Conjuntura | Para Igor Sardo, da Ciência Política, as medidas dos EUA em relação ao Brasil se concentram na imposição de tarifas aduaneiras, busca pelo controle de matérias-primas críticas e disputa de influência com a China
*Foto: Alan Santos / PR
A política externa dos Estados Unidos (EUA) é fator-chave para a análise de política internacional desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Por sua vez, cada presidente americano imprime sua própria digital na política externa. Dessa forma, diferentes nomes que ocuparam a Casa Branca desenvolveram suas próprias agendas, reunindo diretrizes de atuação externa. Após 18 meses no cargo, o segundo mandato de Donald Trump imprime uma doutrina calcada no balanceamento à China, nas tarifas aduaneiras como chantagem diplomática e na busca pelo controle de matérias-primas críticas, especialmente petróleo e terras raras.
Indiretamente, essas diretrizes já impactam o Brasil. O balanceamento com a China tem gerado instabilidade nas cadeias globais de valor e no comércio internacional, prejudicando importadores brasileiros. A busca pelo controle do fornecimento mundial de petróleo já desencadeou uma intervenção direta na América do Sul em janeiro de 2026 e uma guerra em larga escala no Oriente Médio no mês seguinte. Esses fatores geram pressão inflacionária na economia brasileira, além de aumentar a instabilidade regional e a crise de refugiados no caso venezuelano. Não obstante, tais diretrizes se traduzem em quatro pontos mais específicos e diretos para o caso brasileiro.
Assim, a relação bilateral Brasil-EUA se desenha no mandato Trump a partir de quatro eixos: aplicação de tarifas em supostas práticas de comércio desleal, exploração de terras raras em solo brasileiro, classificação de facções criminosas como organizações terroristas e acusação de cerceamento da liberdade de expressão por parte do judiciário brasileiro.
O primeiro eixo é uma expressão direta de uma diretriz geral da Doutrina Trump, ou seja, utilizar-se de ferramentas protecionistas para forçar mudanças de política e trazer indústrias para dentro das fronteiras americanas. Com outros governos estrangeiros, o uso do tarifaço demonstrou êxito em intimidá-los, porém, no caso brasileiro, as tarifas unilaterais reforçaram a posição do governo. Um desafio à parte, contudo, será manter as plantas industriais em solo brasileiro, haja vista que algumas empresas demonstraram interesse em se transferir para os EUA a fim de evitar as tarifas.
O segundo eixo é igualmente uma expressão direta de uma diretriz geral da Doutrina Trump, uma vez que o governo americano está empenhado em controlar várias fontes de terras raras, minerais críticos úteis em diferentes ramos da produção. Atualmente, a economia mundial está passando por uma nova revolução industrial, guiada pelo uso de robótica, drones, computação quântica e Inteligência Artificial (IA). Todos esses ramos da indústria necessitam dos minerais críticos. O Brasil e a China têm as maiores reservas de terras raras do mundo. Aqui, elas se concentram em estados como Minas Gerais, Amazonas e Goiás. Para exploração em território goiano, acordos foram firmados diretamente entre o governo do estado e o governo americano, fato que gerou questionamentos judiciais.
Já o eixo da classificação de determinadas facções criminosas brasileiras como organizações terroristas faz parte de uma estratégia americana mais direcionada à América Latina. A estratégia busca servir de pretexto para intervenções diretas e indiretas dos EUA na região, como foi o caso da captura de Nicolás Maduro. A partir de maio do corrente ano, o governo Trump classificou duas facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, abrindo precedente para interferir no sistema financeiro brasileiro e, porventura, realizar operações encobertas em solo nacional, como alertou chanceler brasileiro Mauro Viana.
Com relação ao último ponto, os ataques ao judiciário brasileiro sob pretexto de defesa da liberdade de expressão são uma tentativa de interferência nas eleições gerais do Brasil deste ano. Interferências em eleições estrangeiras têm sido cada vez mais recorrentes, não apenas no caso brasileiro, mas em muitas democracias. Tratam-se de precedentes perigosos ao Estado Democrático de Direito e ao instituto da soberania.
Por fim, em um período de descrédito do multilateralismo, ações unilaterais como as elencadas anteriormente se tornam mais frequentes. Uma vez mais é preciso unir desenvolvimento com Defesa Nacional a fim de garantir a soberania do Brasil. Autonomia estratégica está para além de governos e partidos, é um objetivo constitucional e permanente do Estado brasileiro.
Igor Sardo é bacharel em Relações Internacionais, mestre em Estudos Estratégicos Internacionais e doutorando em Ciência Política pela UFRGS. É assistente de edição da Revista Austral de Relações Internacionais, além de pesquisador associado do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais (Nerint) e do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape)
Periodicamente, profissionais de diversas áreas ligados à UFRGS escrevem sobre economia, política, relações internacionais e outros temas relacionados à conjuntura. A seção tem curadoria de Tatiany Lukrafka.
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