*Publicado na Edição 225 do JU

A crescente dinamicidade do mundo do trabalho demanda de organizações e de trabalhadores a constante necessidade de desenvolvimento profissional. No serviço público, impera o desafio de ampliar a compreensão sobre as demandas da sociedade e a capacidade de resposta institucional frente às expectativas de seus usuários. De acordo com o sociólogo e economista Philippe Zarifian, para que a competência do trabalhador seja aprimorada e manifestada, é fundamental que o profissional tenha seus recursos internos desenvolvidos (formação, experiências, conhecimentos, habilidades e atitudes), mas que também conte com recursos coletivos disponíveis de responsabilidade da organização em que trabalha, como programas de qualificação e aperfeiçoamento, acesso a guias e à informação estruturada e o apoio de colegas e chefia.
Compreendendo, portanto, a importância do desenvolvimento profissional, as organizações têm destinado investimentos significativos à formação de seus profissionais. Diante de significativos volumes financeiros investidos em qualificação, é crescente o esforço de pesquisas acadêmicas em identificar os efeitos que essas ações têm produzido no contexto do trabalho.
Na UFRGS, aproximadamente 70% do quadro técnico-administrativo em educação possui educação formal acima daquela exigida para o ingresso no cargo. Nesse contexto, identificam-se estímulos tanto no âmbito do Plano de Carreira dos Cargos Técnico-Administrativos em Educação (PCCTAE) quanto no âmbito institucional, no qual a Universidade apoia a realização de cursos de educação formal por meio de incentivos pedagógicos, cursos customizados para atendimento de demandas universitárias e afastamentos para estudo.
Considerando as diretrizes da Política Nacional de Desenvolvimento de Pessoal, entre as quais é prevista a necessidade de avaliar os resultados dos investimentos realizados na qualificação de servidores públicos, e a necessidade de a própria Universidade avaliar a contribuição de seus programas de formação e de apoio ao estudo formal, em minha dissertação de mestrado pesquisei o impacto da qualificação stricto sensu no trabalho de servidores técnico-administrativos da UFRGS.
“…identificou-se que a realização de mestrado ou doutorado contribuiu positivamente para o desenvolvimento da autoconfiança, da motivação e da abertura a mudanças.”
Mateus Dalmoro
Foram analisados 211 questionários, o que representa 59% do total de técnicos administrativos que realizaram cursos de mestrado ou doutorado entre 2014 e 2017. Por meio deles, busquei identificar mudanças no comportamento do servidor, no contexto de seu trabalho, associadas à realização de cursos stricto sensu, além de averiguar o suporte oferecido pela instituição para que a aprendizagem se manifeste em forma de competência no trabalho e produza impactos no comportamento do servidor. Foram considerados suportes o apoio da chefia e da equipe de colegas, além das condições materiais.
O impacto da qualificação no trabalho foi analisado em termos tanto operacionais como comportamentais. No que diz respeito ao impacto operacional, os cursos stricto sensu contribuíram positivamente para a minimização de erros, a maior agilidade e qualidade dos fazeres quando as competências aprendidas nos cursos foram utilizadas no trabalho. Já em termos comportamentais, identificou-se que a realização de mestrado ou doutorado contribuiu positivamente para o desenvolvimento da autoconfiança, da motivação e da abertura a mudanças. A análise identificou ainda a importância do papel da chefia de criar oportunidades (e um ambiente de trabalho) que favoreçam a aplicação dos conhecimentos desenvolvidos em cursos stricto sensu para que mudanças operacionais e comportamentais sejam potencializadas no trabalho do servidor.
Foi nos cursos de doutorado que se apresentaram os maiores índices de desempenho em termos de impacto operacional e comportamental, com diferenças significativas quando comparados aos dos cursos de mestrado. Já em relação aos cursos de mestrado não foram encontradas mudanças expressivas entre as modalidades acadêmica e profissional em relação aos impactos operacional e comportamental, indicando que, para a amostra em questão, a modalidade do curso não influencia as intervenções no trabalho.
Em relação à aplicabilidade das pesquisas ao trabalho do servidor, 81% dos respondentes indicaram que suas pesquisas estavam relacionadas diretamente com o seu trabalho na Universidade, sendo que 34% já as aplicaram e 20% estavam com a sua aplicação em desenvolvimento. Quando questionados sobre a possibilidade de replicar os resultados de suas pesquisas para outros setores da UFRGS, 78% dos respondentes acreditam que seus estudos podem ser compartilhados e utilizados por outros setores da instituição.
Identificou-se, ainda, que, quanto maior o estágio de aplicação das pesquisas (não iniciada, em desenvolvimento e já aplicada), maior seu impacto no comportamento do trabalhador, com diferenças significativas entre esses estágios.
Os afastamentos parciais ou totais para a realização de cursos stricto sensu demostraram associação significativa com pesquisas aplicadas diretamente ao trabalho do servidor. Uma hipótese para esse resultado é a de que a percepção positiva de apoio institucional, traduzido em melhores condições de tempo para estudo do trabalhador, relacione-se com a sua disposição para a realização de pesquisas aplicadas ao trabalho, caracterizando uma espécie de contrapartida do trabalhador para com a instituição.
Pode-se afirmar que a pesquisa quantitativa indicou que cursos de mestrado e doutorado contribuem para o desenvolvimento das competências necessárias ao contexto moderno de trabalho e que produzem positivos impactos operacionais e comportamentais na atuação de servidores públicos não vinculados à carreira docente, como os servidores técnico-administrativos em educação. Ainda, identifica-se alto grau de comprometimento dos respondentes com a Universidade, ao buscarem realizar pesquisas acadêmicas alinhadas a demandas institucionais e de aplicabilidade direta ao seu trabalho. Tais resultados ratificam a relevância de programas institucionais que estimulem a educação formal de alto nível.




