A Intermediação Financeira em Tempos de Crise

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Em uma crise de proporções potencialmente maiores do que a de 2007-2009, como se comportarão intermediários financeiros (IFs) e governos? Se o passado é um bom farol para se avaliar os cenários futuros, não será uma surpresa se os governos optarem por redobrar a aposta no binômio “socorro” aos rentistas com posterior socialização dos custos. Alternativamente, a segunda crise de grandes proporções em pouco mais de uma década poderá abrir espaço para reformas mais estruturais que resgatem a eficiência sistêmica da intermediação financeira. 

Nas últimas décadas, o setor financeiro cresceu muito mais do que o conjunto da economia. E isto não produziu maior eficiência, pelo contrário. Estudos do Banco Internacional de Compensações (BIS, na sigla em inglês) e de outros pesquisadores independentes sugerem que tal expansão não esteve associada a aumentos da produtividade das economias, mas sim à ampliação da instabilidade financeira. 

Tal realidade não diminui a importância da intermediação financeira. Ela apenas nos informa que no mundo contemporâneo o poder das finanças cresceu de forma desproporcional, com resultados que afetam negativamente o bom funcionamento das economias e da própria democracia. O exemplo mais contundente neste sentido foi a crise financeira global (CFG, 2007-2009). No balanço do FMI sobre os seus dez anos (World EconomicOutlook, October 2018, capítulo 2) estima-se que, em média, os países do G20 tiveram gastos discricionários cumulativos da ordem de 5% dos respectivos produtos entre 2008-2010 para amenizar os impactos da crise. Ademais, os pacotes de saneamento financeiro (capitalização, empréstimos de liquidez, garantias, compra de ativos “podres”, etc.) atingiram 44% do PIB (média ponderada pelos respectivos produtos em paridade poder de compra) nas economias de alta renda e de 2% dos produtos nos países emergentes. 

Os governos não hesitaram em intervir ativamente nas economias para proteger acionistas, controladores e gestores financeiros. E o fizeram por meio de um maciço processo de “socialização” dos prejuízos. Não à toa, os eleitores passaram a questionar o sistema político, por percebê-lo mais sensível aos interesses dos rentistas em detrimento do conjunto da população.

Assim, ao invés de se punir excessos e eventuais fraudes perpetuadas no auge da euforia que antecedeu à CFG, os IFs foram socorridos e puderam gerar lucros ainda maiores e com baixa tributação correspondente. Por decorrência, as dívidas públicas dispararam, o que levou à adoção das políticas de “austeridade”, ou seja, aumento de impostos e redução da vitalidade na oferta de serviços públicos (educação, saúde, previdência etc.). Houve um processo de socialização dos custos de resolução desta crise, sem que o respectivo ônus tivesse sido direcionado a quem era de direito. Tal custo ainda não foi pago e a pandemia do Covid-19 ameaça a recuperação global em um momento em que dela mais necessitávamos.

A intermediação financeira ocupa um lugar especial nas economias de mercado. Os bancos e demais instituições de alocação de capitais financeiras viabilizam o bom funcionamento do sistema de pagamentos e a transformação de poupança em investimento. Os intermediários financeiros estão dispostos a assumir determinados riscos que os indivíduos ou as demais empresas não conseguem ou não desejam correr. Assim, por exemplo, os pequenos poupadores sentem-se mais seguros em aplicar seus recursos em produtos rentáveis financeiros simples, padronizados, de baixo risco e que sejam líquidos, vale dizer, que possam ser transformados rapidamente em poder de compra (“dinheiro na mão”). Por sua vez, empresas que precisam comprar novos equipamentos ou indivíduos que desejam trocar de carro ou viajar, podem captar recursos em bancos (empréstimos) ou no mercado de capitais (emitindo dívidas ou ações, no caso de grandes empresas) em condições que são opostas àquelas vislumbradas por quem tem recursos disponíveis. São os IFs que viabilizam a transformação de riscos e prazos distintos entre estes dois grupos de agentes econômicos. 

A intermediação financeira envolve a interação complexa de diversos agentes. O Estado (Banco Central, Tesouro e demais instituições de regulação e supervisão de capital) é responsável por garantir a estabilidade monetária e financeira. Adicionalmente, o Estado pode ter suas próprias instituições financeiras atuando no segmento comercial ou em atividades específicas de oferta especializada de crédito, particularmente os bancos de desenvolvimento. 

Em condições normais de temperatura e pressão, a intermediação financeira permite que a economia funcione de forma mais eficiente. Todavia, nem sempre as condições são normais. Crises financeiras são fenômenos recorrentes. Elas se originam, muitas vezes, pelos excessos cometidos pelos próprios IFs. Estes são empresas capitalistas que visam o lucro e que podem adotar estratégias agressivas de expansão. O crédito, que é uma força motriz essencial no capitalismo, pode, então, crescer de forma excessiva. Isto significa que, na outra ponta, há empresas e famílias se endividando em um ritmo mais intenso do que a sua capacidade de pagamento. Tais dinâmicas apresentam um caráter cíclico e emergem da interação, também complexa, entre o comportamento dos intermediários financeiros, dos tomadores de crédito e das autoridades monetárias. Estamos novamente em estado de alerta. 


André Moreira Cunha é Professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais e Pesquisador do CNPq