Conectados pela Amazônia

Artigo | Bianca Darski Silva e Ayan Santos Fleischmann relatam a criação de rede de colaboração que integra pesquisadores de diferentes áreas da ciência e promove ações de divulgação científica com foco na região

*Por: Bianca Darski Silva e Ayan Santos Fleischmann
*Foto: Karina Martin
s

Em uma sala do Instituto de Pesquisas Hidráulicas, um dos pontos extremos do Câmpus do Vale da UFRGS, um doutorando em recursos hídricos estuda os padrões de inundação dos rios da Amazônia. No outro extremo do câmpus, no Instituto de Biociências, uma doutoranda busca entender como os padrões de inundação se relacionam à dispersão de sementes pelas águas amazônicas. Eles não se conhecem, mas são fascinados pela mesma região. Alguns anos mais tarde, esses mesmos estudantes – interessados pela dinâmica das águas dos rios que adentram imensas áreas de florestas de várzea e igapó – terminam por se encontrar em um congresso acadêmico a mais de mil quilômetros de distância da universidade em que estudam.

Uma vida de longas viagens está alinhada com a Amazônia, o bioma dos superlativos. Dona de uma riqueza ambiental e sociocultural imensa, a Amazônia contém algumas das maiores áreas inundáveis do planeta. O sistema amazônico transcende fronteiras, impactando o clima de todo o continente e mesmo de outras partes da Terra. Por tudo isso, e muito mais, é fácil se encantar pela Amazônia.

No mundo acadêmico, não há fronteiras geográficas. É permitido e estimulado que estudantes desenvolvam suas pesquisas sobre o tema pelo qual têm curiosidade e interesse. Mas, em se tratando da Amazônia, na outra ponta do país, é sem dúvidas um desafio a mais. Atividades de campo, por exemplo, têm um alto custo financeiro, com viagens que costumam durar em torno de 20 a 30 dias. E haja excesso de bagagem! “Dos equipamentos essenciais, se puder, leve sempre dois!”, recomendava um professor. “Na várzea, se você tem um, você não tem nenhum.” Se um GPS cair na água ou molhar durante um toró amazônico, pode ser mais fácil voltar para casa do que tentar comprar um novo. 

Foto: Karina Martin

Em uma escala muito pequena, a conexão entre os dois doutorandos facilitou imensamente o desenvolvimento de suas teses. Foi assim que nasceu uma rede de colaboração entre profissionais que têm na Amazônia o foco de suas pesquisas. Inicialmente a proposta era um encontro sem grandes pretensões, talvez um café no restaurante da FAURGS, o famoso “Chiques”. No entanto, o segundo semestre de 2019 foi marcado por imagens de uma Amazônia em chamas e foi muito natural que aquela união de biólogos, engenheiros, geólogos, sociólogos e jornalistas culminasse em algo maior 

Com o apoio de diversos setores da Universidade, aconteceu o Conexões Amazônicas UFRGS: um evento presencial e aberto ao público, cujo objetivo central era apresentar as pesquisas sobre a Amazônia realizadas na UFRGS, além da criação de um espaço de troca de ideias. É muito raro unir, em um mesmo local e ao mesmo tempo, profissionais de áreas tão diferentes, representando mais de dez Programas de Pós-graduação. Dos jargões à forma de se organizar um evento, à primeira vista tudo indicava visões muito diferentes de fazer ciência por parte de cada pessoa. Mas aos poucos as pontes foram construídas, a confiança foi criada e a rede de colaboração estabelecida. Após o evento, que ocorreu em novembro de 2019, a equipe permaneceu unida, se expandiu e atualmente conta com profissionais de dentro e de fora da UFRGS, em especial de instituições da região amazônica. 

Não há dúvida de que espaços abertos para discussão como este são fundamentais para o avanço da ciência. Infelizmente, dentro das universidades ainda é comum ver estudantes, professores e pesquisadores trabalhando exclusivamente e confinados em suas “caixas”. Se por um lado isso é reflexo do alto grau de especialização que o mundo acadêmico tem exigido nas últimas décadas, é notável a necessidade de pesquisas e discussões cada vez mais interdisciplinares. 

Em tempos de pandemia e restrições de atividades presenciais, mais uma barreira favoreceu o isolamento das pessoas dentro das universidades. Nesse sentido, as conexões digitais se tornaram um importante elo que tem permitido a continuidade das atividades de ensino, pesquisa e extensão. Foi justamente nesse contexto que a rede Conexões Amazônicas voltou suas atividades para a divulgação científica em meio virtual. No Blog da rede, semanalmente, há um novo texto sobre pesquisas com temática amazônica, com o objetivo central de democratizar o acesso à ciência, mantendo o caráter interdisciplinar que marcou a rede desde o seu início. É também uma forma de devolver à sociedade o investimento que foi feito na formação de profissionais em instituições de ensino públicas. 

Foto: Karina Martin

Divulgar ciência é uma experiência de aprendizagem em duas vias, pois criadores de conteúdo e revisores estão em contínuo aprendizado. É desafiador romper a bolha da autofagia acadêmica, isto é, fazer com que pessoas de fora da nossa microárea de atuação venham a se interessar pelo conteúdo que desenvolvemos e divulgamos. Ainda que sejam temas de amplo interesse, como conexões históricas entre mamíferos da Amazônia e da Mata Atlântica, diversidade genética de indígenas, compreensão do clima passado em testemunhos de gelo, ou mesmo adaptação de comunidades ribeirinhas às mudanças climáticas.

Nesta nova fase da rede, o maior desafio tem sido a dificuldade que muitos cientistas têm para comunicar suas pesquisas de modo simples e acessível. Uma solução seria a inclusão de disciplinas de comunicação na grade curricular de cursos de graduação e pós-graduação. Iniciativas como a da disciplina sobre divulgação científica do Núcleo de Disciplinas Interdisciplinares da UFRGS são fundamentais. Os resultados serão sempre positivos

A ciência movida pela curiosidade e pela colaboração se traduz em uma forma mais saudável de lidar com as inúmeras adversidades do mundo acadêmico. Seguindo sua proposta inicial, a rede Conexões Amazônicas permanece aberta para a promoção de pesquisas feitas por profissionais de diferentes instituições, em especial daquelas localizadas na região amazônica. No segundo semestre de 2021, nos encontraremos novamente em uma série de eventos virtuais. Presencialmente ou não, seguiremos conectados. 

Foto: Karina Martin

Bianca Darski Silva é bióloga (UFRGS), mestre em Zoologia (MPEG/UFPA) e doutora em Ecologia (UFRGS). Atualmente é pesquisadora do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM) e integrante da Rede Conexões Amazônicas.
Ayan Santos Fleischmann é engenheiro ambiental (UFRGS), mestre e doutorando em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental (UFRGS), e integrante da Rede Conexões Amazônicas.


Especial Amazônia


As imagens publicadas com este artigo são de Karina Martins, fotógrafa de Belém do Pará, onde reside e trabalha. Karina tem formação em livre em fotografia, com pesquisa documental sobre religiões de matriz africana, sincretismo religioso e manifestações de cultura popular. Também trabalha poéticas visuais com lugares de afeto e memória, usando a fotografia experimental como suporte.

image_pdfimage_print