Artigo | A bióloga Ana Carolina Marques da Silva apresenta estudo em que encontrou resíduos da construção civil nas areias do estuário, apontando necessidade de políticas que regulem a destinação desses resíduos
*Ilustração: Fabio Viera/Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
O que a areia pode nos contar sobre a poluição? Muito mais do que imaginamos. O Complexo Estuarino-Lagunar Tramandaí-Armazém (CELTA), no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, é um ecossistema essencial, mas que sofre pressões da urbanização, da silvicultura e do cultivo de arroz. Esses impactos podem estar literalmente misturados à areia.
A composição dos sedimentos pode fornecer pistas sobre essas influências antrópicas. Para investigar essa relação, analisamos a presença de componentes antropogênicos (materiais criados ou processados por seres humanos) no sedimento superficial das margens emersas do CELTA. Mas o que isso significa na prática? Quais tipos de resíduos estão se acumulando na região e quais são suas possíveis origens?
Para responder a essas questões, coletamos amostras em oito pontos, desde a Laguna do Armazém até o canal de ligação com o oceano, popularmente conhecido como Barra do Rio Tramandaí, sempre na linha de deixa da maré alta. As análises foram feitas com peneiras granulométricas (que separa o sedimento em diferentes intervalos de tamanho), e os materiais triados foram classificados como naturais (minerais) ou antropogênicos (como fragmentos de construção e plásticos). As partículas foram identificadas visualmente e categorizadas por tamanho (macro, meso e micro) e composição (plástico, vidro, metal, papel e resíduos de construção civil – RCD).
A areia das margens do CELTA não é homogênea. As análises granulométricas revelaram variações significativas no tamanho dos grãos ao longo dos pontos amostrados, influenciando tanto a classificação granulométrica quanto o grau de seleção dos sedimentos (quantas classes de tamanhos diferentes existiam nas amostras). As amostras variaram desde areia fina a areia grossa, com graus de seleção que vão de bem a pobremente selecionadas.
Os resultados indicam que as áreas mais próximas da urbanização possuem sedimentos mais heterogêneos, com ampla variação no tamanho dos grãos. Nesses locais, a presença simultânea de grãos menores (areia fina) e grãos mais grossos (antropogênicos) resulta em uma má seleção dos grãos. Em contrapartida, pontos mais afastados e menos impactados apresentaram sedimentos mais homogêneos, com menor variação do tamanho de grão e, consequentemente, uma melhor seleção granulométrica.
A análise qualiquantitativa das amostras analisou 15.766 partículas, sendo 2.412 componentes antropogênicos (CA), representando 15,3% do total, enquanto 13.351 partículas eram naturais (CN), ou seja, sedimentos alóctones transportados para a região e três partículas cuja composição não pôde ser identificada.
Os pontos mais impactados foram o Centro de Eventos (P7), com 1.339 componentes antropogênicos, concentrando mais da metade do total de CA (55,5%), seguido pelo Arroio Camarão (P8), com 639 CA (26,5%), e a Prainha do CECLIMAR (P4), com 351 CA (14,5%). Todos esses pontos apresentavam urbanização. Por outro lado, três pontos – Rio Tramandaí (P1), Delta Intralagunar (P2) e Margem Lagunar Osório (P3) – não apresentaram resíduo algum antropogênico, sendo esses pontos sem a presença de urbanização.
À medida que o tamanho da fração diminui, a representatividade de CA também diminui.
Quando olhamos para o tipo de material encontrado, os RCD dominam a cena, representando 97,8% de todos os CA detectados. Entre os 2.358 itens dessa categoria estavam fragmentos de brita, concreto, tijolo, asfalto, azulejo e telha de fibrocimento, possivelmente contendo fibras de amianto – um material reconhecidamente perigoso. Esse fragmento foi classificado como RCD classe D, por representar risco à saúde e ao meio ambiente, enquanto os demais resíduos foram considerados recicláveis ou reutilizáveis (classe A).
Além dos RCD, foram encontrados 14 fragmentos de carvão (0,6%), 21 fragmentos metálicos (0,9%), 10 microplásticos (0,4%), incluindo fragmentos de plástico, um pedaço de isopor bolinha e uma partícula de tinta vermelha, quatro fragmentos de composição mista de papel, alumínio e plástico (0,2%) e apenas um fragmento de vidro foi observado (0,04%).
Em relação ao tamanho dos componentes antropogênicos analisados, foram identificados quatro CA de tamanho macro (< 1 m e ≥ 25 mm), 136 meso (< 25 mm e > 5 mm) e 2.272 micro (≤ 5 mm e > 1 µm).
Entre os componentes antropogênicos, quatro partículas foram identificadas como microantropoquinas (≤ 5 mm). O termo ‘antropoquina’ refere-se a rochas sedimentares recentes que contêm componentes antropogênicos, podendo ainda estar cimentadas com material biogênico. Esse é o primeiro registro de antropoquinas na fração micro no mundo, levantando questões sobre sua formação, podendo ser primárias, se foram formadas a partir da cimentação de sedimento ao redor dos pequenos fragmentos de CA, ou secundárias, se forem oriundas da fragmentação de antropoquinas maiores.
Estatisticamente observou-se que a urbanização está diretamente relacionada à presença de componentes antropogênicos no CELTA, sendo esses resíduos, por sua densidade, provavelmente originários da área local. Isso reforça a necessidade urgente de estratégias mais eficazes para a destinação de RCD nos municípios da região.
Os resultados deste estudo indicam que a alta presença de RCD aponta falhas na gestão desses resíduos, o que reforça a necessidade de políticas públicas eficazes para o manejo de resíduos sólidos, especialmente em áreas urbanizadas, destacando a importância da urbanização sustentável.
Ana Carolina Marques da Silva é bacharel em Ciências Biológicas com ênfase em Gestão Ambiental Marinha e Costeira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no Câmpus Litoral Norte, Centro de Estudos Costeiros Limnológicos e Marinhos.
O trabalho de conclusão de curso que deu origem a este artigo foi orientado pelo professor Gerson Fernandino.
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