Trajetórias de figuras negras ensinam que a história dos africanos e afrodescendentes não se resume à escravização

Novembro Negro | Mãe Rita do Candombe, Alcides Cruz, Joana Guedes e Vó Georgina representam a diversidade dos povos afro-diaspóricos e sua valentia para resistir à desumanização

*Foto: Participantes do “Cortejo da Nobreza Negra da Atualidade”, idealizado e produzido pela professora e escritora Perla Santos como parte das atividades de lançamento do seu livro “Zacimba e a Nobreza Negra” durante a 71.ª Feira do Livro de Porto Alegre (Foto: Nilveo Pereira Christiano)

Assim como os espaços urbanos e os sambas-enredo de carnaval são instâncias fundamentais para destacar o que o preconceito racial institucionalizado insiste em silenciar, a escola é um dos lugares cruciais para enfrentar o epistemicídio. A Lei 10.639, que torna obrigatório o Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira, age nessa direção: valorizar o legado das comunidades negras é um dever do Estado, e conhecer a fundo o processo histórico da construção do Brasil é um direito dos educandos. 

Professora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Gabriel Obino em Porto Alegre, Perla Santos leva a sério o cumprimento da legislação. Atualmente, desenvolve com os alunos do 4.° ano um projeto chamado “IA versus IA”, que reflete sobre a inteligência artificial versus a inteligência ancestral. A iniciativa parte da reminiscência da Vó Georgina, figura de referência do bairro Teresópolis, zona sul da Capital.

Junto da educadora Elizabeth Rodrigues, Perla resgata os saberes da Vó Georgina, como a importância dos chás e dos temperos, reforçando a ideia de pertencimento e auxiliando na elaboração do luto. Era a ela que as crianças recorriam quando estavam doentes ou com fome, mas a anciã faleceu em junho deste ano. 

“Os estudantes tinham a noção de que a internet sabia de tudo e eu fui ensinando que há outras tecnologias, como os saberes ancestrais”, conta a docente, que é doutoranda na Faculdade de Educação da UFRGS.

O projeto das duas professoras une educação midiática, cuidado à natureza e reconhecimento dos ensinamentos ancestrais. Lembrar dos que vieram antes e recordar suas lutas e vivências pode ser a chave para elevar a autoestima dos mais jovens e empoderá-los para enfrentar os desafios de uma sociedade ainda racista. Dessa forma, também se honra a expertise dos antepassados, cujas trajetórias iam muito além da escravização.

Participantes do “Cortejo da Nobreza Negra da Atualidade”, idealizado e produzido pela professora e escritora Perla Santos como parte das atividades de lançamento do seu livro “Zacimba e a Nobreza Negra” durante a 71.ª Feira do Livro de Porto Alegre (Foto: Nilveo Pereira Christiano)
Candombe da Mãe Rita

Há quem pense que toda manifestação cultural da população negra possa ser chamada de batuque, mas as comunidades sequestradas pela Europa e trazidas até o Brasil entre os anos de 1500 e 1900 eram bem mais complexas do que a escravização simulou. Próximo de onde atualmente fica o Restaurante Universitário do Câmpus Centro da UFRGS, nos arredores da Rua Avaí, aconteciam reuniões que agitavam o espaço público com tambores, marimbas e outros instrumentos inventados por pessoas de diferentes nações da África. Quem liderava o grupo era uma mulher de origem banto, a Mãe Rita.   

O Candombe da Mãe Rita, assim como outros candombes que levavam cor e festa para as vias da capital gaúcha, não era uma religião, e sim uma celebração associada aos reinados do Congo e a um catolicismo de inspiração africana. “Havia uma população numerosa de origem africana no estado, portanto houve uma série de tradições muito mais amplas do que podemos supor. Não devemos classificar absolutamente tudo como batuque”, explica o doutorando em História na UFRGS Jovani Scherer. 

Diferente do se pode imaginar, apesar de estabelecerem forte aproximação com os dogmas cristãos e estarem vinculados às irmandades do Rosário, os candombes não simbolizavam uma postura passiva dos negros diante da colonização. Pelo contrário, representavam uma rememoração dos cultos experienciados em seus territórios, já que congoleses e angolanos tinham suas próprias interpretações do cristianismo.

Ainda que a folia liderada por Mãe Rita tenha ocupado o que hoje é a região central de Porto Alegre, passando também pelo entorno da atual Avenida Loureiro da Silva, as ruas que abrem caminhos entre o Centro Histórico e a Cidade Baixa não carregam o nome dela. É o retrato de um processo secular de apagamento, que retira dos porto-alegrenses o direito de saberem acerca de sua própria cidade.

