A subversão da moral nos contos de Silvina Ocampo

O cão que observa a ganância de suas tutoras, a mãe que prende o filho no sótão para deitar-se com o amante, a criança que deseja a morte do melhor amigo. Esses são os narradores inventados pela escritora latino-americana Silvina Ocampo que guiam os leitores por histórias cruéis e desfechos incômodos. A Fúria, obra publicada em 1959 e traduzida para a língua portuguesa seis décadas depois, reúne 34 contos e é o primeiro livro argentino a integrar a lista de Leituras Obrigatórias do Concurso Vestibular da UFRGS – em 2027, substitui Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. 

Nos enredos montados pela autora, a vingança, o ciúme, a cobiça e o rancor são sentimentos permanentes. “Quero que você saiba que você deve a sua felicidade ao ser que mais te despreza e te detesta no mundo. Quando desaparecer esse ser que te enfeita com sua inveja e te embeleza com seu ódio, sua felicidade estará acabada junto com a minha vida e o fim desta carta”, confessa uma amiga à outra, no texto “Carta perdida em minha gaveta”.

Outro elemento central nas tramas de Silvina é o ambiente doméstico. A casa, os quartos, a sala e a cozinha equivalem à totalidade dos cenários nos quais os casos se desenrolam. É justamente nesse espaço íntimo, rotineiro e supostamente tranquilo que as maiores atrocidades acontecem, revelando o que há de mais obscuro na natureza humana e tumultuando a enganosa ordem familiar que a aristocracia buscava forjar. 

Compreender a produção da caçula Ocampo passa, necessariamente, por conhecer sua origem: filha da burguesia argentina, Silvina procurou a disrupção e dedicou boa parte de suas palavras aos dilemas de quem não parecia consigo. “Mesmo sendo uma mulher abastada, ela foi uma observadora apaixonada pelo andar de cima da casa, onde circulavam os empregados, as cuidadoras, as instrutoras”, explica a doutora em Letras pela UFRGS e professora de Língua Espanhola na Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira Da Cunha, em Novo Hamburgo, Raquel de Paula. Em sua prosa poética, a intelectual põe costureiras, governantas, babás e cabeleireiras na essência da narrativa, alçando essas mulheres ao protagonismo.  

Já que também era pintora, a artista por trás de A Fúria preocupava-se consideravelmente com o detalhe dos objetos e das cenas. É possível, então, identificar a classe de narradores e personagens por meio do tecido da roupa que usam, das flores que admiram e das tecnologias a que têm acesso. “Vestia uma saia bem rodada, de organdi branco e com uma anágua engomada, cuja renda aparecia ao menor movimento”, relata em “As fotografias” para ilustrar a indumentária de uma aniversariante. 

Unidade por meio do insólito 

Ao valer-se de distintos gêneros textuais, como a carta, o bilhete e a biografia, e ao acionar variados sujeitos para enunciar suas histórias, tal qual o rico, o pobre, o animal e a criança, Silvina amarra os 34 contos pelo insólito, segundo a doutoranda do Instituto de Letras, Ana Laura Horbach. A pesquisadora realça que o desmascaramento da realidade controlado pela escritora não se dá por eventos sobrenaturais, mas por intermédio da perversidade dos seres humanos. 

“Todos os contos têm um sentimento interior arraigado, algo de muito profundo e intenso que sai para fora. Nada do que ela queria escrever era simplesmente a evidência, ela não estava olhando as pessoas nas suas virtudes. Ela estava olhando para tudo aquilo que é recalcado, que é estranho”

Ana Laura Horbach

Em “Voz ao telefone”, um garoto incendeia a residência onde vive na intenção de matar a própria mãe. Com apoio dos convidados de uma festa infantil, que assim como ele são crianças, Fernando decide trancar as adultas num cômodo e utiliza lenha e papéis de presente para fazer fogo. “Claro, as mulheres se assomaram à janela, mas estávamos tão interessados no incêndio que mal as vimos”, afirma o moleque, orgulhoso. “Algumas figurinhas se estragaram: uma delas é a de uma senhora carregando um menino nos braços, um pouco parecida com a minha mãe e comigo”, completa. 

Alteração dos papéis de gênero 

Não é somente a infância que está desassociada da fragilidade e da imagem angelical na obra de Ocampo. O feminino é reiteradamente questionado, reposicionado na dinâmica social e, portanto, subvertido. O professor de pós-graduação da Universidade de Santa Cruz do Sul, Rafael Guimarães, defende que a escritora modifica a representação do gaucho, isto é, do indivíduo vinculado à área rural cuja atuação política e militar foi crucial na independência da Argentina e do Uruguai. De maneira geral, o gaucho é descrito como livre, valente e sem paradeiro, assim como o gaúcho no Rio Grande do Sul. No entanto, Silvina reconfigura esse imaginário concedendo outras características ao guerreiro do campo.

“O cuidado é atribuído, dentro de uma cultura patriarcal, ao feminino, mas é ele [o gaucho] que cumpre esse papel. Ele dá o suporte para o bichinho que está nascendo, ele sonha em casamento”, menciona o estudioso, referindo-se ao narrador de “A última tarde”.  Em “Azeviche”, por outro lado, quem se assemelha ao cavalo não é o homem viril habilidoso com facas, outras qualidades relacionadas ao gaucho, e sim uma mulher que recusa ser domesticada pelo companheiro. 

“A grande potência da escrita dela [de Silvina] está nesse jogo emocional e psicológico de apropriar-se do outro para se interpretar. E eu digo para os meus alunos, nós precisamos dessa transgressão. Em tempos como os que vivemos hoje, em que as pessoas estão cada vez mais fechadas nos próprios mundos e escutando as vozes da própria cabeça, esse exercício é genial.”

Raquel de Paula

A cada final desconfortável e começo imprevisível, Silvina Ocampo caminha com o leitor pelo surreal, fazendo-o interrogar a si mesmo sobre o bem e o mal que coexistem no comportamento humano. Sua escrita foi marcante o suficiente para influenciar uma geração de autoras que agora inauguram novos horizontes a partir do seu legado de irreverência. 

Júlia Mistro (Campinas /SP, 6 de março de 1994). Deus ou algo parecido com ele, 2026, nanquim, giz pastel oleoso e grafite. 29,7 x 42 cm

Com o objetivo de ampliar as experiências de leitura, o JU produz, desde 2018, uma série de reportagens em que especialistas destacam aspectos e fazem análises interpretativas das obras indicadas pela Universidade. Acompanha cada texto a criação de artistas convidados que dialoga com a obra e a biografia de autoras e autores. Veja todas as reportagens aqui.