Isabella Brill e a música de concerto

Perfil | Pianista por vocação e bailarina por paixão, a jovem de 19 anos fala sobre sua passagem pela Universidade e sua trajetória marcada por conquistas

*Foto: Flávio Dutra/JU

A ligação de Isabella Brill com o piano é notada pela entrega de corpo inteiro ao movimento que a música pede enquanto toca. Atualmente, a jovem é estudante do instrumento na Bowling Green State University, localizada na cidade de Bowling Green, em Ohio (EUA). Admiradora e atualmente aprendiz de música de concerto, tem por inspiração compositores e intérpretes como Frédéric Chopin, Michelangeli, Martha Argerich, Richter, Alicia de La Rocha, Nelson Freire e Maria João Pires.

Isabella é natural de Novo Hamburgo, mas cresceu em Ivoti. Foi a primeira da família a ter contato com a música, e o incentivo partiu de seus pais. Começou, aos seis anos, a fazer aulas de piano no Instituto Ivoti com a professora Gisele Flach. A escolha do instrumento se deu porque sua melhor amiga à época também fazia piano. “Aí pensei: vou fazer igual a ela”, lembra bem-humorada. Hoje está convicta de que foi uma escolha certeira. Depois de um tempo, a amiga abandonou as aulas; Isabella nunca mais parou de tocar.

Da infância, guarda lembranças dos recitais e dos ensaios com a orquestra de que participava. Sua irmã, Angelina, começou a fazer aulas de violino. Na época, até formaram um duo. “Lembro-me de tocar nos recitais que tinha toda a última sexta-feira do mês no Instituto Ivoti. Eles me marcaram bastante”, recorda.

Vocação na música

A música envolve Isabella até a ponta do pé. Aos dois anos, antes mesmo de decifrar as teclas, começou a dançar balé. Participou de muitos festivais de dança, como o Sul em Dança, um dos maiores do Brasil. Comparecia sempre nos ensaios de grupo para as competições, mas em dado momento sentiu que carregava bastante compromisso e decidiu focar mais no piano. Ainda assim, continuou fazendo aulas uma vez por semana. Hoje, ela leva o balé como hobby e almeja continuar dançando. 

Isabella já quis ser veterinária, médica, até astronauta. Mas foi no Programa de Extensão do Departamento de Música da UFRGS que percebeu que queria ser pianista profissional. Sua professora de piano em Ivoti, Gisele, já via nela um potencial. “Ela queria que eu fizesse aula com alguém diferente pra ter um crescimento, aí deu a ideia de fazer com a professora Cristina Capparelli Gerling, que dava aula na extensão”, conta. Aos 13 anos, fez uma prova para entrar e realizou o curso pelos cinco anos seguintes, até 2020. 

Ao longo desse tempo dedicado ao piano, participou de inúmeros recitais e logo começou a colecionar muitas premiações. Começou em Porto Alegre e, nos anos seguintes, São Paulo, Curitiba e Uberlândia – neste, levou o primeiro lugar. Para ela, a sensação foi única.

Mesmo independente e segura de si, houve momentos em que a incerteza profissional predominou. Muitas vezes, Isabella pensou em desistir da música por ser uma área competitiva e que exige uma grande dedicação para se destacar.

“Sempre tem de estar estudando muito e, querendo ou não, acabamos nos comparando com os outros”

Isabella Brill

A pianista lamenta que, no Brasil, o instrumentista de música de concerto seja pouco valorizado. “As oportunidades de concerto são mínimas, é muito difícil conseguir ser um instrumentista que só trabalha com isso”, diz. Mas, mesmo com os desafios impostos, no fim, a jovem sempre voltava a buscar aquilo que fazia seu coração bater mais forte.

Por causa dessa realidade, ela sempre quis estudar fora do país. Porém, o desejo de atravessar o oceano para estudar música foi barrado pela pandemia, que iniciou quando ela estava terminando o ensino médio. Decidiu participar do processo seletivo para voltar à UFRGS – desta vez, para a graduação em piano. As provas específicas foram feitas remotamente – consistiram em realizar prova teórica e tocar peças de repertório solicitadas.

Isabella cursou os dois semestres de 2021 na UFRGS, todos a distância. Em abril deste ano, pôde vivenciar presencialmente a Universidade em um momento especial: apresentou um recital no Projeto Solo Piano, no Centro Cultural. Foi a primeira apresentação feita no espaço desde a paralisação de atividades devido à pandemia. Ela descobriu que iria se apresentar apenas duas semanas antes: foi o tempo que teve para preparar o repertório. “Foram semanas superintensas, de muito estudo, mas fiquei muito feliz de terem me convidado pra fazer a abertura”, revela.

A apresentação foi, para ela, uma despedida em grande estilo da UFRGS, já que, naquela época, soube que conseguiria uma bolsa na renomada universidade estadual estadunidense. Apesar de já ter viajado para o exterior sozinha, Isabella reconhece que a atual experiência é mais desafiadora, mas muito especial. Carregando na bagagem muitas conquistas, ela ainda projeta fazer uma pós-graduação na Europa. Está “para o mundo”, como diz. Reitera que o apoio de sua mãe, Cândida, e de seu pai, Marcelo, foi fundamental para que chegasse onde está. “Tudo o que eu consegui foi por causa deles”, declara.