“Não precisamos ficar falando desse escravo, desse liberto, desse africano genérico. Podemos falar da Mãe Rita, do [Príncipe] Custódio, da Mãe Emília e de outras tantas lideranças com trajetórias importantes. Quando falamos das trajetórias individuais, permitimos que outras pessoas se identifiquem, e isso é superimportante do ponto de vista educacional e informativo” 

Jovani Scherer
Kerolyn Rihanna Joana da Silva dos Santos (Foto: Nilveo Pereira Christiano)
Jéssica Souza (Foto: Nilveo Pereira Christiano)
Jessica Oliveira de Oliveira (Foto: Nilveo Pereira Christiano)
Raízes negras e a Faculdade de Direito

Ainda que a imensa maioria dos negros proeminentes de seu tempo tenham tido seus legados silenciados pelo racismo, algumas poucas figuras nomeiam logradouros da capital. É o caso de Alcides de Freitas Cruz, advogado, deputado e um dos fundadores da Faculdade de Direito da UFRGS, segundo o historiador Paulo Roberto Staudt Moreira, que é professor visitante da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). 

Doutor Alcides Cruz é umas das vias do bairro Santa Cecília e conecta a Avenida Protásio Alves à Avenida Ipiranga, mas a relevância e a bravura do intelectual seguem escondidas entre os que circulam pela área e entre os que trabalham e estudam na instituição que ele ajudou a erguer. Nascido livre em uma família muito bem estruturada, Alcides se formou em São Paulo, integrou o Partido Republicano Rio-grandense e era dono de um acervo de mais de 2.000 livros. Foi o primeiro tradutor de Fiódor Dostoiévski no país e escreveu, por mais de uma ocasião, que tinha orgulho de sua cor e de suas antepassadas. 

“Essas ascensões sociais não eram estruturais, eram residuais”, realça Staudt. “Alcides conseguiu navegar nessa sociedade racista e escravista contando com ajuda de uma família sólida, consolidada e com a presença consistente de mulheres negras.” 

Alcides Cruz (Foto: Acervo Biblioteca Central UFRGS)

Mulheres negras destemidas também não faltaram nesse período. Joana Guedes de Jesus, uma africana da Costa da Mina, localidade onde hoje estão o Benin e a Nigéria, fez o possível e o impossível para alforriar seu companheiro, Marcelo da Silva, e a filha deles, Laura Guedes. O preço para ser livre era alto e custava em torno de um conto de réis, o que equivalia de 80 a 100 cabeças de gado. 

Joana foi a primeira de sua família a tornar-se livre. Por volta da década de 1830, ela adoeceu e a senhora que tinha sua propriedade lhe alforriou para não precisar lidar com os custos do tratamento médico e do enterro. Mas Joana sobreviveu. Já liberta, passou a morar na Rua Fernando Machado, trabalhando como quitandeira. Chegou a acionar a justiça após um vizinho agredi-la com chicote durante uma discussão. Corajosa e aguerrida, passou a vida juntando economias para libertar quem amava e assim o fez. Reuniu uma quantia significativa, que foi para o bolso dos escravocratas. 

“As trajetórias dessas personalidades negras ajudam nos debates políticos contemporâneos para mostrar como essa população precisa ainda de medidas reparatórias, porque saíram de uma situação completamente opressiva sem qualquer tipo de reparação”

Paulo Roberto Moreira

As vidas de Joana, Marcelo e Laura, bem como a de seus sucessores, teriam sido indiscutivelmente mais fáceis se não tivessem de entregar o montante de dinheiro que reuniram aos seus sequestradores. Não esquecer do passado trata-se, portanto, de uma estratégia justa e importante para reivindicar novas possibilidades de futuro.

*Correção: a versão original da reportagem indicava, erroneamente, que a Vó Georgina era matriarca dos quilombos dos Alpes e dos Flores [ajustado em 21/11/25, 08h08]
**Correção: a versão original do texto continha a seguinte fala de Perla Santos: “Muitos alunos tinham vergonha de ser quilombolas; hoje eles têm orgulho. Hoje eles sabem que o quilombo é um lugar de resistência, de potência e de preservação da nossa memória.” Para melhorar a coesão textual, a fala foi substituída por outra, da mesma fonte: “Os estudantes tinham a noção de que a internet sabia de tudo e eu fui ensinando que há outras tecnologias, como os saberes ancestrais.” [ajustado em 21/11/25, 10h13]