Convergências de gênero, raça e etnia

Crítica | Análise da equipe do Observatório de Comunicação Pública (Obcomp) discute o alcance das abordagens das edições de maio do JU na promoção do debate público em termos das diversas interseccionalidades

*Foto de capa: Flávio Dutra/Arquivo JU 12 fev 2021

A análise das convergências entre gênero, raça e etnia favorece o olhar sobre o questionamento das desigualdades sociais, abrindo um novo prisma para observar os estratos da sociedade a partir de recortes historicamente invisibilizados. Foi isso que buscamos fazer ao analisar as edições do mês de maio do Jornal da Universidade, que permitem ratificar a sua dimensão pública enquanto instância de circulação de temas de interesse público, dentro e fora da universidade.

Para esse debate, o JU apresentou públicos, instituições e atores para identificar as diversas estruturas de opressão que condicionam a organização das sociedades. Com isso, o Jornal se fortalece como a instância que promove o debate público, contribuindo para a discussão sobre questões que dizem respeito à população historicamente submetida a padrões de dominação e problematizando a perspectiva teórica do marxismo clássico, já que o aspecto determinante para a posição social não é apenas a dificuldade de acesso aos meios de produção

Dar espaço à problemática que envolve gênero, raça e etnia é reconhecer pesquisas e políticas de inclusão das universidades e apresentá-las ao público. Essa visibilidade pode ser assegurada a partir de políticas públicas relacionadas ao resultados censitários sobre o mapeamento desses grupos sociais, como ressalta a matéria  sobre a importância do recenseamento do IBGE para a compreensão do país, pauta da edição #54. A abordagem do JU aprofundou a questão já tematizada pela imprensa brasileira sobre a dificuldade de que o Censo ocorra ainda em 2021, devido à redução orçamentária (96%) e às dificuldades impostas pela pandemia. Os argumentos levantados relacionam essa situação ao projeto de desmonte das políticas públicas do governo federal, que não parece interessado em conhecer o Brasil atual, diante dos avanços e retrocessos ocorridos na última década. A não realização do Censo nacional manteria a invisibilidade sobre as conquistas históricas de grupos marginalizados excluídos devido a gênero, raça, etnia, por exemplo.

Olhar as questões de gênero permite analisar desafios impostos às mulheres, com papel diferenciado na dinâmica social em relação aos homens, como ressalta a edição #53, no embalo da comemoração do Dia das Mães. São importantes contribuições para o debate sobre questões ligadas ao protagonismo da mulher, como a matéria sobre o Parent in Science, referente à maternidade no Currículo Lattes e os desafios das mulheres na carreira científica. Outro aspecto abordado foi a maneira positiva como têm sido modificados alguns dos aspectos vinculados à assistência, ao nascimento e humanização do parto. É perceptível o cuidado do JU em apresentar personagens negras e indígenas, dialogando com os princípios de diversidade e pluralidade, colocando-as como centrais à narrativa. 

Constatações sobre as mulheres e suas posições sociais, políticas e econômicas abaixo daquelas obtidas pelos homens também podem ser relacionadas à análise de questões étnico-raciais e às vias de dominação social. A história de quase quatro séculos de escravidão no Brasil revela a solidez de dinâmicas baseadas em estratégias racistas de opressão. São questões valorizadas na edição #55, que oferece argumentos capazes de impulsionar o debate público sobre racismo a partir da divulgação do importante evento realizado na UFRGS, a Semana da África. O tema poderia ocupar maios espaço, já que a edição #55 contém apenas seis produtos (a edição #53 conta com oito, enquanto a #54 e a #56 têm nove cada uma – desconsiderando-se as Cartas ao Leitor).

Diante dos conteúdos é possível reunir informações sobre a construção simbólica do negro e da África e, especialmente, sobre a maneira como esse conhecimento é trabalhado nas escolas. Também é possível questionar se existe uma preocupação interdisciplinar em relação ao assunto ou se esse conhecimento continuará sendo valorizado e lembrado apenas durante as aulas de história. É importante mencionar que as discussões sobre gênero e raça promovidas pelo JU ocorrem em um dos momentos em que o debate sobre a vida tem sido constantemente acionado. Nessa direção, o JU poderia ter aprofundado as consequências cotidianas do racismo estrutural e explorado a ideia da colonização e da dominação europeia sobre os saberes e os modos de produção, tendo por consequência a materialização de discussões que fazem parte da realidade e que mantêm o racismo

A pandemia é mantida no JU como tema permanente (exceto na edição #55) e justificado, já que está vinculado à ruptura do funcionamento da Universidade e à produção de conhecimento ali gestado. A pandemia da covid-19 afeta a vida em sociedade assim como acirra as desigualdades sociais. São abordagens diversas que a cada edição oferecem elementos ao debate público sobre suas diversas interseccionalidades. É possível perceber o esforço do JU em compreender os impactos da pandemia e compartilhar os principais aspectos. Nesse sentido, o debate racial sempre é um tema relevante, pois permite acionar discussões sobre a importância da vida, tanto do ponto de vista das desigualdades entre negros e brancos quanto sobre as diversas afetações da pandemia, assim como o acesso às políticas públicas de saúde.

Questões sobre o direito e a precariedade da vida trazidos pelo racismo estão no debate nacional e internacional a partir de acontecimentos como a recente Chacina do Jacarezinho e os assassinatos de George Floyd e Marielle Franco. O JU incorpora acontecimentos públicos como pauta jornalística e, assim, cumpre os objetivos relacionados à Comunicação Pública. Ao mesmo tempo que chamam atenção para problemas públicos, tais questões revelam e provocam experiências transformadoras de um passado (possível de descrição e normalização), mas também de um futuro (ao abrir novas possibilidades de experiência). Nesse sentido, uma reflexão que pode ser feita a partir das considerações apresentadas aqui é como, por exemplo, a promulgação da Lei de Cotas afetou a percepção do Jornal da Universidade sobre os temas de interesse público e a própria produção e circulação de saberes.

*Na foto de capa, no Porto Seco, em Porto Alegre, símbolo em carro alegórico representa a luta das mulheres negras, um dos temas do enredo da Escola de Samba Acadêmicos do Gravataí no último carnaval de rua realizado em Porto Alegre antes da pandemia.


O Observatório de Comunicação Pública é mantido por doutorandos, mestrandos e pesquisadores que integram o Nucop – Núcleo de Pesquisa em Comunicação Pública e Política, grupo de pesquisa coordenado por Maria Helena Weber e vinculado ao PPGCom/UFRGS.