Uma luta vã (ou A caça ao vento)

Na ponta da língua | Ana Costa dos Santos aborda, sob a ótica do exercício da poesia, uma questão que jamais se encerra(rá): a insuficiência da língua

*Foto: Desenho de Fernando Augusto, parte do trabalho intitulado “Um desenho por dia”, em exposição no V744 Atelier, em Porto Alegre. Segundo o artista, “Começo o dia desenhando cerca de 200 linhas horizontais, à bico de pena, durante 30 minutos. Esta é a forma que encontrei para começar, cada manhã, as horas do dia, em qualquer lugar onde estiver”. (Crédito: Fernando Augusto/Flavio Dutra/JU)

Se lutar com palavras é, como escreveu Drummond, a luta mais vã, convém lembrar que essa vanidade impele aqueles que se arriscam no terreno da escrita poética a seguirem lutando, na esperança sempre renovada de superá-la. Quando escrevemos um poema – se levamos a tarefa a sério –, deparamo-nos frequentemente com a insuficiência da linguagem, ou seja, com a dificuldade de converter determinadas percepções subjetivas em palavras capazes de atingir a sensibilidade do leitor.

Trata-se de um embate entre o que queremos escrever e o que escrevemos de fato.

Afinal, “sentir não significa tornar sensível – e, menos ainda, belamente sensível...”, ensina o poeta e filósofo francês Paul Valéry.

Cada poema consiste em uma tentativa mais ou menos fracassada, e precisamente por isso tentamos outra vez, em um aperfeiçoamento constante das técnicas de luta, isto é, do trabalho com a linguagem.

Na poesia, forma e conteúdo – ou som e sentido – são indissociáveis: como se diz é tão importante quanto o que se diz. Diferentemente do que ocorre com a linguagem usada para fins práticos, as palavras de um poema não são meros instrumentos que nos auxiliam a chegar ao significado – sua materialidade e seu poder de permanência tornam-se centrais. São essas propriedades que nos levam a memorizar certos poemas, a citá-los em diversas ocasiões ao longo da vida.

Nessa perspectiva, pode-se afirmar que é este um dos intentos de quem escreve poesia: transformar algo transitório em um registro duradouro. Daí a importância da busca pela forma exata, a palavra exata, esse “fluido inimigo/ que me dobra os músculos/ e ri-se das normas/ da boa peleja”, para voltarmos a Drummond.

Por outro lado, na definição certeira de Octavio Paz, poeta e ensaísta mexicano, “o poema é linguagem […], mas também é algo mais. E esse algo mais não é explicável pela linguagem, embora só possa ser atingido por ela”. Acredito, como Paz, nesse fator indefinido – da ordem do intangível – que não apenas é criado com e pelo poema, mas que também, em certa medida, antecede e provoca sua escrita. No entanto, isso é assunto para futuras lutas.


Ana Costa dos Santos é revisora de textos, jornalista, poeta, doutora e mestra em Letras. Foi finalista do Prêmio Açorianos de Literatura e vencedora do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura e do Prêmio Minuano.

Mensalmente, os revisores da Secretaria de Comunicação Social comentam aspectos da linguagem em Língua Portuguesa. A coluna Na ponta da língua tem a organização de Antônio Falcetta.