“Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos.” O trecho mais conhecido do célebre discurso de Winston Churchill na Câmara dos Comuns em 4 de Junho de 1940, diante de uma iminente invasão alemã, evoca-nos o papel estratégico da liderança política, unificando a nação face à tragédia que se avizinha. Mais do que as palavras, a presença de Clement Attlee – líder dos trabalhistas, a principal força de oposição – no gabinete de guerra de Churchill é um marco dessa unidade.
Se fosse possível traçar um continuum, no extremo oposto estaria o já tristemente célebre pronunciamento de Jair Bolsonaro em 24 de março: histeria, gripezinha, resfriadinho, brasileiros em esgotos, ataques a governadores, prefeitos, cientistas, OMS, incentivos a claques nas ruas.
A incredulidade da comunidade científica e da imprensa internacional pode ser representada pela expressão cunhada por The Economist: “BolsoNero”.
Pesquisa do DataFolha, publicada no dia 3 de abril, revela que 76% da população estão a favor do isolamento, contra apenas 18% que seguem a posição do presidente; mostra, ainda, um descolamento da avaliação positiva da atuação presidencial (33%) em relação a governadores (58%) e Ministério da Saúde (76%).

O contingente de aprovação parece replicar a mesma proporção que de modo resiliente tem apoiado o desempenho de Jair Bolsonaro ao longo dos últimos 15 meses, com destaque para as taxas de aprovação presidencial entre evangélicos (41%). Mas há uma novidade nos dados do DataFolha.
Enquanto a desaprovação situa-se em 39% na média da amostra, observa-se uma associação entre informação e aumento da reprovação presidencial: 35% (ensino fundamental), 38% (médio) e 50% (superior). Da mesma forma, 64% daqueles com renda mais elevada afirmam que Bolsonaro mais atrapalha do que ajuda na crise do coronavírus. Sugestivamente, esses foram segmentos que, desde o segundo semestre de 2018, emprestaram maior apoio a Jair Bolsonaro.
Da Constituição de 1988 até 2013, a política brasileira esteve baseada em dois pilares: PT e PSDB. Escândalos de corrupção e crise econômica produziram uma enorme rejeição eleitoral ao PT – que somente este parece não ter ainda compreendido – e uma migração de eleitores tucanos para a alternativa antissistema e far right, representada pelo bolsonarismo. A estratégia política do governo Bolsonaro consistiu, assim, em fidelizar seu 1/3 de eleitores, apostar na incapacidade de coordenação da oposição e aguardar que a rejeição antipetista gere, por inércia, migração de votos moderados.
E tudo parecia ter funcionado segundo esse script, até a Covid-19, quando as placas tectônicas da política brasileira começaram a mover-se.
Evidência mais saliente de ruptura na dinâmica política configurada por Bolsonaro ao longo de seu primeiro ano de governo foi a constituição de um arco de oposição à agenda do presidente, formado por políticos tão díspares como Ronaldo Caiado e Marcelo Freixo.
Esses agentes, ainda, vêm sendo responsáveis pela afirmação de prioridade conferida à saúde e a orientações científicas.
Sob essas coordenadas, o que talvez mais chame a atenção tenha sido o renascimento do PSDB. Com suas origens social-democratas empalidecidas ano após ano por feições liberais e pró-mercado, os tucanos ressurgiram sob as mãos de governadores e prefeitos como Doria (SP), Leite (RS) e Covas (São Paulo capital), sobrepondo saúde pública às pressões do mercado.
Não deve passar despercebida, igualmente, a mudança na ênfase das propostas formuladas por seus economistas – Armínio Fraga à frente –, substituindo o mantra das reformas e da ortodoxia fiscal pela defesa de medidas “anticíclicas” e de aumento do déficit fiscal e do gasto público, na melhor tradição keynesiana. Antes que muxoxos e o desdém tomem o lugar dos comentários, convém lembrar que nos últimos anos o isolamento político da esquerda foi responsável por uma notável coleção de derrotas, ilustrada por palavras de ordem como “não vai ter golpe”, “Lula livre” e “ele não”.
Se as manifestações das ruas, em 2013, expuseram as “falhas de governo” como rent-seeking, perdas de delegação e assimetria de informações, deslocando o eixo da política nacional para uma agenda liberal e antissistema, a pandemia parece produzir novo deslocamento de centro gravitacional ao trazer à vista as “falhas de mercado”, como sua incapacidade para neutralizar externalidades, produzir bens públicos e regular a alocação de recursos e oportunidades.
Outro deslocamento diz respeito ao lugar da ciência na vida cotidiana. Nos últimos anos, a crença de que opiniões valem tanto quanto evidências ganhou adeptos, das redes sociais a círculos eruditos convictos no “relativismo epistêmico”. A popularização da informação sobre o uso de modelos matemáticos e epidemiológicos para explicar o desenvolvimento da doença e sobre a rotina de testes e protocolos científicos para a descoberta de medicamentos eficazes poderá contribuir, no futuro, para reforçar escolhas por políticas públicas baseadas em evidências.
Como estaremos nos próximos meses, quando – esperamos – os efeitos mais dramáticos da pandemia tiverem diminuído? Tudo indica que teremos de lidar com o impacto de três crises de grande magnitude: sanitária, econômica e institucional. Mortalidade babilônica somada a uma economia dizimada serão o terreno para alternativas autoritárias.
A disjuntiva reside em nossa capacidade de coordenação social e política: cooperação na sociedade para cumprir as diretrizes sanitárias, garantir o isolamento horizontal e minimizar o número de mortes e o colapso do sistema de saúde pública; política, para construir um arco de compromissos – da direita constitucional à esquerda progressista – capaz de implementar programas “anticíclicos” e assegurar a ordem constitucional.
Para quem torce o nariz, sempre é bom recordar que a coalizão Roosevelt, que promoveu o New Deal nos Estados Unidos nos anos 1930, era formada por sindicatos, liberais progressistas e sulistas conservadores.
André Marenco é professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da UFRGS.
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