento traz esse contraste tanto pela sua propriedade perene frente à vida humana como pela materialidade de sua representação neste trabalho. A madeira do instrumento gravada na madeira da matriz culmina na impressão do contrabaixo com tinta tipográfica, material indelével gravado no papel.


Carolina Kircher Baiocco é artista visual e bacharel em Artes Visuais pela UFRGS.
Nara Amelia Melo da Silva é artista visual e professora do Instituto de Artes da UFRGS.


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