“E o que para nós talvez seja um consolo parece ser o ponto decisivo e de causa ainda não desvendada pelas pesquisas: o vírus não afeta diretamente nenhum órgão determinado, o corpo se mantém clinicamente saudável, apenas cai sobre nós o cansaço. Mas nos casos mais graves é um cansaço que aniquila, que pesa nos ossos, que imobiliza o corpo até fazê-lo desabar. A degradação das nossas casas e ruas, o lixo, toda essa coisa inóspita que nos rodeia só vem aumentando com o cansaço.”
– Trecho do livro Deixe o quarto como está
Um território é contaminado por um vírus antes desconhecido. Os sujeitos habitantes da terra doente veem no trabalho dos médicos e de sua equipe a esperança para a cura da enfermidade que cada vez mais adoece e mata pessoas. Diariamente, os doutores deixam a cidade, arriscando a si, e atravessam o rio para chegarem ao lugar insalubre em que o vírus se espalhou.
Por mais familiares que essas imagens possam parecer hoje, elas não vêm da “realidade”. A única realidade a que pertencem, até serem lidas, é a do universo ficcional criado pelo escritor gaúcho Amilcar Bettega no livro Deixe o quarto como está. O que poderia ser um prenúncio de nossos dias é a história de A Cura, um dos catorze contos que compõem o livro lançado em 2002 e que, a partir deste ano, passa a ser uma das Leituras Obrigatórias do Vestibular da UFRGS. Em narrativas fantásticas, breves e envolventes, a obra prevê muito além do vírus. Apresenta histórias que antecipam o cansaço, a imobilidade, a falta de sentido e o desconcerto da sociedade moderna.
Para Antonio Sanseverino, professor do PPG em Letras da UFRGS, a obra de Amilcar utiliza o gênero fantástico moderno para falar de questões do coletivo. “O livro toca em várias coisas próprias da condição humana. O conto A Cura fala sobre o cansaço, a doença, a melancolia. Fisicamente todos estavam bem, mas o vírus fazia com que as pessoas não tivessem força e ânimo para nada. E hoje a gente vê, de fato, muita gente adoecida, em depressão, por exemplo. Um dos aspectos é este: a pessoa fica inerte e não consegue ter força de ação e reação sobre o mundo”, observa.
O título já anuncia essa sensação de inércia que percorrerá os contos. Como está o quarto – esse lugar íntimo e privado – que será deixado? A impressão de estar sem saída já começa no nome da obra.
“Esse quarto é aquele lugar que a própria pessoa não consegue arrumar. Está em desordem porque o indivíduo não consegue fazer isso por si. É uma imagem muito significativa do cansaço trazido por Amilcar.”
Antonio Sanseverino
Compondo o Cansaço
Se muitos dos personagens de Deixe o quarto como está sofrem de uma profunda imobilidade, eles vivem também uma Espera – nome do 13.º conto. Um povo que espera uma cura, um casal que espera um encontro, um sujeito que espera por horas a cachorrinha na Pet Shop, um homem que espera a mulher amada vir deitar-se ao seu lado. Para Amanda Prado, doutora em Letras pela Universidade Federal de Alagoas, essa é uma das características mais marcantes da obra e um dos elementos que entrelaça os contos.
“Em Correria, por exemplo, o personagem não pode parar de correr. Tem-se uma ideia de prisão, assim como nos outros, de encarceramento. Não é estar parado fisicamente, é a imobilidade de não agir conforme você quer. Nos contos, quando não se está preso no espaço, se está preso no tempo. Preso na espera. E os contos vão se ligando nisso. É como se um passasse a espera para o outro. E essas são também esperas internas, como se o autor projetasse no externo o que acontece no mundo interior”, pondera Amanda.
Contando o Desconcerto
Não são só os personagens que estão à espera no livro de Bettega. O autor coloca os leitores a aguardarem também, uma vez que em nenhum momento resolve por completo os conflitos apresentados nas breves narrativas. “A ideia do conto que não se encerra é bastante angustiante. Ao não definir todos os aspectos, ele parece nos mostrar que esse mundo não tem um sentido configurado. O mundo ficcional propriamente dito é cheio de fissuras, rupturas, que não são compreensíveis”, explica Sanseverino. A estratégia dos finais – e dos sentidos – abertos transfere para o leitor a responsabilidade de criar.
“Ele nos demanda imaginar o que se desdobrou. O autor abdica de preencher as lacunas e explicar o sentido da história. É o leitor que terá de fazer esse gesto interpretativo. E ele é bastante aberto.”
Antonio Sanseverino
Segundo Amanda, isso só é possível porque Amilcar é um autor que trabalha com o não dizer, com a sugestão. Ela lembra o conto Exílio, em que o narrador diz “vou fechar a loja e vou ir embora da cidade” após uma frustração contínua com o próprio negócio e o desinteresse dos compradores. “Mas a gente não sabe em nenhum momento qual é a loja, qual é o produto, qual a natureza do que ele vende, qual é essa cidade. A sensação de incerteza que vemos em Exílio atravessa todo livro.”
Sem precisar quem são os personagens, os narradores e os ambientes, Deixe o quarto como está coloca o leitor dentro desse sonho-realidade. Uma composição muito precisa de um mundo que, apesar de fantástico, não é tão distante. “O livro não trabalha com a ordem do realismo, rompe os nexos, provocando um grande afastamento da realidade. Ao mesmo tempo, fala de um sujeito da modernidade, ou da pós-modernidade, que não tem mais amparo para a produção de sentido. Nem da religião, nem de um explicar totalizante do mundo pela política. É um indivíduo em desamparo, em desconcerto”, resume Antonio.

Especial Leituras Obrigatórias
Com o objetivo de ampliar as experiências de leitura, o JU produz, desde 2018, uma série de reportagens em que especialistas destacam aspectos e fazem análises interpretativas das obras indicadas pela Universidade. Acompanha cada texto a criação de artistas convidados que dialoga com a obra e a biografia de autoras e autores. Veja as reportagens aqui.
Joyce Rocha é natural de Cuiabá, no Mato Grosso, e mora em Porto Alegre desde 2017, onde estuda Jornalismo na UFRGS e faz ilustrações.
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Entrevista
Videoperformance
O estudante de Teatro Gabi Faryas apresenta uma interpretação para conto do livro Deixe o quarto como está, de Amílcar Bettega. A orientação é de Inês Marocco:




