Conjuntura | Raphael Martins e Aneli Venturini, do IEPE, explicam que fim do bônus de Itaipu fez o preço do quilowatt-hora aumentar 6%
*Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Depois de um mês de agosto com energia elétrica segurando a inflação, em setembro as tarifas da conta de luz empurraram o índice para cima. O cenário se explica pelo fim do bônus de Itaipu, crédito que havia barateado a conta anteriormente. O quilowatt-hora saiu de R$ 1,23 para R$ 1,30, apresentando alta de 6,15%. O Índice de Preços ao Consumidor, medido pelo Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas da UFRGS (IEPE), subiu 0,50% em setembro, contra 0,22% em agosto.
Esse é o retrato de um mês em que a inflação veio de poucos itens com grande impacto no orçamento subindo de maneira considerável, e não de uma alta generalizada dos preços. O botijão de gás de 13 quilos, por exemplo, passou de 118,47 para 128,13 reais, o oitavo mês seguido de aumento. Em dezembro de 2025, custava 101,22 reais. São quase 27 reais a mais em nove meses, o equivalente a 26,6%. É o tipo de alta que não aparece com tanta frequência no orçamento como o supermercado, mas que reaparece na hora de trocar o botijão. O aluguel médio pesquisado subiu de 2.063 para 2.141 reais.
Na outra ponta, dois itens puxaram o índice para baixo de maneira considerável. O ingresso de cinema caiu de 37,31 para 29,98 reais, tendo um recuo de 19,65% e, assim, apresentou a maior queda individual do mês. Um dos motivos para essa deflação foi o evento da Semana do Cinema, campanha nacional de ingressos promocionais realizada entre 10 e 16 de setembro. É um alívio com data de validade: em outubro, o preço tende a voltar ao nível anterior. A gasolina comum, por sua vez, caiu de 6,09 para 5,95 reais o litro, sem o caráter claramente temporário observado no cinema.
Nos alimentos, os hortifrútis fizeram o caminho inverso do mês passado. A batata inglesa, que havia liderado as quedas de agosto, subiu de 5,20 para 5,79 reais o quilo. O tomate passou de 8,21 para 8,98 reais, e o limão, de 6,23 para 8,07reais, alta de quase 30%. São produtos que oscilam com a safra e o clima e cujas variações de dois dígitos se repetem em ambas as direções ao longo do ano.
O resultado dessas variações de itens sazonais aparece com ainda mais força no Cesto Básico do IEPE, que reúne 49 produtos de alimentação, higiene e limpeza. Em setembro, ele custou 1.103,48 reais, um aumento de 1,65% em relação ao mês de agosto, segunda maior alta do ano, ficando atrás apenas de abril.
Grande parte da variação veio de quatro itens: gás, batata, tomate e cebola. Apesar da alta significativa no preço do Cesto Básico, ainda há quedas importantes: o café caiu pelo oitavo mês seguido. A dúzia de ovos recuou para 10,55 reais e o quilo do frango, para 18,24 reais.
Olhando para o acumulado de doze meses, a situação dos preços parece mais favorável ao consumidor em comparação aos acumulados medidos anteriormente. Em doze meses, o IPC/IEPE acumula 5,84%, contra 6,14% até agosto e 6,81% até junho. A desaceleração é consistente e é mais informativa do que a alta pontual de setembro. A alimentação segue como âncora, com 3,12% em doze meses, bem abaixo da inflação geral, enquanto os serviços permanecem como o foco de pressão: o grupo Outros Serviços acumula 9,13% de aumento nesse período.
A leitura, portanto, é dupla. O resultado de setembro foi marcado por movimentos concentrados e, em vários casos, pontuais: o fim do bônus de Itaipu elevou a conta de luz, a Semana do Cinema reduziu temporariamente o preço dos ingressos e os hortifrútis voltaram a oscilar para cima. No horizonte de um ano, porém, o movimento de desaceleração não foi interrompido. Mais importante do que o 0,50% isolado de setembro é perceber que esse movimento continua desigual: a alimentação sobe menos que o índice geral, enquanto aluguel, gás e serviços seguem pressionando o orçamento.
Os dados completos estão disponíveis no Boletim Econômico IEPE de setembro de 2026.
Raphael Castro Martins é economista e Aneli Torres Venturini é estatística do Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas (IEPE) da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS.
Periodicamente, profissionais de diversas áreas ligados à UFRGS escrevem sobre política, economia, relações internacionais e outros temas relacionados à conjuntura. A seção tem curadoria de Tatiany Lukrafka.
As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.





