Conjuntura | Igor Sardo, da Ciência Política, reflete sobre o retorno da competição estratégica entre as grandes potências e a divisão do mundo em zonas de influência
*Foto: São Paulo (SP), 05/01/2026 – Ato em frente ao Consulado dos Estados Unidos contra a invasão na Venezuela. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Para além da flagrante violação do Direito Internacional e do princípio de soberania, a intervenção dos Estados Unidos (EUA) na Venezuela em janeiro de 2026 sinaliza um fato mais preocupante ao Brasil: a volta da competição securitária na América do Sul. Desde o fim da Guerra Fria, houve relativo consenso na literatura de Relações Internacionais de que o mundo era dominado por apenas uma superpotência capaz de projetar poder em qualquer região do globo, isto é, os EUA.
Apesar da supremacia estadunidense, nos últimos vinte anos, vários eventos provocaram fissuras nessa unipolaridade: a invasão russa da Geórgia de 2008, a Guerra no Donbass de 2014-2022, o primeiro mandato de Donald Trump de 2017-2020, a Guerra Russo-Ucraniana de 2022, a Guerra de Gaza de 2023 e, por fim, o segundo mandato de Trump a partir de 2025. Segundo analistas de Relações Internacionais, como John Mearsheimer e Paulo Visentini, esses eventos ampliaram a multipolaridade, porém com doses fortes de instabilidade política. E as administrações de Trump têm um papel central nisso, uma vez que o presidente dos EUA deliberadamente desestruturou o multilateralismo e reconheceu a Rússia e a China como grandes potências.
Em um contexto de mundo multipolar, reafirmar zonas de influência é uma medida de segurança para as grandes potências e, nesse sentido, o continente americano é visto pelos EUA como seu hemisfério de segurança exclusiva.
No passado, medidas como a Doutrina Monroe, de 1823, e o Corolário Roosevelt, de 1904, foram estratégias de política externa que intencionavam afastar as demais grandes potências do entorno dos EUA. Além disso, autorizavam Washington a intervir na política regional quando seus interesses fossem ameaçados. Apesar de a Doutrina Monroe nunca ter sido posta em xeque de 1990 a 2020, a presença de investimentos de potências extrarregionais na América Latina passaram a preocupar Washington.
Após o início da Guerra na Ucrânia em fevereiro de 2022, contudo, a leitura da Casa Branca era a de retorno da competição estratégica, especialmente aquelas direcionadas a assegurar, a cada potência, sua própria zona de influência. A recente ofensiva diplomática, e inclusive militar, dos EUA sobre Canadá, Groenlândia, México, Cuba, Panamá, Colômbia, Brasil e Venezuela mostra a preocupação e a importância do continente americano para Washington. Assim, o evento de 3 de janeiro revela que as intenções de Trump sobre a região estão além do blefe e da intimidação.
Com a captura de Maduro, a competição securitária e o aumento da multipolaridade também repercutirão regionalmente na América do Sul, alertando autoridades brasileiras. Nesse contexto, é preciso prospectar cenários em três diferentes frentes: política exterior, política regional e política de Defesa.
Com relação à política externa, a história recente das Relações Internacionais mostra que a retórica da diplomacia emprega diferentes pretextos para potências agirem em intervenções unilaterais, como o pretexto da “dívida impagável” no século XIX ou o combate ao comunismo no século XX. Nesse mesmo sentido, o suposto narcoterrorismo da América Latina é empregado como justificativa pelos EUA. Em casos como o da Venezuela, a política exterior brasileira, representada pelo Itamaraty e pela presidência, tem cumprido seu papel histórico de manter neutralidade e defender a soberania nacional.
No que se refere à política regional, a crise migratória venezuelana continuará sendo foco de instabilidade social e política na América do Sul e, providências como a continuação da Operação Acolhida e novas políticas de acolhimento e integração social a migrantes são prudentes. Ademais, é preciso acompanhar a evolução social e política em Caracas, uma vez que esse é o termômetro da crise migratória regional.
Por fim, para além da intervenção estadunidense, os recentes eventos da década atestam a necessidade de uma política de segurança mais ativa do orçamento público brasileiro, investindo na indústria de Defesa nacional e em operações estratégicas, como a Operação Atlas, de treinamento tático no norte do país.
A defesa da soberania da Amazônia, das fronteiras, da costa e do espaço aéreo brasileiros são prerrogativas a serem reafirmadas. Nesse sentido, a futura entrega do submarino nuclear, encomendas de novos Embraer R-99 e F-39 Gripen e possível aquisição de sistema antiaéreo EMADS para auxiliar no Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (sisGaaz) e no Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISfron) são de sensível importância. Com esse cenário, o ano de 2026 se inicia com difíceis desafios e preocupantes incertezas, mas política se faz de coragem, e soberania não se negocia.
Igor Estima Sardo é bacharel em Relações Internacionais pela UFRGS e doutorando em Ciência Política na Universidade.
Periodicamente, profissionais de diversas áreas ligados à UFRGS escrevem sobre política, economia, relações internacionais e outros temas relacionados à conjuntura. A seção tem curadoria de Tatiany Lukrafka.
As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.





