Memória como jogo: percepção e desconfiança na poética de Vera Chaves Barcellos

Pinacoteca | Diego Groisman, historiador da arte, analisa a obra pertencente ao acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

Memória é um conceito que de forma espontânea surge associado a Vera Chaves Barcellos (Porto Alegre/RS, 1938), artista contemporânea com vasta e diversa produção, distribuída em mais de seis décadas de trajetória. Uma pensadora das imagens, Vera contribuiu para a inserção da fotografia e do conceitualismo no comedido meio artístico do sul do país, ainda bastante vinculado às linguagens tradicionais na década de 1970. Naquele momento, é histórica sua participação no Nervo Óptico, coletivo de artistas cuja produção representou não somente um avanço formal, mas uma ativa crítica às demandas do mercado da arte, visto que os cartazetes, como ficaram conhecidas as publicações do grupo, tinham uma circulação alternativa, independente da mediação das galerias de arte.

Para a artista, o dispositivo fotográfico é um meio de apurar o olhar e de estender a percepção do sentido visual para além dos limites orgânicos; um modo de criar a partir de uma realidade existente, conduzindo a visão do espectador para elementos e aspectos que de outra forma passariam despercebidos. Jogo da Memória I (1983) integra a série “Fêmina”, também composta pelos trabalhos Jogo da Memória II e III e Madona anos 80. Nessa obra, Vera Chaves traz, de modo condensado, procedimentos familiares a sua inquietação poética: a desconfiança do estatuto de verossimilhança da fotografia, a manipulação posterior de imagens prontas e a hibridização das linguagens, com mistura de técnicas e intervenções nos originais. Desde a forma, passando pelo resultado até a titulação do trabalho, o espectador é colocado diante de um jogo. Isto é, frente a um mover de peças, iniciado pelo prazer lúdico e ligado a estratégias mentais acionadas por essa complexa movimentação. Mais do que isso, se as imagens suscitam jogos de pensamento e percepção, é sempre com o observador que a partida se dá.

Vera Chaves Barcellos (Porto Alegre/RS, 1938), Jogo da Memória I, 1983. Serigrafia sobre papel, 75,8 x 55,9 cm. Pinacoteca Barão de Santo Ângelo. Reprodução: Acervo artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

A figura central de uma mulher, ocupando dois terços da serigrafia, indica um protagonismo dessa distinta senhora burguesa que consta ser Godiva Tubino Guerra, mãe da artista. Há aqui um aceno psicanalítico em relação à participação materna na construção da cosmovisão da filha, jogo de espelhos intrínseco à constituição da identidade humana. O preto e branco do retrato ganha novas cores, um gesto de presentificação circunscrito na pretensa imobilidade da imagem. A relação mãe e filha possivelmente seja a jogada central da obra, a partir da qual outras se estabelecem. A inserção de uma auréola por detrás da cabeça de Godiva pode sugerir uma vinculação à grande mãe ocidental, Maria, a mulher santificada e um protótipo de comportamento feminino. Nesse sentido, levando em conta o fundo em sépia, veem-se delineadas diferentes mulheres, cujas figurações parecem ter sido extraídas de catálogos de moda feminina, com evidente referência visual à mitologia greco-romana das três Graças, representando a passagem do tempo.

As quatro imagens na parte de baixo da obra, alinhadas sequencialmente, não parecem fazer parte de um ordenamento lógico ou nitidamente narrativo. São cenas que retratam vivências de um tempo passado e que completam o tabuleiro criado para o jogo proposto. Os referentes não são explícitos, e justamente aí reside um nó conceitual que remete à natureza confusa e conflituosa da memória humana, formada por sombras e espectros. 

Vera Chaves Barcellos (Porto Alegre/RS, 1938), Jogo da Memória II, 1983. Serigrafia sobre papel, 56 x 75,9 cm. Pinacoteca Barão de Santo Ângelo. Reprodução: Acervo artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

Diego Groisman é doutorando do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da UFRGS e diretor do espaço independente Casa Baka.

Quinzenalmente, estudantes e pesquisadores apresentam obras da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo a partir de diferentes aspectos. A seção tem curadoria de Camila Monteiro Schenkel e Gabriela Motta.