Corpos artísticos da UFRGS fomentam o desenvolvimento de práticas culturais na universidade

Cultura | Grupos de música, teatro e dança promovem espaços de vivências e aprendizados para estudantes dessas áreas, além de apresentações, concertos e recitais para toda a comunidade

*Foto: Gustavo Diehl

A cultura é um dos pilares mais importante dentro de uma sociedade, pois é através dela que o indivíduo desperta toda a sua criatividade, sensibilidade e imaginação. Desde modo, a fim de desenvolver e praticar manifestações culturais dentro da universidade, estão distribuídos pelos cursos de graduação em Dança, Teatro e Música diversos grupos que visam explorar as infinidades que a arte proporciona.

Atuando como um laboratório prático, esses grupos possibilitam o desenvolvimento profissional e artístico de alunos e docentes. Um exemplo disso é o trabalho realizado pelo Projeto de Extensão em Artes Cênicas do Departamento de Arte Dramática (DAD) da UFRGS “Teatro, Pesquisa e Extensão”. A iniciativa, mais conhecida como mostra TPE, tem como objetivos abrir espaço para os discentes terem a experiência de realizar pesquisas no âmbito das artes cênicas e possibilitar aos alunos experiência na produção de espetáculos. Segundo Henrique Saidel, chefe do DAD, o projeto é de extrema relevância para o desenvolvimento dos estudantes.“ É muito importante para os alunos, porque uma coisa é tu criares o teu trabalho dentro da sala de aula, outra coisa é tu continuares os trabalhos”, diz. “Isso já contribui para que a própria pesquisa se desenvolva e se formalize num produto a ser levado para o público”.

A fim de divulgar os espetáculos preparados por alunos, o projeto realiza anualmente exibições na sala Qorpo Santo, no Câmpus Centro da UFRGS. Todos os anos, são selecionados sete trabalhos produzidos no ano anterior em disciplinas, projetos de extensão ou de pesquisa vinculados ao curso de Teatro. Após essa seleção, cada espetáculo fica em cartaz por um mês na Qorpo Santo.

Além do TPE, a graduação em Teatro conta com aproximadamente sete grupos que oportunizam uma relação mais íntima dos discentes com o universo das artes cênicas. De acordo com Henrique, essa experiência prática adquirida é de extrema importância, visto que muitos aspectos da criação artística são aprendidos apenas na prática. “É importantíssimo ter uma preparação, ter um estudo de base, ter todo um trabalho anterior, isso é o que nos prepara, mas não é a coisa em si”, relata. “Porque o teatro não acontece só na sala de ensaio, ele não acontece só com um artista, o teatro ele só se efetiva enquanto linguagem artística quando ele está em contato com o público”, finaliza.

Dança

Com objetivo de provocar a transversalização de saberes através das múltiplas formas de se pensar o mundo, a graduação em Dança da UFRGS tem como objetivo capacitar profissionais na área proporcionando um espaço de reflexão, formação, produção artística e discussão sobre a arte da movimentação corporal através de sons ritmados. O curso reúne mais de 10 grupos de pesquisa e extensão sobre diversos estilos, e um deles é o Ballet da UFRGS, que tem como objetivos o aperfeiçoamento na formação de bailarinos, promover a difusão cultural e aproximação da arte com a comunidade acadêmica. De acordo com Lisete Arnizaut Machado de Vargas, coordenadora do projeto, o grupo teve início a partir da disciplina de dança clássica. “Eu notei que havia muitas alunas com bastante talento para dança clássica, então resolvemos fazer um grupo, uma atividade de extensão”, conta.

Em seus 12 anos de história – completados neste mês – o projeto já realizou várias apresentações em espaços culturais da universidade, além de ter contribuído na formação de diversos profissionais. “Nós criamos muitas coisas, muitos espetáculos. Formamos muitos bailarinos, coreógrafos, figurinistas, cenógrafos, produtores, ensaiadores”, diz. “Todos esses profissionais do mundo do espetáculo, da dança cênica nós conseguimos trabalhar, desenvolver e aperfeiçoar através do nosso projeto de extensão”, finaliza Lisete.

A grande quantidade de profissionais qualificados formados pelo projeto é reflexo de toda estrutura e suporte oferecidos pela iniciativa, como ter um local adequado para ensaios, por exemplo. De acordo com Lisete, todo esse suporte é essencial para o desenvolvimento dos alunos, além do apoio da Pró-Reitoria de Extensão. “Nós temos uma sala específica para prática da dança dentro do nosso curso com piso adequado e altura adequada, barras, espelhos”, relata.

Outro grupo de relevância que compõe o Núcleo de Pesquisa e Extensão em Dança é o Tradição Cultura Herança (Tchê UFRGS). Coordenado pela professora Maria Luisa Oliveira da Cunha, o projeto visa levar a cultura gaúcha ao mundo através da dança. Criado em 2006, o grupo já realizou inúmeras apresentações dentro e fora do Brasil. Destinado à comunidade acadêmica e também à comunidade externa à universidade, a iniciativa fomenta a prática dessas danças com base em pesquisa histórica, propagando a tradição e a cultura gaúcha na esfera universitária. 

Música moderna e clássica

Potencializando o ensino e a difusão da música no estado, o Departamento de Música do Instituto de Arte da UFRGS localiza-se em um polo cultural estratégico da América Latina. Reunindo uma orquestra sinfônica, três orquestras de câmara e dezenas de coros, o departamento possibilita aos alunos experiência artística, conhecimentos fundamentais à prática e ensino de música em todos os níveis, da graduação à pós-graduação.

