A atualidade do teatro de Aristófanes

Eu respondo que não, pobre infeliz; Não manter um diálogo conosco, não deixar que criticássemos resoluções suicidas pra todo o país, já era demasiado grave! Mas chegamos ao ponto em que não havia mais nenhum homem válido na cidade. Recrutadores perguntavam pelas ruas: “Mas não ficou nenhum homem em toda Atenas?” e recebiam a resposta trágica: “Nenhum. Nem um digno do nome”. Foi aí que decidimos que era chegada a hora, que a salvação da Grécia dependia agora das mulheres. Abram os ouvidos à nossa sensatez, fechem as bocas que já usaram tanto e tão inutilmente. Chegou a nossa vez de apontar o caminho.

Trecho de Lisístrata

Escrita por Aristófanes em 411 a.C., Lisístrata é uma obra que adquiriu novos sentidos com o passar dos séculos. A trama conta a história de Lisístrata, uma ateniense que, cansada da ausência dos homens da cidade por motivos de guerra, percebe que cabe às mulheres o papel de intermediar o conflito pela paz. Para tanto, a saída encontrada pela protagonista é inusitada: uma greve de sexo! Seu plano era simples: até que a paz não fosse assinada, as mulheres da cidade deveriam se abster de fazer amor com os homens.

A peça, inicialmente exibida nas Leneias – festival em homenagem ao deus Dionísio –, faz referência à Guerra do Peloponeso (431 a.C.–404 a.C.), conflito alimentado pela rivalidade entre Atenas e Esparta. “Lisístrata se insere nesse contexto como um libelo utópico e fantasioso pelo fim dos conflitos, que só poderia ser articulado no mundo da comédia, mas que também se coloca como um dos mais poderosos (e urgentes) apelos à paz”, explica Rafael Brunhara, professor de língua grega do Instituto de Letras da UFRGS.

Ressignificações

O professor de História da UFRGS Anderson Zalewski Vargas, especialista em História Antiga, aprova que o vestibular esteja reconectando-se às obras do Mundo Antigo e classifica a seleção de Lisístrata como promissora.

“Se eles [vestibulandos] conseguirem superar a barreira do estranhamento e se apropriar – e se apropriar significa encontrar sentidos contemporâneos –, a experiência será muito recompensadora”.

Anderson Zalewski Vargas

Quando escreveu a peça, Aristófanes tinha em mente criar uma história que soasse ridícula. Em Atenas, as mulheres não eram consideradas cidadãs, então lhe pareceu que um enredo sobre revolta feminina cumpriria a demanda pelo ridículo. Jamais passara pela sua cabeça que sua protagonista pudesse virar um ícone da luta pela emancipação feminina. “Se eu for dar aula, eu vou dizer que não se pode falar de feminismo na Grécia Antiga […] Isso é uma coisa. Outra é a interpretação da peça que foi feita ao longo dos séculos. Contemporaneamente, ela é um ícone feminista, independentemente de eu dizer que isso é equívoco ou não. E isso não é errado. Porque essa é a interpretação contemporânea”, sintetiza Anderson.

O professor ainda projeta que a leitura possa gerar estranheza num primeiro momento: “Para os alunos, pode ser chocante. Mas é chocante porque eles desconhecem a presença da peça na história recente do Brasil”. Em 1976, ainda durante o regime militar, Chico Buarque compôs a música Mulheres de Atenas, provando, novamente, o legado de Lisístrata na contemporaneidade. A música foi escrita para a peça Lisa, a mulher libertadora, de Augusto Boal, que jamais foi encenada no Brasil.

Autor e personagem

“Aristófanes é um dos poetas gregos mais habilidosos que nos chegou: sua linguagem transita do vulgar para o lírico e do cotidiano para o fantástico com extrema naturalidade e invenção”, define Rafael. Além da utilização do fantástico, Aristófanes notabilizou-se pelas sátiras sociais. Era comum que o autor utilizasse suas obras para tecer críticas a personalidades e acontecimentos da época, jamais hesitando em utilizar uma linguagem obscena e repleta de referências a sexo, outra marca de seu trabalho. Além de Lisístrata, o autor foi o criador de outras peças icônicas da comédia grega, como As nuvens, As vespas, Assembleia de mulheres, Os pássaros e As rãs.

Lisístrata – cujo nome significa “aquela que dissolve tropas” – é entendida por Anderson como “estranha”. Isso porque ela representa um tipo raro na Grécia Antiga: uma mulher instruída e capaz de se posicionar. Em Atenas, a educação para as mulheres só era possível mediante autorização do marido e estava restrita às famílias capazes de arcar com os custos. Assim, tradicionalmente, o papel feminino se restringia à gestão dos lares. O professor ainda destaca que, apesar de agir revolucionariamente, Lisístrata não pode ser considerada uma revolucionária, pois ela luta pelo restabelecimento da ordem, e não pela construção de uma nova.

Rafael, por sua vez, enxerga relação entre a personagem e uma figura conhecida da mitologia grega: “Ela é rígida em seus propósitos e assume muitas das qualidades que a Antiguidade atribuía ao sexo masculino […]. São esses atributos que a levarão à vitória e, talvez não por acaso, a aproximam muito da deusa padroeira da cidade, Atena”.

Arte: Guilherme Leon

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Guilherme Leon é bacharel em Artes Visuais e Ciência da Computação pela UFRGS e, como artista, trabalha com arte generativa e as intersecções entre os campos da arte e da computação.