O canto de Bruno Cardoso

Perfil | Estudante de Música relata sua trajetória como um dos poucos alunos negros do curso

*Foto: Marcelo Pires/JU

Com 12 para 13 anos, Bruno Cardoso iniciou uma trupe de teatro com colegas do grupo de jovens espíritas que frequentava. Quando foram realizar a montagem de uma peça, tiveram que selecionar uma música. Ele então cantou um trecho, e todos à sua volta paralisaram e perguntaram admirados: “Tu canta?”. Ele respondeu que sim. Resolveram por não usar som mecânico: Bruno é que cantaria em cena. Isso foi há 17 anos, e desde lá ele vem cantando pela vida.

Bruno diz que sempre foi muito musical, ainda que em sua família, apesar de apreciarem música, nunca houve alguém que fosse músico profissional. A paixão, no entanto, não o fez traçar um percurso linear direto para o curso de Música. Ingressou primeiro na Biologia em 2011. Mas logo já entrou para o coral da UFRGS, em que ficou por seis anos.

Nesse meio tempo, ainda, passou pela Administração, até que resolveu que era hora de entrar para a Música.

“Eu era apaixonado, mas tinha muito medo do vestibular. Daí fui seguindo um caminho meio paralelo, estudando e flertando com a música. Até que, em 2019, eu disse: “Ah, vou fazer, vou me jogar, porque eu preciso me sentir pleno naquilo que tô fazendo – não me via de outro jeito”

Bruno Cardoso

No universo da música, já teve a experiência de cantar na Parada Livre de Porto Alegre de 2018 a 2022. Atualmente canta em bares – está montando um repertório de samba, pagode e samba rock – e no grupo de música à capela Vocal 5.

A aventura começou pelos bares, muito antes de ingressar na Música. Resolveu experimentar para ver como é que funcionava e se iria se adaptar. “O primeiro bar onde cantei é um lugar muito especial para mim, o Venê, na Travessa dos Venezianos. Fui muito bem acolhido, foi uma experiência muito legal. Eu tava muito nervoso!”, revela.

Na sequência, deu um passo adiante e fez uma oficina de preparadores vocais em São Leopoldo. Como gostava muito de cantar e de lecionar – àquela altura já dava aula particular de química, física e matemática –, resolveu que passaria a dar aulas de música, isso antes mesmo de entrar na graduação. 

Em 2018, pela primeira vez foi convidado para cantar na Parada Livre. “Foi uma experiência maravilhosa. O maior público para que eu já cantei na minha vida. Teve um ano que eu acho que eles registraram 10.000 pessoas. Fazer um show para um público tão grande é muito bom, é uma experiência que dá um friozinho na barriga.”

Hoje é professor em uma escola de música de Porto Alegre e faz shows. “Tô me sentindo muito pleno!” Além disso, cursa a graduação, onde participa de um projeto de pesquisa sobre a presença de alunos cotistas no curso de Música, com enfoque nos estudantes negros.

Foto: Felipe Ewald/JU
Processo de inclusão

Bruno lamenta o fato de não se ver refletido no corpo discente e docente do curso. Em levantamento realizado junto com sua orientadora, a professora Luciana Prass, constatou que, do total de 437 alunos da Música, são 23 os que são autodeclarados negros, cerca de 5%. 

“Eu acho muito triste, muito solitário, porque não é abordado como deveria ser o estudo da cultura afro-brasileira e dos povos originários na graduação hoje. É uma trajetória solitária, a gente acaba tendo que se apoiar nos nossos familiares, porque a Universidade não acolhe tão bem as pessoas negras”

Bruno Cardoso

O estudante ressalta que acessar o curso de Música é muito difícil por conta da prova específica, que espera um alto conhecimento prévio dos alunos. “No entanto, o ensino de música não é uma coisa universal; já começa por aí, não é uma coisa pública e acessível.” Por isso, são muito importantes os projetos sociais, como a Orquestra Villa-Lobos – com a qual já cantou no espetáculo África.

No currículo do curso, ele cita a falta de inclusão da cultura afro-brasileira e indígena. “Por exemplo: eu fiz cadeiras de história da música e vi só o que aconteceu na Europa. Parece que a música só ocorria na Europa, no resto dos continentes nada.” Ademais, o campo vocal na música popular não recebe muita atenção nas aulas. Em geral, o foco está no canto erudito. 

“Às vezes eu dou uma desanimada, mas aí me lembro de quantas bandeiras levanto comigo, por ser uma pessoa preta, por ser uma pessoa gorda, por ser uma pessoa LGBT. Podia ter dado tudo errado, mas deu certo! Eu sempre digo, de onde eu vim, eu e meus quatro irmãos, a gente dividia uma cama de casal. Hoje, minha irmã é mestra em Geografia, meu irmão é engenheiro de produção, meu irmão mais novo tá fazendo Relações Internacionais e a minha irmã, Processos Gerenciais”

Bruno Cardoso

Natural de Canoas, Bruno diz que não encontrava muitas escolas com educação adequada – “onde não faltassem professores” – na sua região. Então, no ensino médio foi estudar no centro da cidade. “Às vezes não tinha grana para a passagem. Eu ia a pé, duas horas de caminhada para chegar no colégio”, recorda. Junto, levava um lanche: “Sempre lembro do pãozinho amassadinho na mochila”. Quando foi fazer o pré-vestibular, era maior a correria: vinha para Porto Alegre à noite, onde frequentou o CEUE e também um curso do programa de oportunidades de desenvolvimento.

Enquanto não acaba a graduação – está entre o sexto e o sétimo semestre –, trabalha de tarde numa escola de música e, à noite, em um abrigo com acolhimento de menores, onde ingressou há cinco anos, numa época em que estava desempregado. “São histórias muito difíceis, muito cruéis, de abusos e violências extremas.”

Na escola, o público é de pessoas com alto poder aquisitivo. “Quando fui fazer entrevista pra ser admitido, o coordenador perguntou: ‘Como que é pra ti trabalhar com crianças que têm alto poder aquisitivo e ao mesmo tempo com aqueles que não têm nada?’. Eu disse: ‘Olha, para mim, criança é criança, independentemente do lugar. Eles vão precisar das mesmas coisas: educação, atenção e disciplina’.”

Entre as experiências que já viveu no trabalho, recorda de um aluno que foi atender a domicílio pela escola. “Ele começou a xingar a babá dele. Aí eu disse: ‘Me desculpa, espera aí, não é o meu trabalho, não faz parte, mas eu não vou te ver xingar a tua babá na minha frente e deixar assim!’.” “Até porque”, complementa, “a minha mãe trabalhou muito tempo como babá. Isso me doeu.”

No abrigo, atua como educador social, acompanhando as rotinas diárias: ajuda a fazer tema, ministra medicação e mantém a disciplina da casa. “No início, era muito difícil, porque eu acabava ficando muito mal com todas as histórias de maus-tratos, mas com o tempo a gente vai aprendendo a separar. Claro, a gente gosta muito, tem afeto, mas aí a gente vê que não é saudável nem para eles nem para nós ficar levando essas coisas para casa”, conclui.