Uma dessas iniciativas é a Orquestra do IA/UFRGS, criada durante a quarentena pelo maestro Carlos Völker-Fecher em parceria com o Instituto de Artes e com apoio da Pró-reitoria de Extensão. ”A orquestra foi criada em 2020, na modalidade a distância e, mesmo sem encontros presenciais, a gente realizou algumas gravações e alguns trabalhos”, conta o maestro, complementando que a iniciativa é vital para o cenário musical de Porto Alegre e importante para o aprofundamento nos conhecimentos sobre a música clássica. “Eu acho que, primeiro, toda universidade tinha que ter uma orquestra, seja ela pública ou não”, diz. “E a importância dela é grande no sentido de a gente poder realmente trabalhar a obras de compositores com um viés muito mais estruturado, no sentido de abordagens acadêmicas de pesquisas mais profundas”.

Imergindo em obras inéditas de compositores vivos, nacionais e acadêmicos, a orquestra tem como um dos objetivos trabalhar o pensamento musical atual. De acordo com Carlos, muitas vezes, dentro de uma visão da indústria cultural, as orquestras acabam não apresentando uma música mais moderna, pois muitas vezes o público não possui interesse.  “A Orquestra do Instituto de Artes preenche esse espaço de se debruçar melhor sobre o repertório, se debruçar melhor sobre o estudo, de se fazer obras inéditas, de fazer compositores vivos, e de ser uma alternativa, visto que aqui no Estado existem grandes orquestras”, conta.

“Então, dentro desse cenário, a gente vem apoiar, colaborar, porque a gente está qualificando cada vez mais os músicos para que venham tocar nessas orquestras, mas também oferecendo alternativas, olhares diferentes sobre a produção da música de concerto no Brasil.”

Carlos Völker-Fecher

Compondo os projetos de extensão de música do IA/UFRGS está o grupo de flauta doce “Flautarium”. Coordenado pela professora Lúcia Becker Carpena, a atividade surgiu em 1998, fruto de um desejo da docente e de alunos da graduação de música apaixonados pela arte. Em seus mais de 20 anos de história, a iniciativa já realizou diversas apresentações em Porto Alegre, cidades do interior do RS, Florianópolis, Recife e São Paulo, e também no exterior, na Alemanha e no Uruguai. Segundo Lúcia, o grupo é um dos mais longevos de flauta doce no país. “Dos grupos que tem em universidades federais, eu acredito que o Flautarium seja o mais antigo, em relação à continuidade. A tendência dos grupos é que eles apareçam e desapareçam, porque é muito difícil levar um projeto de tanto tempo adiante”. Possibilitando a alunos da graduação e pós-graduação um conhecimento mais profundo sobre o instrumento musical, o grupo realiza algumas colaborações com outros projetos vinculados à universidade, além de realizar apresentações nos espaços culturais presentes na UFRGS.   

Os desafios da pandemia 

A pandemia foi um momento de reestruturação para grande parte da sociedade, e um dos setores mais prejudicados neste período foi o cultural. Com a necessidade de se evitar o contato, os projetos que fomentam o desenvolvimento da arte dentro da universidade tiveram que se adaptar à nova realidade, buscando novas maneiras de fazer e levar a arte para o público. Para Henrique, o período foi particularmente complicado para o teatro, em função da necessidade de contato direto com o público. “Se você for pensar em outras linguagens artísticas, como cinema, audiovisual, música, você consegue ter uma experiência enquanto espectador estando na tua casa ou indo em algum lugar mais seguro, mas o teatro não tem essa opção, porque você tem que falar, você tem que estar lá naquele momento com aquelas pessoas, naquele ambiente, juntos.”

Sendo assim, buscando formas de manter a arte viva durante a pandemia, o teatro migrou para as telas dos computadores, celulares, televisores, promovendo experiências múltiplas e diferentes. “Teve muita discussão sobre se teatro feito pela internet é teatro ou não, até que chegou no momento que não fazia mais sentido essa discussão porque a gente tinha que fazer alguma coisa, porque o teatro é o que o teatro pode ser, a arte é o que a arte pode ser naquele momento”, destaca. Embarcando neste novo formato, durante a pandemia, a mostra TPE aconteceu de forma virtual, visando a pluralidade de pesquisas, as diversidades, as diferentes experimentações com o virtual e a tela como local de encontro. Além da mostra TPE, outros projetos adotaram as plataformas digitais durante o isolamento, como a Orquestra da IA/UFRGS que realizou concertos virtuais e disponibilizou a sua gravação em plataformas de streaming a fim de ampliar o alcance.

Importância dos projetos de extensão para a universidade 

Como uma ponte entre os pilares da pesquisa e do ensino com aplicação na sociedade, os projetos de extensão se tornam indispensáveis dentro de uma universidade, visto que possibilitam um aprofundamento em um campo específico de conhecimento. Deste modo, o trabalho realizado por iniciativas como o Ballet da UFRGS, o Flautarium, a Orquestra do IA/ UFRGS e o Teatro, Pesquisa e Extensão se tornam essenciais no âmbito acadêmico. De acordo com Lúcia, esses projetos são importantes, pois são meios de aplicação prática do conhecimento adquirido. “Esses grupos são absolutamente fundamentais porque é onde o aluno acaba exercitando o ofício de músico, além de ser importante para a universidade, porque ele é interface dela com a sociedade”, conta.

Lisete também reitera a importância dessas iniciativas para a formação dos alunos como profissionais. “Com a curricularização da extensão – a exigência legal de 10% da graduação estar ligada a atividades de extensão – nós temos que ofertar essas atividades e proporcionar aos nossos alunos essas experiências”, finaliza.