Solidariedade | Mestrandos e doutorandos do Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências fazem campanha para levar cestas básicas, kits de higiene e caixas de leite para uma aldeia indígena e uma comunidade rural
A falta de leite e outros itens essenciais em duas comunidades com as quais interage em seus projetos acadêmicos foi o que impulsionou o início de uma ação solidária promovida pelo Grupo de Pesquisa e Estudos em Educação do Campo e Ciências da Natureza (GPEEC Natureza), coordenado pelo professor José Vicente Robaina. As demandas chegaram por dois mestrandos orientados pelo docente, que viram as carências de seus interlocutores se ampliarem em função da epidemia.
Sem uma meta preestabelecida, o grupo conseguiu arrecadar 4.500,00 reais, valor suficiente para comprar 42 cestas básicas, kits de higiene e 35 caixas de leite, distribuídos em duas comunidades: um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Nova Santa Rita, contemplando as famílias de estudantes da EMEF Rui Barbosa; e a Aldeia Mbya Guarani Pindó Mirim, em Viamão, as famílias de estudantes indígenas da EEIEF Nhamandu Nhemopu’ã.
O professor Robaina, que mantém o projeto de extensão do Clube de Ciências do Campo na escola Rui Barbosa desde 2016, conhece bem as demandas da comunidade conhecida como Vilinha, em Nova Santa Rita. “A Vilinha é bem perto da escola e lá, por exemplo, não tem nem água encanada. Os alunos estavam fazendo um trabalho sobre saneamento básico, então uma das crianças que morava na comunidade disse assim: ‘Na minha casa não tem banheiro, meu pai fez um buraco nos fundos, e a gente vai e faz as necessidades lá’”, relata com angústia o docente.
Na Aldeia Mbya Guarani Pindó Mirim, a situação das famílias se complicou ainda mais com o isolamento social. “Com essa pandemia, o que ficou visível é que sem a venda do artesanato muitas famílias não tinham o que comer, tinham muitas dificuldades e muito medo de sair pra poder buscar alguma coisa”, relata Rita Melo, professora na escola Nhamandu Nhemopu’ã.
“Eventos como a semana cultural, que esse ano não teve, são importantes meios de arrecadação de muito agasalho e alimento, porque cada pessoa que vem nos visitar traz sua doação. Isso causou uma quebra, pois a gente já estava acostumada a receber esse número de doações.”
Rita Melo
Um trabalho de muitas mãos
Para arrecadar o máximo de contribuições, o GPEEC Natureza realizou uma semana intensa de divulgação nos grupos de WhatsApp e em suas redes sociais.
Aline Guterres, doutoranda em Educação em Ciência, relata que a campanha solidária ultrapassou os integrantes do grupo: “Amigos próximos e familiares contribuíram também, além de professores do programa de pós-graduação e da Licenciatura em Educação do Campo da FACED, bem como alguns estudantes”.
Uma força-tarefa foi feita para que esses alimentos e produtos chegassem à casa dos moradores das duas comunidades o mais rápido possível. O doutorando em Ensino de Ciências Rafael Pacheco explica que ficou responsável por organizar as cestas de materiais de higiene. “Outros colegas buscaram fazer a cesta de alimentos. A Aline esteve à frente desse grupo que conseguiu organizar uma ótima quantidade de itens básicos para alimentação. O professor Robaina conseguiu articular com mais alguns apoiadores uma quantidade significativa de leite para atender às famílias com crianças.”
Entrega dos alimentos e produtos nas comunidades

A comunidade que vive no assentamento do MST em Nova Santa Rita foi a primeira a ser visitada pelos representantes do GPEEC Natureza. “Nós nos mantemos o tempo inteiro de máscaras e carregamos álcool gel sempre para higienizar as mãos. A comunidade nos recebeu com muito carinho e organizamos junto às lideranças locais a entrega dessas cestas e kits de uma maneira segura e atendendo igualmente a todas as famílias dos estudantes da escola Rui Barbosa”, conta Aline.
Posteriormente, foi a vez da aldeia indígena. “Chegamos em companhia da professora Rita e do diretor da Escola Indígena à aldeia. Os jovens nos ajudaram a descarregar os kits de higiene e cestas básicas, para que o cacique e as lideranças realizassem a separação entre as famílias”, complementa.
“Não consigo afastar da minha memória a imagem de algumas crianças vindo em direção aos nossos carros, inicialmente um pouco receosas e ao mesmo tempo curiosas para ver o que estava acontecendo; é indescritível o sorriso de cada uma delas quando ajudavam seus irmãos ou familiares a levarem a comida para casa.”
Rafael Pacheco
Cada uma das comunidades recebeu 21 cestas básicas e kits de higiene. As caixas de leite foram doadas para as famílias com crianças. Segundo Rafael, depois da distribuição das cestas, houve “um misto de dever cumprido com um retumbante sentimento de limitação da nossa capacidade de ajudar”.
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