Artigo | A historiadora da arte Lizângela Guerra conta como se deu o processo de construção de mostra que celebrou o centenário de um marco para as artes visuais no Rio Grande do Sul
*Imagem: Excerto da obra “Autorretrato como arlequim”, 1925, de João Fahrion
Grande parte dos estudos publicados em torno do modernismo nas artes visuais no Rio Grande do Sul nos últimos 100 anos cita uma mostra coletiva organizada por artistas e intelectuais em Porto Alegre em maio de 1925: o I Salão de Outono. Embora mencionado com frequência, até pouco tempo não havia uma pesquisa dedicada a entender seus meandros, desde sua gênese, passando pela mostra propriamente dita e pelos personagens envolvidos, até sua repercussão na crítica local e nacional. Em 2021, na disciplina de História da Arte no Brasil III, conduzida pela professora Paula Ramos, foram dados os primeiros passos para preencher essa lacuna historiográfica.
A pesquisa foi realizada a partir de obras de referência e com fontes primárias no Arquivo Histórico do Instituto de Artes da UFRGS, com rico material, incluindo revistas, recortes de jornais, diários, fotografias e o catálogo original da exposição de 1925. A monografia, trabalho final da disciplina, reconstruiu o panorama geral do evento: um grupo de jovens artistas insatisfeitos com a pouca visibilidade decidiu fazer uma chamada pública nos jornais e reunir, em um único espaço, artistas profissionais e amadores.
A ideia teria sido do carioca Helios Seelinger, que vivia temporariamente em Porto Alegre para pintar um painel histórico encomendado pelo Governo do Estado. Outros artistas e intelectuais associados à concepção do evento são o escultor espanhol Fernando Corona; o médico e crítico de arte Fábio de Barros; o escritor, latinista e filósofo João Sant’Anna; o desenhista, gravador e ilustrador José Rasgado (Stelius); e o entalhador, mecenas e moveleiro espanhol Bernardo Jamardo.
O evento reuniu cerca de 300 obras de mais de 60 artistas e ficou aberto à visitação de 25 de maio a 25 de julho de 1925 na Sala de Honra da Intendência Municipal.
Em 2023, a monografia da disciplina virou Trabalho de Conclusão de Curso. A pesquisa foi expandida para uma série de arquivos e acervos públicos e revelou novos personagens, como o crítico Jack, que comentou as obras de 67 artistas expositores no então recém-criado jornal Diário de Notícias. Suas opiniões escandalizaram a cidade e provocaram um debate público na imprensa sobre a obra exposta pelo consagrado artista Augusto Luiz de Freitas. Em lugar das 305 obras listadas no catálogo, foram mencionadas outras pela imprensa, enquanto algumas das inscritas parecem não ter sido expostas. Em suma, a pesquisa corrigiu alguns equívocos historiográficos e, ao mesmo tempo, abriu novas lacunas. O trabalho virou referência e ponto de partida para outros pesquisadores em formação no curso de História da Arte.
O I Salão de Outono revelou artistas desconhecidos do público, como Antonio Caringi e Oscar Boeira. Artistas que se afirmavam e egressos da Escola de Artes também participaram da mostra: Affonso Silva, Francis Pelichek, João Fahrion, José Lutzenberger, Stelius e Judith Fortes.
Jovens na casa dos 20 anos com trabalhos promissores e artistas amadores tiveram suas obras exibidas ao lado de grandes mestres, como o renomado pintor Pedro Weingärtner, o que chocou a imprensa. O evento também repercutiu no Rio de Janeiro, fazendo com que o cenário artístico de Porto Alegre fosse conhecido na então capital federal.
Em 2024, com a aproximação do centenário do I Salão de Outono, um projeto para contar a sua história em exposição e livro foi submetido à Rouanet RS, edital direcionado a atividades para a retomada cultural após as enchentes que assolaram o estado. Com pesquisa feita e projeto aprovado, para celebrar os 100 anos do Salão foi reservada uma sala no Museu de Arte do Paço (MAPA), mesmo prédio que abrigou a exposição em 1925. Até as vésperas de maio de 2025, contudo, nenhuma empresa participante havia patrocinado o projeto.
A decisão foi organizar uma campanha de financiamento coletivo para bancar os custos básicos da exposição. A campanha foi bem-sucedida, embora os custos tenham sido subestimados. Para materializar a exposição, foram necessários vários braços. Para identificar as obras, informações do catálogo original do evento, fotografias e descrições da crítica foram cruzadas com informações catalográficas de acervos públicos e de coleções privadas. O empréstimo de obras precisou ser negociado com instituições e colecionadores; textos sucintos foram reescritos dezenas de vezes; fotografias foram refeitas; e grandes painéis diagramados.
No dia 7 de junho de 2025, cerca de 200 pessoas, entre apoiadoras da campanha, pesquisadores que foram referência para o trabalho, artistas locais e familiares de artistas que expuseram em 1925 prestigiaram a abertura da exposição “I Salão de Outono – o centenário de um marco para as artes visuais no Rio Grande do Sul” no MAPA. Após 100 anos, a história do primeiro grande evento de artes visuais do início do século XX no estado foi contada ao público a partir de uma iniciativa independente, assim como o evento matriz. Organizada com o financiamento de 164 pessoas por uma equipe disposta a compartilhar o conhecimento construído na Universidade com o grande público, a exposição apresentou obras originais expostas em 1925, reproduções e material coletado em jornais, revistas e diários. A exposição esteve aberta à visitação até 11 de julho. Como desdobramento futuro, o projeto ainda busca financiamento para a publicação de um livro sobre o I Salão de Outono de 1925.

Lizângela Guerra é bacharela em História da Arte pelo Instituto de Artes da UFRGS. É curadora, junto com Paula Ramos, da exposição I Salão de Outono – O centenário de um marco para as artes visuais no Rio Grande do Sul.
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