As caras da UFRGS | Técnico de laboratório do Departamento de Genética da UFRGS descreve sua jornada de crescimento pessoal e profissional ao longo de 41 anos na Universidade
*Foto: Marcelo Pires/JU
Clênio Deote Machado passou por mais funções na UFRGS do que a memória o permite lembrar. Enquanto desemaranha sua trajetória na Universidade durante a entrevista, não se preocupa em criar uma linha do tempo concisa — a conversa parece funcionar como uma viagem através das memórias que o servidor colecionou ao longo dos anos que passou na Universidade. Começou fazendo trabalhos externos, foi contratado como agente de portaria, trabalhou com taxidermia, xerox, inventário, gerência de patrimônio e coleta de sangue — essas são só as funções das quais ele consegue se lembrar. Hoje, seu cargo oficial é de técnico de laboratório no Departamento de Genética, no Câmpus do Vale, mas Clênio ainda se enxerga como um faz-tudo. “O que estiver ao meu alcance, eu tô fazendo.”
A memória falha tem uma boa justificativa: quando Clênio passou a trabalhar como bolsista na UFRGS após o convite de um amigo, em 1982, tinha apenas 16 anos e o ensino médio recém-feito. “Não sabia o que eu queria da vida”, resume. Na época, sem formação técnica ou superior, diz que não sabia de quase nada — então passou a fazer de tudo, familiarizando-se com as complexidades e belezas de cada uma das áreas pelas quais passou. Quando surgiu a oportunidade de ser contratado efetivamente pela Universidade como agente de portaria, aos 17 anos, deu uma resposta que hoje considera típica do “gurizão” que era na época: “Tenho que ver com a minha mãe”. Depois da aprovação por parte da família, entrou de cabeça na UFRGS para nunca mais sair. Hoje, aos 57 anos, reflete que tudo que aprendeu dentro da universidade foi na prática. “Até existia curso especializado, mas eu aprendi tudo olhando e fazendo.”
Ao longo de seus 41 anos na UFRGS, além das memórias, Clênio também coleciona saudades. O servidor lembra com carinho de seu tempo trabalhando com o falecido professor Francisco Mauro Salzano, geneticista pioneiro no Brasil e docente emérito do Programa de Pós-graduação em Genética da UFRGS. “Que baita professor. Eu sinto falta dele”, se emociona. Reconta entre risadas as situações inusitadas que vivenciou na época em que auxiliava o professor na realização de testes de paternidade. “Já deu briga e tudo”, se diverte.

Os anos 1980, que acolheram Clênio na Universidade, representam outra lembrança preciosa para o técnico. “Foi a década de ouro no Brasil”, afirma. “No futebol, tinha a melhor seleção, as músicas eram ótimas, o rock nacional tinha várias bandas”, justifica. Foi também nessa década que Clênio criou na UFRGS amizades que carrega até hoje. “No final de ano, o pessoal se reunia, fazia festa”, lembra. Com o tempo, o “pessoal das antigas” passou a se aposentar, o cenário e as pessoas se modificaram, e se despedir dos ciclos que se encerram e se adaptar aos novos que se iniciam passou a fazer parte do dia a dia de Clênio ao lado de suas tarefas.
“Cada geração é uma geração, cada visão de mundo é diferente”
Clênio Deote Machado
Enquanto a nostalgia embala o passado, o presente representa possibilidade. A aprovação da filha no curso de Agronomia da UFRGS freou momentaneamente os planos de aposentadoria de Clênio, que pretendia ir morar em Santa Catarina após “pendurar as chuteiras” — mas isso nem de longe é motivo de tristeza para o servidor. “Fiquei muito contente com a aprovação, e ela tá gostando muito”, comemora. Se adaptar às necessidades da família vem naturalmente. “Não consigo me imaginar longe da minha filha”, explica.
Por isso, os mistérios do futuro ele reserva ao universo. “Não pode bater o martelo do que tu vai fazer, podem acontecer várias coisas no meio do caminho”, reflete. Mesmo assim, ele não deixa de sonhar — ainda que agora distante, a aposentadoria continua rendendo vários planos: “Quero me mandar pra Garopaba e fazer alguma coisa que não tem nada a ver com o que eu faço agora”, revela. “Talvez um lugar de açaí, algo assim.”
Até lá, Clênio segue na UFRGS, sempre fazendo o que faz de melhor: um pouco de tudo. Seja organizando laboratórios, auxiliando em pesquisas de mestrado e doutorado ou fazendo levantamento de amostras, a regra para ele é clara: “Sempre tem alguma coisa pra fazer, e eu sempre vou fazer do melhor jeito que eu puder. É de mim isso”.






