Artigo | Estudante de Educação Física, Tatiana Oliveira Martinhago entrevistou sete trabalhadoras terceirizadas que atuam na Esefid para conhecer suas vivências e seus desejos
*Ilustração: Theo Martins de Lima/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
Todos os dias elas estão na Universidade, às vezes rindo, outras conversando e sempre trabalhando muito. Fazem parte de um grupo que compõe 40% do quadro de funcionários da UFRGS. No meu trabalho de conclusão de curso de Educação Física, entrevistei sete mulheres incríveis, trabalhadoras “terceirizadas”, que exercem a função de serviços gerais/limpeza na Esefid, Escola Superior de Educação Física, Fisioterapia e Dança. Meu objetivo foi conhecer suas trajetórias e refletir sobre como vivem e significam o lazer e o que dificulta o acesso a esse direito.
O Lazer, de acordo com o Conselho Nacional de Educação, é área de conhecimento e de intervenção acadêmico-profissional da Educação Física, é um direito constituído por promover bem-estar e qualidade de vida. No entanto, há uma carência de estudos sobre lazer com protagonismo feminino, especialmente com foco em mulheres negras, criando um déficit de conhecimentos sobre o tema e causando invisibilidade das vivências, necessidades, desejos e barreiras de acesso enfrentadas.
Realizei, com essas mulheres, uma conversa/entrevista individual, em que perguntava sobre ocupações, obrigações, tempo, gostos, sensações, sonhos, lazeres e vivências, tanto no seu ambiente de trabalho quanto fora deste, o que revelou as dificuldades e a riqueza de seus cotidianos. Trago, neste artigo, algumas reflexões e pequenos trechos de suas falas entre aspas.
Elas são protagonistas de suas histórias, gostam de ser quem são e do seu trabalho, se unem contra injustiças e enfrentam atravessamentos de gênero, raça e classe social.
Entre as sete entrevistadas, apenas uma mora sozinha; as demais com filhos, duas com companheiros, duas com as mães. Sua renda per capita é de até um salário-mínimo. A maioria concluiu o ensino fundamental, tem idade média de 40 anos, e seis se autodeclaram pretas ou negras.
“Aí que é o meu tempinho, meu tempinho de lazer.” As entrevistadas usufruem de tempinhos de lazer, pois o tempo delas é escasso. Conversas, jogos de cartas, passeios, escutar rádio, celular, ver séries, novelas e filmes, festas, praça, churrasco e chimarrão, sair à noite, ficar em casa, com a família, sozinhas, na religião, no descanso e no ócio. Às vezes, o “fazer nada” é o contraponto ao trabalho pesado, o alívio das preocupações diárias. São poucos minutos entre chegar da rua e ir limpar a casa, é a opção possível devido ao dinheiro escasso; para outras, é o tempo dedicado ao prazer de se fazer o que quer, o privilégio do lazer, como nomeou uma das entrevistadas.
Quando usufruem de momentos de lazer, descrevem suas sensações como: “Eu me sinto feliz, realizada, tranquila”. “É uma sensação boa! Uma sensação de livre. Que eu posso, sei lá! Uma sensação maravilhosa.” Relatam tranquilidade, liberdade, alegria, um momento de escolhas, de trocas: “Agora eu tô num lazer contigo aqui. Eu tô trocando ideia contigo… A troca é tão boa”. O lazer é vivido no tempo presente usufruído, é um ponto de encontro e não um local físico, é um prazer em estar e ser, não buscando uma finalidade.
Elas se consideram mulheres ativas, pois não param nunca, e não associam lazer à Educação Física – o que nos fez refletir sobre os alcances e limites da nossa área de atuação. Mencionam que deveriam frequentar “uma academia”, mas não conseguem devido à falta de tempo e dinheiro. Nessa equação de sustento financeiro somado aos serviços domésticos e carga mental das decisões da família, é difícil incluir a atividade física como lazer.
A relação com a Esefid, local onde trabalham, é ambígua. De um lado, dizem gostar e relatam interações com alunos “educadinhos”, “uns que param, conversam”. Por outro lado, falam de preconceito – palavra utilizada por elas –, pessoas que não cumprimentam, que pedem para não conversarem alto, que sujam as salas e banheiros sem pensar em quem limpará, que “passam por cima”, nem percebendo sua existência. Momentos que trazem sentimentos de invisibilidade e que produzem o doloroso relato: “Não é porque a gente está de uniforme, com uma vassoura na mão, que a gente não é ser humano, entende? A gente é que nem eles”.
Esses relatos evidenciam como a invisibilidade de mulheres negras em trabalhos subalternizados é reforçada por lógicas de racismo estrutural e colonialidade, que historicamente produzem apagamento e desumanização, uma ferramenta de dominação que mantém o poder da classe dominante e se sustenta em um imaginário social que inferioriza a cultura e a história dos povos negros.
Esse mundo onde classe social é um fator estruturante e determinante, na nossa sociedade tão desigual, abrevia esperanças. Ao serem perguntadas sobre seus sonhos de lazer, com tempo e dinheiro ilimitados, uma diz que é feliz com o que tem. Outra projeta: “Ser rica…”, e emenda rapidamente, “aí eu me lembro que eu sou pobre”. A fantasia fez lembrar da realidade, e se não se pode ter, para que sonhar? Desejo de conhecer. Outra: “Aí, eu queria ir pra Bahia!”. Uma delas quer pescar.
Mulheres marcantes que nos ensinam com suas palavras, afetos, risada fácil e conversa boa, que veem a beleza da vida, que aproveitam e defendem seu lazer dividindo histórias com as amigas, fofocando na balada, almoçando com a família toda em volta, ou ficando sozinhas, na paz, no lugar que conquistaram. Desejam “liberdade … por favor, já fico o dia inteiro presa” e sabem que “o problema é ter o prazer, né? A obrigação a gente tem, o prazer é que é difícil”.
A partir desta pesquisa, reflito que, apesar de atuarem na Esefid, espaço ligado ao lazer e à Educação Física, não se reconhecem como parte dele, muito pela ausência de iniciativas que as incluam. É urgente pensar propostas e projetos que contemplem esse público, ajustando horários e atividades, e garantindo visibilidade e respeito no dia a dia da Universidade. Seguir ignorando suas vozes e necessidades é reforçar a lógica de exclusão que a própria instituição deveria combater.
Tatiana Oliveira Martinhago é estudante de graduação no Bacharelado em Educação Física.
O trabalho de conclusão de curso que deu origem a este artigo foi orientado pelo professor Daniel Giordani Vasques.
As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.
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