Pinacoteca | Yuri Alexander Figueiredo Flores Machado, historiador da arte, aponta a importância reservada por artistas e escritores à memória individual e coletiva
*Imagem: Detalhe da capa do livro sub / versiones, 2006. Reprodução: Yuri Flores Machado
O livro de artista produzido pelos argentinos Juan Carlos Romero (Avellaneda, Argentina, 1931 – Buenos Aires, Argentina, 2017) e Carla Rey, subversiones, é uma publicação coletiva realizada por 35 artistas, editada em Buenos Aires, Argentina, em 2006. O exemplar constante na Pinacoteca Barão de Santo Ângelo é o número 1 de uma tiragem de 50. Cada livro é composto por 35 imagens numeradas e assinadas pelos artistas participantes e 34 textos de poetas e escritores selecionados por Juan Carlos Romero. As imagens foram produzidas por meio de diferentes técnicas de gravação tradicionais e digitais. Os textos foram impressos por técnica serigráfica.

Abordamos aqui um dos trabalhos que integra subversiones, de autoria de Graciela Ceconi (Rosário, Argentina, 1945 – 2024), artista licenciada em Ciências Políticas e Diplomáticas, docente da Universidad Nacional de Rosário desde 1968. Ela foi pintora e gravadora, servindo-se de várias técnicas, como a pintura (abstrata e figurativa plana) e a fotogravura. Graciela Ceconi desenhava com grafite, lápis de cor, aquarelas e pastéis. Como gravadora, realizou muitos trabalhos em técnica serigráfica, por vezes inspirados em imagens de terceiros. No trabalho aqui focado, a artista argentina apresenta uma figura que reivindica, que se insurge usando o corpo e as palavras para fazer calar uma opressão que podemos presumir.
O texto que acompanha o trabalho de Ceconi é de autoria do escritor e teórico da literatura argentino Ricardo Piglia (Adrogué, Argentina, 1941 – Buenos Aires, Argentina, 2017): “Não há lamentos, apenas mutações intermináveis e significações perdidas. Virações microscópicas no coração das palavras. A memória está vazia, porque se esquece sempre a língua na qual se fixaram as lembranças”.
O que lemos nessa passagem do romance La Ciudad Ausente (1992), de Ricardo Piglia, é uma luminosa proposição: se esquecermos a língua que tece as nossas próprias lembranças, nos transformamos em seres humanos sem memória. Em metamorfose incessante, tendo em vista as mutações das palavras acossadas pelo tempo, as nossas lembranças, quando surgem por meio de imagens, possuem também um encadeamento vocabular. Esse fenômeno não passa despercebido pelos artistas visuais que mergulham em poéticas generosas que equacionam texto e imagem em obra de arte. O livro de artista pode muitas vezes ser uma materialização poética de memórias constituídas por imagens e textos.

Juan Carlos Romero, Carla Rey e Graciela Ceconi tratam em subversiones da função política e social insubstituível das memórias individuais e da memória coletiva que podem ser materializadas artisticamente, seja por meio de uma gravura, seja escrevendo um romance sobre uma cidade ausente, seja, ainda, amalgamando memórias em um livro de artista. Podemos extrair uma reflexão da experiência visual/textual ofertada por Graciela Ceconi. Trata-se da constatação de que a perenidade e a transmissão da memória da repressão política presente em diversos momentos da história da América Latina nos levam à compreensão de que todo e qualquer terror político de Estado que seja perpetrado contra a sua própria população jamais será passível de anistia.

Reprodução: Yuri Flores Machado
Yuri Alexander Figueiredo Flores Machado é doutorando em Artes Visuais com ênfase em História, Teoria e Crítica da Arte pelo Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da UFRGS e coordenador do Centro de Documentação e Pesquisa da Fundação Vera Chaves Barcellos. Atua junto ao grupo de pesquisa “Os apagamentos da memória na arte”, vinculado ao PPGAV/UFRGS.
Quinzenalmente, estudantes e pesquisadores apresentam obras da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo a partir de diferentes aspectos. A seção tem curadoria de Camila Monteiro Schenkel e Gabriela Motta.





