Nelson “desagradável” Rodrigues

Artigo | Mestrando em Artes Cênicas, João Claudio Petrillo Miranda faz um recorrido por situações relevantes na vida do dramaturgo brasileiro para contextualizá-lo em seu tempo e espaço

*Por João Claudio Petrillo Miranda
*Ilustração: Fabio Viera/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Frente a uma série de questões que o mundo contemporâneo aponta, faz-se cada vez mais necessário que artistas repensem suas obras e suas formas de criar. O mundo está em constante mudança e é importante que essa reflexão seja feita. Surge então a questão: como realizar uma peça teatral consagrada, datada na década de 1960, de um autor renomado, diante de problematizações tão pertinentes que se vivenciam hoje? O que fazer com obras como as de William Shakespeare, por exemplo, quando detectamos ali algum traço que desacomode, que cause desconforto ou que seja desagradável?

Falando em teatro e desagradável não há exemplo melhor do que trazer o dramaturgo que abalou as estruturas da burguesia brasileira e que, até hoje, causa alvoroço por onde passa. Nascido no dia 23 de agosto de 1912, em Recife (PE), Nelson Falcão Rodrigues tornou-se um escritor precoce e um promissor homem de jornal logo aos 13 anos de idade. Mudou-se muito cedo com a família para o Rio de Janeiro, que, naquela ocasião, era a capital do Brasil – que foi transferida para Brasília em 1960. Por esse ocorrido, Nelson sempre se considerou um autor carioca, pois residir ali influenciou sua obra, seu teatro, suas crônicas, valendo-se sempre dos cenários e das personagens com que convivia.

O autor escreveu sua obra teatral entre 1940 e 1980, ou seja, passou pelas mais diversas fases de um país tomado pela opressão política e viveu no período em que ocorria o auge da Ditadura Militar, que só viria a encontrar a redemocratização em 1985. Nelson Rodrigues faleceu no dia 21 de dezembro de 1980. Em sua vida experienciou diversas atividades, mas foi com a estreia de A mulher sem pecado, em 09 de dezembro de 1942, no Teatro Carlos Gomes (RJ), que nasceu o dramaturgo mais amado e odiado do Brasil.

Em texto no qual trata sobre a estreia e disserta sobre o que chamava de teatro desagradável, o autor comenta a reação do público: “O drama não andava; o primeiro ato era uma coisa; o segundo, a mesma coisa; o terceiro, idem. […] a peça não tinha ação; era mórbida; inverossímil; os mais gentis admitiam que fosse cansativa e monótona; os mais sinceros usavam a expressão ‘chata’. Esta, a reação do público”.

Com a estreia da peça Vestido de noiva em 28 de dezembro de 1943, no Theatro Municipal (RJ), o autor inaugura, segundo o professor e pesquisador Sábato Magaldi, o teatro moderno brasileiro. Esta é uma ideia já ultrapassada já que alguns estudos comprovam o contrário. O que se sabe, de fato, é que com essa peça Nelson Rodrigues conheceu o êxito de público, o sucesso. No seu mesmo texto, ele diz: “Veio a estreia. E com maior pasmo, vi-me diante do que, com certa ênfase, poderia chamar de consagração. Chamaram à cena o autor; fomos depois, eu e elenco, à americana, celebrar o triunfo, numa ceia eufórica”. 

O professor Sábato dividiu as peças de Nelson em Tragédias cariocas, Peças míticas e Peças psicológicas, mas o que sabemos é que todas as peças, de um modo geral, tratam da essência humana, de sentimentos como amor, ódio, vingança, sempre desvelando, através do subúrbio carioca, as angústias, as dores e os sentimentos dos brasileiros.

Nelson foi chamado de controverso, polêmico, provocador, paradoxal, tarado, obsceno, escandaloso, pornográfico, mas o certo é que não foi anjo nem demônio. Talvez a junção das duas coisas? Ele nunca quis nos dizer sobre como a vida deveria ser, apenas mostrar como ela era, ou melhor, ainda é (melhor?).

Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, como o velho mesmo dizia: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico”.

Nelson não agradava nem a esquerda, nem a direita, porque provocava a ira de ambos os lados. Crítico ferrenho, frasista de primeira linha, tricolor roxo, torcedor do Fluminense, apaixonado por futebol, mexeu com as estruturas da classe média burguesa, cristã, capitalista. Teve suas peças censuradas e, quando acusado de reacionário, disse: “Eu sou reacionário porque sou pela liberdade. […] Eu me recuso a ser um homem de esquerda, de direita ou de centro. Sou um sujeito que defende ferozmente a sua solidão”.

Nelson não costumava gostar que os diretores adaptassem suas peças, que mudassem falas ou cenas. No cinema, muitas adaptações foram realizadas. Sobre o filme A falecida (1965), do diretor Leon Hirszman, no livro Nelson por ele mesmo, organizado por sua filha Sônia Rodrigues, ele disse: “[…] sou eu, sem humor. Meu diálogo tem dupla face. É patético e humorístico. Leon Hirszman expulsou o humorístico e pegou só o patético. Foi um fracasso de uma coerência formidável”. Ele disse, sobre a atuação de um dos atores, Nelson Xavier, que este interpreta a personagem que chamava de cafajeste dionisíaco como se fosse o Laurence Olivier (ator inglês conhecido por sua atuação sempre erudita e elegante). Este foi o primeiro filme de uma, então, jovem atriz e estreante na sétima arte, Fernanda Montenegro.

Como o autor caracteriza-se por uma contradição paradoxal ululante, o mesmo diz em outro momento, no mesmo livro: “Achei todas as adaptações para o cinema magistrais. Estou fascinado por A dama da lotação”. Isso referindo-se à adaptação de uma de suas histórias de A vida como ela é, que na ocasião, em 1978, foi dirigida por Neville d’Almeida e que tinha no elenco nomes como Sônia Braga e Paulo César Pereio.

É importante sempre contextualizar o autor, o período em que atuou e o que se pode fazer com sua obra para que não seja preciso excluí-lo, eliminá-lo, mas sim ressignificar sua obra que, assustadoramente, ainda dialoga com o mundo atual. Suas peças são antigas, ultrapassadas ou nós que ainda somos os mesmos? Neste breve apanhado de quem foi Nelson Rodrigues, conhecendo mais o autor, fica o convite para um mergulho em sua obra teatral, que é sempre pungente, visceral e a garantia de que depois de lê-la ou vê-la encenada ninguém sairá incólume.


João Claudio Petrillo Miranda é ator e mestrando no PPG em em Artes Cênicas da UFRGS, na linha de pesquisa: Linguagem, Recepção e Conhecimento em Artes Cênicas. Também é Bacharel em Artes Visuais (UNESC) e Teatro (UFRGS).


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